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Cornélio Pires

Bandeirante do Folclore Paulista

Nascimento: 1884 Tietê, SP
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Escritor, jornalista e folclorista paulista, Cornélio Pires levou a cultura caipira aos livros, discos e palcos e é apontado como precursor da música sertaneja.

Cornélio Pires foi o jornalista, escritor e folclorista que levou o modo de vida caipira ao palco, ao livro e ao disco muito antes de a cultura popular virar tema de mercado. Nascido em 13 de julho de 1884, no bairro do Sapopemba, em Tietê, no interior de São Paulo, começou como aprendiz de tipógrafo, virou repórter, tornou-se um dos autores mais vendidos do Brasil na década de 1920 e entrou para a história da música brasileira ao bancar do próprio bolso a coleção de discos que apresentou a música caipira ao país.

Chamado de “bandeirante do folclore paulista”, percorreu o interior levando espetáculos, palestras e causos, registrou o vocabulário do homem do campo em um dicionário próprio e criou personagens que atravessaram gerações. Sua obra é citada por estudiosos como Antonio Candido, continua sendo reeditada e permanece viva em Tietê, onde um museu, um parque e uma semana cultural levam o seu nome.

Das redações de São Paulo ao palco do Mackenzie

Cornélio Pires cresceu às margens do rio Tietê, estudou com professores ambulantes e frequentou o grupo escolar Luiz Antunes antes de ser contratado, ainda adolescente, pelo jornal O Tietê como aprendiz de tipógrafo. Aos 17 anos, mudou-se para a capital para tentar o curso de Farmácia. Reprovado no concurso, conseguiu emprego na redação de O Comércio de São Paulo, iniciou a carreira em 1902 e não deixou mais a imprensa: passou por A Cidade de Santos e O Movimento, trabalhou como revisor em O Estado de S. Paulo e colaborou em O Pirralho, semanário fundado por Oswald de Andrade.

Em 1904, fez a cobertura da Revolta da Vacina para os jornais paulistas sem sair de São Paulo, entrevistando passageiros que desembarcavam na estação do Norte fugidos da capital federal. A rotina de repórter consolidou o método que marcaria toda a sua obra: observar o homem comum, ouvir a sua fala e transformar a cena cotidiana em crônica, poesia ou causo.

Musa Caipira, o Mackenzie e a carreira de escritor

Em 1910, publicou Musa Caipira, apontado como o primeiro livro de poesias dialetais registrado no Brasil, e organizou no Colégio Mackenzie, em São Paulo, um espetáculo que reuniu catireiros, cururueiros e duplas de cantadores do interior. A apresentação é lembrada como a primeira vez que a cultura raiz caipira subiu a um palco na capital paulista. Do sucesso nasceu um show humorístico com anedotas, causos, imitações e modas de viola, formato que ele levaria a cidades de todo o país.

Entre 1912 e 1914, foi professor de ginástica na Escola Normal de Botucatu. Depois, dedicou-se aos espetáculos, às palestras e aos livros, tornando-se uma presença constante na vida cultural paulista e um divulgador incansável do vocabulário, das músicas e das festas do interior.

A Turma Caipira e a gravação que abriu caminho para a música sertaneja

No fim da década de 1920, Cornélio Pires fez o que nenhum artista havia feito no Brasil: financiou a própria gravação para levar a música caipira ao disco. Em 1929, pelo selo Columbia, representado no país pela Byington & Company, lançou a moda de viola “Jorginho do Sertão”, e a coleção que ficou conhecida como Turma Caipira chegou ao mercado em 53 discos de 78 rotações, com modas, sambas, cateretês, piadas, contos e causos, muitos deles narrados pelo próprio Cornélio.

A série deu à música caipira um formato comercial e é apontada como um dos pontos de partida da música sertaneja. O sociólogo José de Souza Martins atribui a Cornélio Pires a adaptação da música caipira ao disco e ao espetáculo, e o pesquisador Pedro Macerani trata a Turma Caipira como o berço dessa transição. Por ter custeado a produção por conta própria, Cornélio Pires também é lembrado como o primeiro produtor musical independente do país.

Os livros, do Dicionário do Caipira ao Joaquim Bentinho

Ao longo de mais de três décadas, Cornélio Pires publicou 24 livros, entre poesia, contos, humor e folclore, e foi o autor que mais vendeu livros no Brasil na década de 1920. Em Conversas ao Pé do Fogo (1921), descreveu os diferentes tipos de caipira e publicou o Dicionário do Caipira, glossário que registrou expressões do português rural paulista. As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho, o Queima Campo (1924), protagonizadas por um personagem de lábia e imaginação, consolidaram o seu humor. Em Sambas e Cateretês (1930), recolheu letras de composições populares que teriam caído no esquecimento sem esse registro.

A obra também chegou ao mercado editorial pelas mãos de nomes consagrados: Cenas e Paisagens da Minha Terra, de 1921, foi lançada pela Monteiro Lobato & Cia. Editores, selo do autor de Monteiro Lobato. Em 1926, Cornélio criou, com o cartunista Voltolino, a revista humorística O Sacy, cujo primeiro número circulou em janeiro daquele ano e chegou a 14 mil exemplares semanais.

Cinema, rádio e o Teatro Ambulante

Cornélio Pires também foi um dos primeiros a perceber o potencial do cinema e do rádio para a cultura caipira. Dirigiu Brasil Pitoresco (1924), registro de uma viagem por cidades do litoral brasileiro, e Vamos Passear (1935), com a dupla Sorocabinha e Mandy, considerado o primeiro filme sonoro independente do Brasil. No mesmo ano, iniciou na Rádio Difusora de São Paulo as palestras em que apresentava discos, causos e apresentações de violeiros, programa ouvido em todo o interior paulista.

Em 1946, criou o Teatro Ambulante Gratuito Cornélio Pires, que percorreu cidades do interior com espetáculos financiados pela Companhia Antártica Paulista. Na mesma época, encerrou as atividades como escritor e jornalista para se dedicar ao projeto, que manteve até o fim da vida.

Espiritismo, últimos anos e legado

Criado em uma família presbiteriana, Cornélio Pires aproximou-se do espiritismo nas viagens pelo interior, impressionado com fenômenos mediúnicos que presenciou. Estudou Allan Kardec, Léon Denis e obras psicografadas e, na década de 1940, escreveu três livros sobre o tema: Coisas do Outro Mundo (1944) e Onde Estás, ó Morte? (1947), além de trabalhar em uma Coletânea Espírita que não chegou a concluir. Em 1965, a Federação Espírita Brasileira publicou O espírito de Cornélio Pires, obra psicografada por Chico Xavier e Waldo Vieira e atribuída ao seu espírito.

Morreu em São Paulo, em 17 de fevereiro de 1958, pouco depois de comprar uma chácara em sua cidade natal e idealizar a Granja de Jesus, instituição voltada a crianças desamparadas. Entre os principais marcos de sua trajetória estão:

  • 1902: início na imprensa, no jornal O Comércio de São Paulo;
  • 1910: lançamento de Musa Caipira e espetáculo caipira no Colégio Mackenzie;
  • 1926: criação da revista O Sacy, com o cartunista Voltolino;
  • 1929: gravação da coleção Turma Caipira, em 78 rotações;
  • 1935: estreia na Rádio Difusora e direção de Vamos Passear;
  • 1946: fundação do Teatro Ambulante Gratuito Cornélio Pires.

O legado do escritor é mantido pelo Instituto Cultural e Folclórico Cornélio Pires, fundado em 2012 em Tietê, que preserva documentos, discos e filmes em um acervo digital aberto à consulta. Na cidade, o Museu Histórico, Folclórico e Pedagógico Cornélio Pires funciona na casa onde ele nasceu, e a Semana Cornélio Pires reúne exposições, shows e atividades de resgate da cultura caipira. Na música, a coleção Turma Caipira continua sendo reeditada e analisada como documento fundador da canção sertaneja.

Perguntas frequentes sobre Cornélio Pires

Por que Cornélio Pires é chamado de pai da música sertaneja?

A associação vem da coleção Turma Caipira, gravada a partir de 1929, que adaptou a música caipira ao disco e ao espetáculo comercial. Pesquisadores como José de Souza Martins e Pedro Macerani apontam essa transição como o marco inicial do mercado de música sertaneja no Brasil.

Quais obras de Cornélio Pires podem ser encontradas hoje?

Livros como Conversas ao Pé do Fogo, As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho e Sambas e Cateretês seguem disponíveis em edições reeditadas, e a obra espírita Coisas do Outro Mundo permanece no catálogo de editoras ligadas à doutrina.

O que visitar em Tietê para conhecer a obra de Cornélio Pires?

A cidade reúne o Museu Histórico, Folclórico e Pedagógico Cornélio Pires, instalado na casa onde o escritor nasceu, o Parque Ecológico Cornélio Pires e a audioteca com os discos da coleção Turma Caipira. O acervo digital do Instituto Cornélio Pires complementa a visita com biografia, filmografia e discografia completas.

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Sambas e Cateretês
Sambas e Cateretês
Coletânea de 1930 com letras e cantigas populares recolhidas por Cornélio Pires, registrando modas, sambas e cateretês da cultura caipira paulista.
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