Daniel Munduruku venceu o Prêmio Jabuti de melhor livro infantil de 2025 com Estações, obra criada em parceria com a ilustradora Marilda Castanha. O terceiro Jabuti da carreira veio quase três décadas depois do primeiro livro, Histórias de índio, publicado em 1997. No intervalo, o menino nascido em Belém, no Pará, tornou-se um dos autores indígenas mais lidos do Brasil, com mais de 60 obras voltadas sobretudo a crianças, jovens e professores.
A produção dele parte da oralidade e da memória do povo Munduruku, mas circula em salas de aula de todo o país. Munduruku escreve sobre ancestralidade, diversidade cultural e o direito de existir como indígena no Brasil contemporâneo, sem reduzir essa experiência a lição escolar ou curiosidade exótica.
Quem é Daniel Munduruku
Daniel Munduruku Monteiro Costa nasceu em 28 de fevereiro de 1964, em Belém. Antes de se dedicar à literatura, trabalhou como educador social de rua pela Pastoral do Menor, em São Paulo, e atuou como professor — vivências que atravessam a forma como trata infância, escola e transmissão de saberes.
Ele é graduado em Filosofia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), em Lorena, com licenciaturas em História e Psicologia. Fez mestrado em Antropologia Social e doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), além de pós-doutorado em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com ênfase em literatura indígena.
Como a literatura indígena entrou na carreira dele
Histórias de índio, de 1997, abriu caminho para uma produção que mistura ficção, memória e ensaio. Entre os títulos mais conhecidos estão Meu Vô Apolinário, Coisas de Índio, O Banquete dos Deuses, Contos Indígenas Brasileiros, Vozes Ancestrais e Memórias de Índio. Muitos deles entraram em programas de leitura e de formação de professores, em um contexto marcado pela Lei nº 11.645/2008, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura indígena nas escolas brasileiras.
Munduruku também ajudou a organizar o próprio campo literário indígena. Foi fundador do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual (INBRAPI) e um dos criadores do Encontro Nacional de Escritores e Artistas Indígenas, espaço que aproximou autores de diferentes povos. Hoje, essa produção convive com nomes como Ailton Krenak e com uma geração mais jovem de escritores indígenas.
Do que os livros dele tratam
Os textos para crianças e jovens recorrem a mitos, contos de origem e cenas do cotidiano para falar de pertencimento e de respeito à diferença. Nos ensaios e nas obras de formação, o foco recai sobre educação, bem-viver, movimento indígena e o papel da escola na valorização das culturas originárias. Em Fantasmas, romance publicado pela Record em 2025, a narrativa assume o ponto de vista de um indígena aprisionado que reconstrói a memória de um massacre — outra face de um autor que também escreve para adultos.
Além dos livros infantis, ele assina volumes voltados a educadores, como os dois tomos de Mundurukando, que reúnem rodas de conversa sobre saberes, utopias e vivências com professores. A obra circula também fora do país: títulos do autor já foram apresentados em feiras internacionais, como as de Frankfurt e de Gotemburgo, e traduzidos para outros idiomas.
Prêmios e reconhecimento público
- Prêmio Jabuti — três vezes, com Coisas de Índio (versão infantil), Vozes Ancestrais e Estações;
- Prêmio da Academia Brasileira de Letras de literatura infantojuvenil, em 2008;
- Menção honrosa da UNESCO no prêmio Literatura para Crianças e Jovens na Questão da Tolerância;
- Prêmio Érico Vanucci Mendes, do CNPq;
- Ordem do Mérito Cultural — comendador em 2006 e Grã-Cruz em 2013.
Parte dos livros recebeu o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), e a obra dele foi traduzida no Canadá, nos Estados Unidos, na Áustria, no México e na Coreia do Sul.
Televisão, cinema e vida pública
Em 2023, Munduruku interpretou o pajé Jurecê na novela Terra e Paixão, da TV Globo, e participou do programa Falas da Terra. No cinema, integrou o elenco de produções como Tainá 2, Desmundo e Hans Staden.
Na política, filiou-se ao PDT e foi candidato à prefeitura de Lorena em 2020 e a deputado federal por São Paulo em 2022. Desde 2025 exerce mandato de vereador na Câmara Municipal de Lorena, com atuação voltada a educação, cultura e valorização das culturas tradicionais.
Antes disso, já era uma voz recorrente na defesa dos direitos dos povos indígenas, atuando desde os anos 1990 na promoção da literatura indígena e no debate público sobre a presença dos povos originários na formação do Brasil. Essa frente de atuação inclui entrevistas, palestras e participação em eventos acadêmicos e culturais no país e no exterior.
Instituto Uk'a, educação e projetos
Em Lorena, cidade onde vive desde 1987, dirige o Instituto Uk'a – Casa dos Saberes Ancestrais, organização e selo editorial dedicados à temática indígena. É membro da Academia de Letras de Lorena e mantém uma rotina de palestras, oficinas e encontros com escolas em várias regiões do país.
Quem quer acompanhar esse trabalho encontra agenda, textos e novidades no blog oficial e nos canais de vídeo do autor. A obra está distribuída por editoras como Global, Callis, Brinque-Book, Moderna, Edelbra e Record, além da Uka Editorial, e pode ser encontrada em livrarias e lojas on-line. Os principais títulos estão reunidos nas páginas de projetos deste perfil; para quem se interessa pelo tema, vale também explorar a página de literatura, que reúne autores de áreas vizinhas.






