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Cunha de Leiradella

Nascimento: 1934 Póvoa de Lanhoso, Portugal
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Escritor luso-brasileiro nascido em 1934, em Póvoa de Lanhoso. Dramaturgo, romancista, contista e roteirista, cofundou o TUCA-RIO e presidiu o Sindicato dos Escritores de Minas Gerais.

Cunha de Leiradella nasceu em 16 de novembro de 1934, na freguesia de São Paio de Brunhais, concelho da Póvoa de Lanhoso, no norte de Portugal. Dramaturgo, romancista, contista e roteirista, deixou o país em 1958 para escapar à ditadura de Salazar e passou mais de quatro décadas no Brasil, onde cofundou o Teatro Universitário Carioca e publicou boa parte de sua bibliografia. A obra dele atravessa teatro, romance, conto, cinema e televisão, quase sempre com personagens que buscam uma forma de dizer o que sentem.

Quem pesquisa o nome costuma querer duas coisas: entender a trajetória de um escritor luso-brasileiro premiado nos dois países e encontrar um caminho de leitura entre seus livros. Este perfil reúne o que está documentado sobre a vida, as obras e os prêmios de Cunha de Leiradella.

Quem é Cunha de Leiradella

É um escritor português que fez carreira principalmente no Brasil. Chegou ao Rio de Janeiro em 21 de abril de 1958, aos 23 anos, com um curso de Direito interrompido, e ali começou a publicar textos para teatro. Em 1965, fundou com o ator e diretor Amir Haddad e com Maria Helena Khünner o TUCA-RIO (Teatro Universitário Carioca). Na primeira montagem do grupo, O Coronel de Macambira, dramatização de um poema de Joaquim Cardozo, apareceram Renata Sorrah e Roberto Bonfim, que se tornariam nomes conhecidos do teatro e da televisão brasileira.

Antes disso, colaborou no jornal Portugal Democrático, fundado por portugueses emigrados e de oposição ao salazarismo, levado à redação pelo poeta Adolfo Casais Monteiro. Também passou pelo Teatro Tablado, então comandado por Maria Clara Machado e Napoleão Muniz Freire — outro capítulo de sua formação carioca.

Da Póvoa de Lanhoso ao palco: como o teatro entrou na vida dele

O primeiro contato com o teatro aconteceu aos 18 anos, em 1953, quando assistiu a A Gota de Mel, espetáculo dirigido por António Pedro à frente do recém-fundado Teatro Experimental do Porto. A partir dali, passou a se interessar pela arte dramática e a escrever os primeiros textos.

Em Portugal, o ambiente era o da ditadura salazarista, com censura sobre jornais, editoras e palcos. Cunha de Leiradella deixou o país como imigrante e desembarcou no Rio de Janeiro em 21 de abril de 1958, data que repete em depoimentos e que virou marco de sua biografia. O curso de Direito ficou para trás; o que veio depois foi jornal, teatro e ficção.

TUCA-RIO e os primeiros textos encenados

Com o Teatro de Equipe do Estado da Guanabara, montou e dirigiu três textos próprios no início dos anos 1960: Réquiem op. 1 (1964), Inúteis como os Mortos (1965) e O Homem Calado (1965). No mesmo período, em 1965, nasceu o TUCA-RIO, grupo que daria palco a uma geração de artistas e que ajudou a firmar o nome do autor na cena teatral da cidade.

As peças escritas nessa fase já traziam os traços que acompanhariam a obra: personagens ansiosos por liberdade, dificuldade de comunicação e o cotidiano urbano como pano de fundo.

Belo Horizonte, o sindicato e o personagem de uma vida

A partir de 1980, Cunha de Leiradella passou a viver em Belo Horizonte, onde, segundo a Enciclopédia Itaú Cultural, encontrou uma recepção de público que não havia vivido no Rio. A cidade entrou na ficção: escritores mineiros como Murilo Rubião e Roberto Drummond chegaram a aparecer como personagens de seus livros.

Em 1985, com Olavo Romano, Oswaldo França Júnior, Branca Maria de Paula e Roberto Drummond, entre outros, fundou a Associação Profissional dos Escritores de Minas Gerais e se tornou seu primeiro presidente.

Na ficção, o nome que costura a obra é Eduardo da Cunha Júnior, personagem presente nos romances do autor. Segundo ele, não se trata de um alter ego: o personagem tem características que o próprio escritor gostaria de ter.

Os temas: angústia, liberdade e incomunicabilidade

Os livros de Leiradella lidam com personagens angustiados, que anseiam por liberdade e não conseguem se comunicar. A angústia conduz romances como O Longo Tempo de Eduardo da Cunha Júnior (1987) e A Solidão da Verdade (1996); a incomunicabilidade atravessa a peça O Homem Sentado (1987); o desejo de liberdade move Judas (1992). O fundo é quase sempre o cotidiano das grandes cidades.

Entre as influências que ele próprio cita estão Eça de Queirós, Miguel Torga, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Ernest Hemingway, Dashiell Hammett, Eugène Ionesco, Samuel Beckett e Albert Camus. Em depoimentos, repete que a vida foi sua melhor professora e que enxerga função social na arte, feita para tratar do ser humano.

Livros, prêmios e roteiros

Entre os romances, a bibliografia cobre quatro décadas:

  • Sargaços (1984), primeiro romance publicado;
  • O Longo Tempo de Eduardo da Cunha Júnior (1987), vencedor do Prêmio Fernando Chinaglia de 1981 e reeditado em versão revista em 2019;
  • Guerrilha Urbana (1989), vencedor do Prêmio Nacional Clube do Livro de Literatura;
  • Cinco Dias de Sagração (1993) e A Solidão da Verdade (1996);
  • Apenas Questão de Método (2000), vencedor do Prêmio Caminho de Literatura Policial de 1999;
  • Os Espelhos de Lacan (2004), publicado também em Portugal e traduzido na Itália como Gli Specchi di Lacan;
  • Isto não é um romance (2021), pela Editora Nova Fronteira.

Na dramaturgia, além dos textos do início da carreira, escreveu peças como As Pulgas (1983), Laio ou o Poder (1984), Cor Local (1988) e Judas (1992). Somam-se prêmios em concursos no Brasil, no México e em Portugal, entre eles o Prêmio Plural, na Cidade do México (1987 e 1990), o Prêmio Cruz e Souza (1995) pelo livro de contos Fractal em Duas Línguas e o Prêmio Maria Ondina Braga (2015), em Portugal.

Roteiros para cinema e televisão

Além dos livros e peças, Cunha de Leiradella assinou roteiros para diferentes telas: Rio dá Samba (TV Rio, 1975), Belo Horizonte: Caminhos (TV Globo Minas, 1994) e Vestida de Sol e de Vento (1994). O longa-metragem O Circo das Qualidades Humanas foi filmado em Congonhas, Minas Gerais, em dezembro de 1998 e lançado no 3º Festival de Cinema de Tiradentes, em janeiro de 2000, com Stênio Garcia, Jonas Bloch, Cássia Kiss e Paula Burlamaqui no elenco.

O regresso a Portugal e a obra recente

Em 14 de julho de 2003, Cunha de Leiradella voltou a viver na casa onde nasceu, em São Paio de Brunhais. Desde então mantém uma rotina de escrita entre Portugal e o Rio, onde conserva residência, segundo a biobibliografia publicada pela Revista Triplov em 2021.

Em 2013 saiu Um autor sob duas bandeiras, estudo sobre a obra dele assinado por Sónia Maria van Dijck Lima e José Pereira de Oliveira. Em 2021, aos 87 anos, publicou Isto não é um romance, pela Nova Fronteira — um texto curto em que Eduardo da Cunha Júnior, recluso na casa de família, conversa com o gato Tovarich e a passarinha Minha enquanto desfia memórias. O posfácio de Adelto Gonçalves descreve o narrador como uma espécie de Capitu portuguesa em formação.

Dúvidas comuns sobre Cunha de Leiradella

Cunha de Leiradella é português ou brasileiro?

As duas coisas. Nasceu em Portugal, em 1934, e viveu mais de quatro décadas no Brasil. Ele mesmo resume a questão: nasceu português, mas a obra o faz um escritor brasileiro, porque passou muito mais tempo no Brasil do que na terra natal.

Onde vive hoje?

Desde 2003, na casa onde nasceu, em São Paio de Brunhais, no concelho da Póvoa de Lanhoso. A biobibliografia de 2021 registra que ele também mantém residência no Rio de Janeiro e segue fazendo a ponte entre os dois países.

Por onde começar a ler a obra dele?

Para a veia mais íntima e ensaística, Isto não é um romance funciona como porta de entrada. Para o lado urbano e político, Guerrilha Urbana mostra o Rio de Janeiro dos anos 1960. Quem prefere romance policial pode começar por Apenas Questão de Método, com o detetive Eduardo da Cunha Júnior, e seguir para Os Espelhos de Lacan, que aprofunda o lado introspectivo do personagem.

Quais prêmios marcaram a carreira?

O Prêmio Fernando Chinaglia (1981), o Prêmio Nacional Clube do Livro de Literatura (1988), o Prêmio Cruz e Souza (1995), o Prêmio Caminho de Literatura Policial (1999) e o Prêmio Maria Ondina Braga (2015) estão entre os mais citados em referências sobre a obra.

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Isto não é um romance
Isto não é um romance
Romance de 2021 da Nova Fronteira em que Eduardo da Cunha Júnior, recluso em Portugal, revisita memórias ao lado do gato Tovarich e da passarinha Minha.
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Guerrilha Urbana
Guerrilha Urbana
Romance vencedor do Prêmio Nacional Clube do Livro de Literatura, ambientado no Rio de Janeiro logo após o golpe militar de 1964.
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