Carlos Nejar é um dos nomes centrais da poesia brasileira contemporânea. Nascido em Porto Alegre, em 11 de janeiro de 1939, ele publicou o primeiro livro, Sélesis, em 1960 e, desde então, construiu uma obra que atravessa poesia, romance, ensaio, literatura infantojuvenil e tradução. Em 2017, a Academia Brasileira de Letras indicou seu nome ao Prêmio Nobel de Literatura, um reconhecimento raro para um autor de língua portuguesa e o coroamento de mais de seis décadas de escrita.
O nome completo é Luís Carlos Verzoni Nejar. Ele ocupa a cadeira 4 da Academia Brasileira de Letras desde 1989, quando foi recebido por Eduardo Portella na sucessão de Vianna Moog. Também pertence à Academia Brasileira de Filosofia, à Academia Espírito-Santense de Letras, ao Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e à Academia de Letras de Brasília. Na ABL, foi secretário-geral e respondeu pela presidência em exercício no ano 2000.
Da formação em Direito à vida literária
Nejar fez a formação escolar no Colégio do Rosário, em Porto Alegre, onde cursou o clássico. Iniciou Letras Clássicas na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, curso que não concluiu, e formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela mesma universidade em 1962. A carreira jurídica caminhou junto com a literatura: foi professor da rede pública em Itaqui, promotor de justiça em cidades do interior gaúcho e procurador de Justiça em Porto Alegre.
Essa convivência entre o ofício do direito e a poesia ajudou a definir um autor que nunca tratou a escrita como ornamento. A obra nasce do contato com o interior do Rio Grande do Sul, com a paisagem do pampa e com as pessoas comuns, material que atravessa tanto os versos quanto a ficção.
O poeta do pampa e a poesia de Carlos Nejar
Chamado de "o poeta do pampa brasileiro", Nejar lançou Sélesis em 1960 e passou a ser lido como uma das vozes da chamada geração de 60. A crítica costuma destacar a riqueza de vocabulário e o uso das aliterações, recursos que dão musicalidade aos versos. O crítico Ronald Augusto chegou a situá-lo, no fim dos anos 1970, ao lado de Mário Quintana e Heitor Saldanha entre os principais poetas do estado.
A alcunha não é apenas geográfica. O pampa aparece como território mítico em boa parte da poesia de maturidade do autor e dá título a A República do Pampa, publicado em 2021 e apontado pela crítica como uma de suas obras maiores.
Entre os livros que firmaram essa reputação estão Ordenações, O Poço do Calabouço, Árvore do Mundo e Os Viventes, publicado em 1979 e relançado em 2025 como A Terra dos Viventes, em edição definitiva. A poesia de Nejar combina dicção épica, inventário de personagens e uma atenção constante ao que resiste no ser humano.
Romances, ensaios e traduções
A obra em prosa acompanha a ambição da poesia. Carta aos Loucos (1998) narra a vida de um povoado onde o tempo se acumula em um só instante; O Livro do Peregrino (2002), Riopampa e A Engenhosa Letícia do Pontal exploram uma ficção que mistura invenção, memória e ensaio. A produção em prosa se estende ainda a O Selo da Agonia e O Poço dos Milagres, publicados nos anos 2000. Nejar também publicou livros para crianças e jovens, como Zão e A Vida Secreta dos Gabirus.
Como ensaísta, escreveu História da Literatura Brasileira, percurso crítico da carta de Caminha aos autores contemporâneos, reeditado em versão revista e ampliada. Como tradutor, verteu para o português obras de Jorge Luis Borges, como Ficções e Elogio da Sombra, e de Pablo Neruda, como Cem Sonetos de Amor.
Prêmios, Nobel e reconhecimento internacional
A trajetória acumula prêmios literários importantes:
- Prêmio Nacional de Poesia Jorge de Lima, do Instituto Nacional do Livro (1971);
- Prêmio Fernando Chinaglia, da União Brasileira de Escritores (1974);
- Prêmio Luísa Cláudio de Souza, do PEN Clube do Brasil (1977);
- Prêmio Érico Veríssimo, da Câmara Municipal de Porto Alegre (1981);
- Troféu Francisco Igreja, da União Brasileira de Escritores (1991);
- Prêmio Cassiano Ricardo, do Clube de Poesia de São Paulo (1996);
- Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos de Arte (1999);
- Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Nacional (2000).
Fora do Brasil, a revista Quarterly Review of Literature, de Princeton, incluiu o poeta em uma seleção de cinquenta autores por ocasião de seu cinquentenário. Em 2002, a World Literature Today o apontou entre os dez poetas mais importantes do país. O crítico suíço Gustav Siebenmann o incluiu entre os 37 poetas-chave do século XX em estudo sobre a poesia hispano-americana.
Família e presença pública
Nejar é pai do também escritor Fabrício Carpinejar, colunista e autor de livros de crônicas e poesia. Casado com Elza Griffo Nejar desde 1981, o poeta vive no Rio de Janeiro e mantém atividade literária constante: em 2025, lançou a edição definitiva de A Terra dos Viventes e, em 2026, publicou o romance Dom Luciano de la Tarde, o Cavaleiro da Nobre Figura. No mesmo ano, uma adaptação teatral de sua obra foi levada ao palco do Teatro Municipal de São Leopoldo.
Por onde começar a ler Carlos Nejar
Para quem quer conhecer a obra, o caminho depende do interesse:
- poesia: A Terra dos Viventes, edição definitiva de um dos seus livros centrais;
- romance: Carta aos Loucos e Dom Luciano de la Tarde;
- crítica literária: História da Literatura Brasileira.
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