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Arnaldo Jabor

Nascimento: 1940 Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Cineasta do Cinema Novo e cronista da TV Globo. Dirigiu Toda Nudez Será Castigada e Eu Sei que Vou Te Amar e publicou crônicas pela Objetiva.

Quem chegou ao nome de Arnaldo Jabor pelos comentários da TV Globo encontrou só a última cena. Antes da ironia de um minuto no telejornal, ele já tinha levado Nelson Rodrigues ao cinema, colocado Fernanda Torres no palco de Cannes e transformado o apartamento da classe média em palco de sátira nacional.

A busca pelo cineasta e pelo cronista costuma misturar duas carreiras que, nele, nunca se separaram de verdade: o olhar de quem filma o Brasil de perto e a frase curta de quem comenta o país em público. O que muda é o palco — a sala escura, a coluna, o rádio, o Jornal Nacional.

Quem foi Arnaldo Jabor

Arnaldo Jabor nasceu no Rio de Janeiro em 12 de dezembro de 1940, filho de Salomão Jabor Sobrinho, oficial da Aeronáutica, e de Diva Hess. A família era de classe média, com ascendência libanesa por linha paterna e ramificações portuguesas e alemãs. Cresceu no ambiente carioca que depois voltaria, de novo e de novo, como matéria de filme e de crônica.

Antes de dirigir longas, passou pela crítica. Escreveu sobre teatro e cinema no jornal O Metropolitano, ligado à PUC do Rio, e na revista Movimento. O amigo Cacá Diegues puxou-o para a prática do cinema. Os primeiros trabalhos foram curtas de 1965, entre eles O Circo. O primeiro longa, o documentário A Opinião Pública (1967), montava um mosaico da classe média carioca com som direto e depoimentos — cinema verdade aplicado ao Brasil que o Cinema Novo queria enxergar sem verniz.

A filha Carolina Jabor também se tornou cineasta. O cineasta Guel Arraes é genro. No fim da vida, a família também mencionou o filho João Pedro. Jabor morreu em 15 de fevereiro de 2022, aos 81 anos, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, por complicações de um acidente vascular cerebral sofrido dois meses antes.

Como o cinema o tornou conhecido

Formado no ambiente do Cinema Novo, Jabor entrou na segunda fase do movimento, aquela que olhava a realidade nacional com a lição do neorrealismo italiano e da nouvelle vague. O segundo longa, Pindorama (1970), apostou no barroco e na alegoria num momento de censura dura. O próprio diretor admitiu depois que o radicalismo contra o cinema clássico pesou na obra. O filme seguinte recolocou o nome dele no centro da conversa.

Toda Nudez Será Castigada (1973), adaptação da peça de Nelson Rodrigues, virou sucesso de público e marcou a carreira. Darlene Glória viveu a prostituta Geni e levou o Urso de Prata de melhor atriz em Berlim; Paulo Porto fez o viúvo Herculano. O filme ganhou Kikito de melhor filme em Gramado e tratou a hipocrisia moral da classe média sem pedir licença. Dois anos depois veio O Casamento (1975), desta vez a partir de um romance de Nelson, último filme de Adriana Prieto e novo prêmio em Gramado.

Com Tudo Bem (1978) começa o que a crítica chamou de trilogia do apartamento. A sátira cabe num imóvel de classe média e observa o Brasil depois do milagre econômico. Paulo Gracindo e Fernanda Montenegro estão no elenco; o filme levou o Candango de melhor filme no Festival de Brasília. Jabor chegou a apontá-lo como o trabalho de que mais gostava.

Os longas seguintes fecharam o espaço e abriram o casal. Eu Te Amo (1981), com Sônia Braga e Paulo César Pereio, e Eu Sei que Vou Te Amar (1986), com Fernanda Torres e Thales Pan Chacon, foram sucessos de bilheteria. Torres ganhou o prêmio de interpretação feminina em Cannes; o filme disputou a mostra do festival. Em 2010, depois de duas décadas afastado da direção de longas, estreou A Suprema Felicidade.

  • A Opinião Pública (1967) — documentário de estreia no longa, som direto e retrato da classe média.
  • Toda Nudez Será Castigada (1973) — Nelson Rodrigues, Berlim e Gramado.
  • Tudo Bem (1978) — sátira de apartamento e prêmio em Brasília.
  • Eu Sei que Vou Te Amar (1986) — Cannes para Fernanda Torres e grande público no Brasil.
  • A Suprema Felicidade (2010) — volta à direção de longa após o intervalo na imprensa.

Da tela para o jornal, o rádio e a TV

No início dos anos 1990, com o fim do fomento estatal ao cinema no governo Collor, Jabor buscou outro ofício. Pediu espaço a Fernando Gabeira e passou cerca de dez anos colaborando com a Folha de S.Paulo. Também escreveu para Zero Hora e, no fim de 1995, estreou como colunista de O Globo. Em paralelo, dirigiu filmes publicitários.

Na TV Globo e na rádio CBN, o tom irônico da crônica virou comentário diário. Apareceu no Jornal Nacional, no Jornal da Globo, no Bom Dia Brasil, no Jornal Hoje e no Fantástico. Para uma geração, o cineasta ficou em segundo plano: o que se lembrava era o comentarista que misturava política, costume, sexo, economia e mau humor ilustrado. Havia admiradores e havia irritados — e ele trabalhava exatamente nessa zona.

Em 2009, o próprio Jabor escreveu para desmentir textos que circulavam na internet com a assinatura dele. A nota serve até hoje para quem encontra “frases de Jabor” soltas em cadeia: muita coisa atribuída a ele simplesmente não é dele. Em 2014, o então vice-presidente do PT, Alberto Cantalice, citou-o numa lista de nomes da grande imprensa acusados de elitismo — episódio que a imprensa batizou de lista negra do PT, e que diz mais sobre o calor daquele ano do que sobre a filmografia.

Os livros: crônica com cara de plano cinematográfico

Na página impressa, Jabor tratava a crônica como literatura com função crítica. Jô Soares chegou a chamá-lo de cineasta da palavra. Os volumes reuniram colunas e textos de jornal em livro, quase sempre pela Editora Objetiva, hoje no grupo Companhia das Letras.

Os canibais estão na sala de jantar saiu pela Siciliano em 1993. Pela Objetiva vieram Sanduíches de realidade (1997), A invasão das salsichas gigantes (2001), o best-seller Amor é prosa, sexo é poesia (2004) e Pornopolítica (2006). Em 2007 publicou o volume Eu sei que vou te amar, diálogo de um casal separado que prolonga no papel a tensão do filme de 1986. Amigos ouvintes (Editora Globo, 2009) recolhe comentários gravados para a CBN. O malabarista (2014) seleciona textos que vão da infância no subúrbio à vida pública adulta.

Quem procura o autor na literatura encontra menos romance de invenção e mais crônica de ataque: o cotidiano brasileiro tratado como cena, com corte seco e uma tese escondida no detalhe. Quem chega pela política encontra o mesmo procedimento — o fato do dia lido como sintoma, não como boletim.

Por que o nome ainda é buscado

Há pelo menos três portas de entrada. A primeira é o cinema: Nelson Rodrigues na tela, Cannes, Sônia Braga, Fernanda Torres, o apartamento como alegoria do país. A segunda é o comentarista da Globo, ainda citado em debates sobre imprensa, polarização e o tom da TV aberta nos anos 1990 e 2000. A terceira é o livro de crônicas, especialmente Amor é prosa, sexo é poesia, que continua em circulação e puxa o leitor para o restante da obra impressa.

Jabor não cabe num único rótulo. Cineasta do Cinema Novo, adaptador de Nelson Rodrigues, cronista de jornal, comentarista de telejornal, autor de coletâneas que misturam infância, sexo e disputa pública. A melhor maneira de lê-lo é escolher uma dessas portas e atravessar até a seguinte, em vez de tratar o comentário de TV como se fosse a biografia inteira.

Por onde começar

No cinema, Toda Nudez Será Castigada e Eu Sei que Vou Te Amar concentram o maior número de conversas; Tudo Bem é o filme que o próprio diretor privilegiava. Na página, Amor é prosa, sexo é poesia e Pornopolítica mostram o cronista no auge da circulação; O malabarista funciona como antologia de entrada. O perfil oficial que ele usava nas redes era o de handle jaborreal, no Instagram e no Facebook. A filmografia também está reunida no IMDb. Textos soltos na internet com o nome dele pedem checagem: o próprio autor já denunciou a falsificação da assinatura.

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Projetos de Arnaldo Jabor

Pornopolítica
Pornopolítica
Coletânea de 2006 em que Jabor lê a vida pública brasileira como paixão, hábito e sintoma.
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O malabarista
O malabarista
Antologia de 2014 com textos de infância e vida adulta, da Objetiva.
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Eu sei que vou te amar
Eu sei que vou te amar
Livro-diálogo de 2007 sobre um casal separado, parente temático do filme de 1986.
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