Eu sei que vou te amar, o livro de 2007, não é a ficha do filme de 1986: é um diálogo impresso que prolonga a mesma briga. Publicado pela Objetiva, o volume de 136 páginas põe um homem e uma mulher numa sala, três meses após a separação, e deixa a conversa ocupar mais de cem páginas entre falas e pensamentos.
O recorte é cirúrgico. Ele a chama para conversar no apartamento. O que dizer e, principalmente, o que calar? Mentiras gentis, verdades duras, pedidos de perdão, confissões e delírios se sucedem sem narrador onisciente para consolar o leitor. Jabor trata a “DR” — a discussão da relação — como gênero brasileiro: infinitas, diz ele, mas no fundo iguais.
Relação com o filme de 1986
O longa Eu Sei que Vou Te Amar, com Fernanda Torres e Thales Pan Chacon, foi sucesso de público e crítica. Torres ganhou o prêmio de interpretação feminina no Festival de Cannes. O filme concentrava um casal recém-separado num espaço fechado, no mesmo espírito intimista de Eu Te Amo (1981). Vinte e um anos depois, o livro retoma o dispositivo: dois corpos, um apartamento, a língua como campo de batalha.
Não se trata de roteiro publicado nem de novelização. A editora apresenta o volume como diálogo de amor com as artimanhas, os medos e a paixão que o leitor reconhece nas brigas contemporâneas. Quem viu o filme encontra ecos de tom e de situação. Quem não viu ainda consegue ler o livro como peça autônoma — um texto de câmera na mão, feito de fala, silêncio e pensamento intercalado.
Para que leitor
Funciona para quem interessa o Jabor dos longas de casal, mais do que o comentarista político. Também ajuda estudantes e leitores de teatro: o texto se comporta quase como dramaturgia. É curto. Cabe numa sentada. Não oferece moral da história nem reconciliação obrigatória. O prazer — e o desconforto — está em reconhecer a trapaça afetiva no detalhe da frase.
- Livro de 2007, Objetiva, 136 páginas, ISBN 978-85-730-2810-2.
- Diálogo de um casal separado, três meses depois do fim.
- Parente temático do filme de 1986, sem ser o roteiro daquele longa.
- Leitura rápida, densa, mais próxima do teatro do que da crônica de jornal.
Como encaixar na estante
Se Amor é prosa, sexo é poesia espalha o tema afetivo em dezenas de crônicas, este volume o concentra numa única conversa. É o livro mais “de cinema” da fase Objetiva, não porque descreve takes, mas porque recusa o desvio: tudo se passa entre duas pessoas que ainda se desejam e já não se suportam. Para o leitor que chegou a Jabor pelo prêmio de Fernanda Torres em Cannes, este é o texto impresso que mais conversa com aquela estreia internacional.
A ficha da Companhia das Letras e a página da Amazon apontam a edição de 2007. Vale não confundir as buscas: o filme e o livro compartilham o título, mas o objeto que se compra aqui é o volume de diálogo, não uma cópia em disco do longa. Quem quiser os dois, vê um e lê o outro — a rima é proposital, e Jabor nunca escondeu isso.




