Demétrio Martinelli Magnoli (São Paulo, 1958) é jornalista, sociólogo e doutor em geografia humana, uma das vozes mais presentes na análise de política internacional da televisão brasileira. Comentarista da GloboNews, onde passa pelo Jornal das Dez e pelo Em Pauta, ele assina colunas na Folha de S.Paulo e em O Globo — uma trajetória que combina a academia, a imprensa e o comentário diário da conjuntura.
À distância, o que se vê é o comentarista de televisão. De perto, a obra revela um geógrafo que estuda fronteiras, mapas e narrativas nacionais desde a tese de doutorado. Entre os dois planos, há um percurso político incomum: a militância trotskista na juventude, o rompimento com o marxismo e a posição de crítico das políticas de ação afirmativa — um dos nomes mais contestados pela esquerda brasileira, mas que rejeita o rótulo de direita que lhe é atribuído.
Da Libelu à tese sobre o corpo da pátria
Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP, Magnoli militou na Libelu, organização trotskista dos anos 1970, e participou da aproximação desse grupo com o nascente Partido dos Trabalhadores no início da década de 1980. O rompimento veio em duas etapas: em 1983, abandonou o marxismo, que passou a associar a uma promessa autoritária de dirigir a sociedade; em 1989, deixou o PT. Tempos depois, se definiria como "tão de esquerda quanto um social-democrata europeu", crítico do capitalismo de Estado e do nacionalismo autoritário que identifica em parte da América Latina.
O outro pilar da formação é acadêmico. Doutor em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (1996), defendeu a tese que virou o livro O Corpo da Pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil, 1808-1912, finalista do Prêmio Jabuti de 1997. O trabalho mostra como símbolos, mapas e imagens de território entraram na conta da diplomacia brasileira entre a vinda da corte portuguesa e a consolidação da República. Magnoli também integra o Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (Gacint), do Instituto de Relações Internacionais da USP.
GloboNews, colunas e a leitura do tempo longo
No noticiário da GloboNews, o estilo é reconhecível: ligar o assunto do dia a processos históricos longos — a formação das nações europeias, os ciclos de guerra e paz, a herança do corporativismo estatal brasileiro. Os embates ao vivo com colegas de bancada, como a discussão com Guga Chacra sobre o rótulo de extrema direita aplicado a Marine Le Pen, em 2024, costumam virar notícia à parte. No mesmo período, boatos sobre uma suposta demissão circularam nas redes sociais e foram negados pela emissora.
Na imprensa escrita, assina colunas na Folha de S.Paulo e em O Globo, onde trata das mesmas questões que leva à televisão. A agenda vai do avanço da extrema direita na Europa à política externa americana, das tensões no Oriente Médio aos impasses institucionais brasileiros. Antes dessas casas, foi colunista de O Estado de S. Paulo e da revista Época, comentou na BandNews FM e participou do Jornal da Cultura, na TV Cultura.
Posições que fizeram barulho
As cotas raciais são o ponto mais controverso da trajetória. Em Uma gota de sangue (2009), Magnoli sustenta que o movimento negro e as ações afirmativas nascem de uma "armação ideológica" — a tese do multiculturalismo — que, para ele, conspira contra a igualdade perante a lei. O livro recebeu resenhas duras em jornais dos quais ele mesmo é colunista, e o autor respondeu às críticas nas páginas da Folha de S.Paulo.
Em 2014, seu nome apareceu na lista que o então vice-presidente do PT divulgou com ataques a jornalistas e artistas — entre os citados, também Arnaldo Jabor. Nas eleições de 2018, declarou voto crítico em Fernando Haddad, escrevendo que só havia um extremista na disputa; em 2019, aderiu ao movimento Lula Livre em nome, segundo ele, da defesa do Estado de Direito. Em 2015, criticou professores que, a seu ver, flertavam com o terrorismo ao buscar "compreender" o ataque à revista Charlie Hebdo. Em 2020, defendeu que o isolamento da província chinesa de Hubei, no início da pandemia de covid-19, representava ameaça maior que o próprio vírus — artigo que também gerou reação pública.
Sobre os rótulos, o próprio autor é direto: rejeita a classificação como direita e diz que ela foi construída por porta-vozes do PT dentro e fora da universidade.
Livros: história, geografia e política
A obra de Magnoli atravessa quase quatro décadas. O primeiro título, O que é Geopolítica?, saiu em 1986. Desde então, ele assinou ensaios de história das ideias, uma duologia de história política e coletâneas que organizou para a Editora Contexto. A lista vai dos ensaios autorais às coletâneas:
- O que é Geopolítica? (1986) — o primeiro livro, sobre as leituras estratégicas do espaço mundial;
- O Corpo da Pátria (1997) — a tese sobre imaginação geográfica e política externa brasileira, finalista do Jabuti;
- História das Guerras (2008) — coletânea que organizou com estudiosos de várias áreas;
- Uma gota de sangue (2009) — a história do pensamento racial que reacendeu o debate sobre cotas;
- Liberdade versus Igualdade (2011-2013) — duologia de história política do século XX, escrita com Elaine Senise Barbosa;
- A Hora e a História (2015) — coletânea que reúne suas colunas na imprensa entre 2004 e 2015.
Hoje, o autor que escreveu sobre o imaginário territorial brasileiro e o comentarista que analisa a política internacional na GloboNews são a mesma pessoa. As colunas dele podem ser lidas na Folha de S.Paulo e em O Globo, e as análises vão ao ar na programação do canal de notícias da Globo.






