O nome artístico desmente a origem: antes de assinar roteiros, Doc Comparato foi médico. Formado em medicina e especializado em cardiologia em Londres, ele trocou o consultório pela dramaturgia no fim dos anos 1970 e, em 1978, entrou na TV Globo pelas mãos do diretor Ziembinski. Desde então, escreveu a primeira minissérie da emissora — Lampião e Maria Bonita (1982), em parceria com Aguinaldo Silva —, adaptou obras da literatura brasileira, trabalhou ao lado de Gabriel García Márquez e assinou um dos manuais de roteiro mais usados do país, Da Criação ao Roteiro.
Carioca nascido em 3 de novembro de 1949, Luiz Felipe Loureiro Comparato é uma das figuras centrais da ficção televisiva brasileira, com passagens por Globo, SBT e Record, temporadas de trabalho na Europa e na América Latina e uma produção teatral extensa, organizada em trilogias. É pai das atrizes Bianca e Lorena Comparato.
Da medicina em Londres ao primeiro roteiro na Globo
Comparato nasceu no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, e foi aprovado em primeiro lugar no vestibular de medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF) em 1968, formando-se em 1972. Ainda naquela década, recebeu bolsas de estudo para o México e o Reino Unido e escolheu estudar pelo British Council: morou dois anos em Hampstead, em Londres, onde se especializou em cardiologia. Foi nessa fase que ganhou o apelido que carrega até hoje, Doc, abreviação de doctor — e, nas horas vagas, escreveu as primeiras peças e contos, assinados como Doc Felipe Comparato.
De volta ao Brasil, estreou na televisão em 1978, a convite do ator e diretor Ziembinski, escrevendo para o programa Caso Especial, da Globo. No mesmo ano venceu concursos de dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro e de contos no Paraná e passou a integrar a redação do jornal O Pasquim, colaborando ainda com as revistas Playboy e Ele e Ela. Entre 1982 e 1983, deixou de clinicar em definitivo para viver da escrita.
Os anos de ouro na TV e a Casa de Criação
Contratado da TV Globo a partir de 1980, escreveu para Plantão de Polícia (1979–1981) e Malu Mulher (1980). Em 1982 veio o trabalho que o projetou: Lampião e Maria Bonita, a primeira minissérie exibida pela Globo, escrita com Aguinaldo Silva, que rendeu a Doc a Medalha de Ouro do New York Film Festival e o prêmio de melhor autor da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Nessa fase, assinou ainda:
- Bandidos da Falange (1983);
- Padre Cícero (1984), em que também atuou no papel de Macedo;
- O Tempo e o Vento (1985), adaptação de Érico Veríssimo;
- A, E, I, O... Urca (1990);
- Retrato de Mulher (1993);
- A Justiceira (1997), criada com Daniel Filho, Antonio Calmon e Aguinaldo Silva;
- Mulher (1998).
Em meados dos anos 1980, Doc está entre os fundadores do departamento de formação de autores da Casa de Criação da Globo, núcleo dirigido por Dias Gomes que funcionou como escola de roteiristas da emissora. Em 1986, O Tempo e o Vento ganhou o Prêmio Coral Negro no Festival de Havana.
Da Criação ao Roteiro: o livro que virou referência
Se na TV Doc ajudou a definir padrões da teledramaturgia, no mercado editorial fez algo raro: escreveu, em 1982, o livro Roteiro, pioneiro na América Latina sobre a arte e a técnica de escrever para cinema e televisão, e aprofundou o material em Da Criação ao Roteiro (1984), que se tornou referência internacional, com edições na Espanha, em Portugal, na Argentina e na Itália. A obra foi relançada em 2009 pela Summus Editorial e ganhou uma edição revista, atualizada e ampliada em 2018, em comemoração aos 40 anos de profissão do autor — a mesma matéria-prima dos seminários de roteiro que ele ministra no Brasil e no exterior.
García Márquez, Barcelona e a carreira internacional
Em 1986, passou a trabalhar com Gabriel García Márquez: os dois assinaram a minissérie Me Alquilo para Soñar, produzida pela TVE, em Madri, que depois virou livro publicado no Brasil e em outros países. No fim da década, deixou a Globo e se mudou para Sintra, em Portugal, contratado pela produtora Videoarte; viveu também na Espanha, na Itália e no México, foi um dos fundadores e coordenador do Máster de Roteiro da Universidade Autônoma de Barcelona e consolidou a atividade que o mercado batizou de script doctor, atendendo emissoras e produtoras como consultor criativo. Em 2001, deu curso de roteiro cinematográfico na Escola de Cinema e Televisão de Munique, na Alemanha, como primeiro sul-americano a ocupar a função.
Romance, teatro e streaming: as fases seguintes
Recontratado pela Globo em 1996, publicou no ano seguinte seu primeiro romance, A Guerra das Imaginações, uma trama de poder no Vaticano às vésperas da chegada dos portugueses ao Brasil, editada em sete países. No teatro, a produção foi organizada em trilogias como a do Tempo — Nostradamus, espetáculo que lhe rendeu o prêmio Anna Magnani na Itália, Michelangelo e O Círculo das Luzes — e a da Imaginação, encerrada com Eterno, sobre os dias secretos de Orson Welles no Brasil.
Nos anos 2000, atuou como consultor de teledramaturgia no SBT e integrou a equipe de colaboradores da Record nas novelas Caminhos do Coração (2007) e Os Mutantes (2008). Em 2017, foi membro da comissão da Academia Brasileira de Cinema que escolheu Bingo: O Rei das Manhãs como o candidato brasileiro na disputa por uma vaga no Oscar de filme estrangeiro. Com mais de quatro décadas de carreira, segue ativo em seminários, consultorias e projetos de roteiro — e atualizou seu livro mais famoso para tratar também de streaming, webséries, games e inteligência artificial.
Onde encontrar o trabalho de Doc Comparato
Os livros de Doc circulam em livrarias, sebos e plataformas digitais, e os principais títulos estão catalogados nesta página. O site oficial reúne biografia, currículo, textos teatrais e e-books liberados pelo autor, e o canal no YouTube guarda entrevistas, como a concedida ao programa Encontro Marcado. Para quem escreve ou estuda roteiro, os seminários e a consultoria de projetos seguem sendo o contato mais direto com o método de quem ensina essa técnica há décadas.




