O malabarista reúne os melhores textos de Arnaldo Jabor num arco que vai da infância no subúrbio à vida adulta depois do golpe de 1964. Publicado pela Objetiva em 2014, o volume funciona como antologia: quem ainda não leu os livros anteriores encontra aqui um mapa da prosa dele, dividido em duas partes claras.
A primeira, “Infância”, é a mais poética. Há o pai, a mãe, o avô, a iniciação sexual, o pecado, a classe média dos anos 1950 e 1960, as primeiras lembranças, a vida no subúrbio. A segunda, “E depois…”, marca a entrada na vida adulta. O marco simbólico é o incêndio da UNE logo após o golpe militar, lido como fim de uma ilusão política. Daí em diante surgem economia, corrupção, amor, violência e cultura — os grandes temas da fase de colunista.
Galeria de tipos e olhar de cineasta
O título vem de uma cena que o livro não esgota: o menino que equilibra bolas de tênis no sinal e provoca no adulto uma mistura de culpa, incômodo, impotência, compaixão e irritação. Há também o dono de clínica com máximas cruéis sobre miséria e mercado, e o mendigo de quem se esperam filosofias e só se ouvem resmungos. Jabor descreve esses tipos com o mesmo enquadramento que usava no cinema: um corpo, um gesto, uma frase, e o país inteiro escorrendo por ali.
A edição de 2014 tem 216 páginas (ISBN 978-85-390-0610-6). Mistura denúncia de mazela social, análise política, confissão sexual e memória afetiva. É o volume em que o autor consegue, nas palavras da editora, focalizar da base ao topo da pirâmide. Para o leitor de 2014, já era um balanço de carreira em prosa. Para quem chega agora, é o atalho mais honesto: dá para sentir o menino carioca e o comentarista da Globo no mesmo livro, sem fingir que são pessoas diferentes.
Para quem este volume resolve a busca
Indicado a quem quer um único livro de Jabor e não sabe por qual crônica começar. Também serve a quem interessa a memória da classe média carioca no pré-64 e o tom da imprensa depois. Quem já tem Amor é prosa, sexo é poesia e Pornopolítica encontra aqui o recuo biográfico que aqueles volumes só deixam escapar em flashes.
- Antologia de 2014, selo Objetiva, duas partes: infância e vida adulta.
- Textos sobre família, subúrbio, golpe, economia, cultura e tipos sociais.
- Bom primeiro livro para quem conhece o cineasta e ainda não leu o cronista.
- Disponível em edição impressa e em versão digital nas lojas habituais.
Como não ler este livro
Não é autobiografia completa nem história oficial do Cinema Novo. As lembranças de infância são matéria literária, não ata cartorial. Tampouco substitui ver Toda Nudez Será Castigada ou Tudo Bem: o cinema continua sendo o outro braço da obra. O valor de O malabarista está no painel — o país, o mundo e os sentimentos humanos tratados com a ironia de sempre, agora com o recuo de quem já tinha décadas de coluna e de set.
Na Amazon e na Companhia das Letras, este é hoje um dos títulos mais fáceis de encontrar com o nome do autor. Se a pergunta for “por onde começar a ler Jabor em livro”, esta antologia é a resposta mais segura, precisamente porque não escolhe um único tema: escolhe o narrador inteiro.




