Em 11 de setembro de 1973, Dorrit Harazim estava em Santiago quando caças da Força Aérea chilena bombardearam o Palácio de La Moneda e testemunhou dali os últimos momentos do governo de Salvador Allende. A cena está longe de ser o único acontecimento histórico que ela viu de perto: ao longo de quase seis décadas de carreira, a jornalista cobriu a Guerra do Vietnã e do Camboja, o apartheid na África do Sul e a crise do petróleo de 1973 e, quase 30 anos depois, acompanhou de Nova York o ataque às Torres Gêmeas.
Nascida em Zagreb, na Croácia, em 1º de maio de 1943, Dorrit construiu no Brasil uma das trajetórias mais longas do jornalismo narrativo em língua portuguesa. Trabalhou em redações como as das revistas Veja e piauí, chefiou o escritório da Editora Abril em Nova York, dirigiu documentários e escreveu um livro sobre fotografia. Hoje assina coluna de opinião no jornal O GLOBO, publicada aos domingos. Em 2025, recebeu o Prêmio Especial Vladimir Herzog e foi uma das homenageadas no 20º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, dedicado aos ícones do jornalismo brasileiro.
De Paris à redação de Veja
Dorrit Harazim começou no jornalismo em 1966, como pesquisadora da revista francesa L'Express, em Paris. Foi lá que, em 1968, recebeu o convite de Roberto Civita e Mino Carta para integrar a equipe que lançaria a revista Veja, da Editora Abril, em setembro daquele ano. Ela trabalhou na publicação desde a primeira edição e voltaria à redação em outros dois períodos, entre 1979 e 1988 e entre 1993 e 2000, como repórter e editora de Internacional, redatora-chefe e editora especial.
Entre a primeira e a segunda passagem por Veja, atuou na editoria de Internacional do Jornal do Brasil, de 1976 a 1978, quando escreveu de Bonn sobre o acordo nuclear entre Brasil e Alemanha e sobre o regime de apartheid na África do Sul. De dezembro de 1988 a junho de 1993, chefiou o escritório da Editora Abril em Nova York.
As coberturas internacionais deram a ela um tipo raro de repertório:
- a Guerra do Vietnã e do Camboja, em 1970;
- a segunda crise do petróleo, em 1973, depois de cinco semanas nos Emirados Árabes Unidos e no Irã;
- o golpe militar no Chile de 11 de setembro de 1973, testemunhado em Santiago;
- quatro eleições presidenciais norte-americanas;
- o casamento do príncipe Charles com a princesa Diana;
- dez edições consecutivas dos Jogos Olímpicos, de Moscou 1980 ao Rio 2016.
A fundação da piauí e o jornalismo narrativo
Em 1994, o perfil Cara a cara com o Brasil, sobre o ativista Herbert de Sousa, o Betinho, rendeu a Dorrit o 19º Prêmio Abril de Jornalismo. No ano seguinte, veio o Prêmio Esso de Jornalismo pela reportagem Mulher, crime e castigo, escrita após oito dias e noites hospedada na Penitenciária Talavera Bruce, no Rio de Janeiro, acompanhando o cotidiano das presas.
Depois de deixar Veja, voltou às páginas do Jornal do Brasil, em 2001, com uma série de cinco reportagens sobre os ataques de 11 de setembro, escritas de Nova York para o portal NO, do qual foi uma das criadoras. No ano seguinte, passou a colaborar com O GLOBO, jornal do qual se tornou colunista de opinião em julho de 2010.
Em 2006, Dorrit fundou com João Moreira Salles, Mario Sergio Conti e Marcos Sá Corrêa a revista piauí, publicação que ajudou a firmar o jornalismo narrativo de longa duração no país. Ela foi editora da revista até setembro de 2012. Entre 2013 e 2015, assinou colunas sobre história e fotografia no site da revista Zum, do Instituto Moreira Salles, e segue colaborando com a edição impressa. É também membro dos conselhos consultivos da Pública, agência de jornalismo investigativo, e da Lupa, primeira agência de fact-checking do Brasil.
Documentários: da série Travessias a Família Braz
No audiovisual, fez a ponte entre a reportagem e o documentário. Em 2000, assinou os argumentos de dois filmes da série Seis Histórias Brasileiras, exibida pelo canal GNT: A Família Braz, dirigido por Arthur Fontes, e Passageiros, com direção de Izabel Jaguaribe.
Entre 2001 e 2006, idealizou e dirigiu a série Travessias, formada por seis documentários, cada um sobre uma forma de aprendizado ou superação: Travessia do Escuro, sobre adultos em processo de alfabetização; Travessia do Tempo, sobre um detento em seu 28º ano de prisão no Carandiru; Travessia do Silêncio, sobre o universo dos surdos; Travessia da Vida, sobre o trabalho da médica sanitarista Zilda Arns à frente da Pastoral da Criança; Travessia do Ar, sobre o treinamento de atletas da ginástica olímpica; e Travessia da Dor, sobre dois nadadores em busca de vaga nos Jogos Olímpicos.
Dez anos depois do primeiro documentário da família Braz, Dorrit codirigiu com Arthur Fontes A Família Braz: Dois Tempos, que revisitou os mesmos personagens para mostrar como a vida deles havia mudado. O filme venceu o festival É Tudo Verdade de 2011.
O instante certo e o olhar sobre a fotografia
Em 2016, a Companhia das Letras publicou O instante certo, livro em que Dorrit reúne 38 ensaios sobre fotografia — textos que nasceram de sua coluna na revista Zum e de reflexões sobre a imagem como linguagem. No mesmo ano, a obra recebeu o prêmio anual da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) na categoria Reflexão Crítica em Artes Visuais.
O interesse pela fotografia acompanha a trajetória jornalística: foi como repórter que Dorrit trabalhou ao lado de gerações de fotojornalistas em coberturas internacionais e que aprendeu a olhar para o ofício de quem espera o instante decisivo. Naquele mesmo ano, por ocasião da Rio 2016, a série olímpica de dez reportagens que produziu foi ao ar como podcast pela Rádio CBN, no projeto Os Jogos que Eu Vivi.
Prêmios e reconhecimento internacional
A carreira acumula distinções no Brasil e no exterior:
- Prêmio Abril de Jornalismo (1994), pelo perfil de Betinho;
- Prêmio Esso de Jornalismo (1995), por Mulher, crime e castigo;
- Reconocimiento a la Excelencia da Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-Americano (2015);
- Prêmio APCA de Reflexão Crítica em Artes Visuais (2016), por O instante certo;
- Prêmio Maria Moors Cabot (2017), da Universidade Columbia, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo;
- Prêmio Especial Vladimir Herzog (2025).
O Cabot, concedido pela Escola de Jornalismo da Universidade Columbia, destacou o caráter narrativo de sua obra e a exposição de abusos de direitos humanos, injustiça social e racismo no Brasil. A Fundação Gabo, por sua vez, reconheceu a forma como Dorrit narrou fatos históricos a partir de ângulos que outros repórteres deixam passar.
Onde acompanhar Dorrit Harazim hoje
Em atividade, Dorrit mantém uma rotina de trabalho que mistura memória e presente. Sua coluna de opinião no O GLOBO chega aos domingos, tratando com frequência de política internacional e direitos humanos. No Substack, mantém um espaço de publicação própria, e no X, antigo Twitter, comenta a atualidade. Em 2025, sua trajetória foi contada no projeto Inspiração Abraji, que documenta a prática de repórteres que marcaram o jornalismo brasileiro.
É casada com o jornalista Elio Gaspari, colunista do O GLOBO e autor da coleção Ditadura, com quem vive em São Paulo.



