Na tarde de 20 de agosto de 1942, Eduardo Frieiro queimou o próprio diário. Eram 22 cadernos e cerca de quatro mil páginas escritas ao longo de dez anos, atiradas ao fogo "como pedaços arrancados da própria carne", conforme ele mesmo registrou depois. O gesto, narrado no Novo diário, diz muito sobre um escritor que passou a vida entre livros, mas desconfiava dos literatos — e ajuda a entender por que uma obra construída quase inteira em Belo Horizonte circulou menos do que merecia.
Eduardo Frieiro (1889-1982) foi professor de literatura espanhola na UFMG, ensaísta, romancista, bibliófilo e primeiro diretor da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais. Autodidata, sem ter concluído o curso primário, tornou-se uma das cabeças mais independentes da vida intelectual mineira do século 20. É lembrado sobretudo como autor de Feijão, angu e couve, o ensaio que inaugurou o tratamento sistemático da comida mineira como tema de pesquisa.
Quem foi Eduardo Frieiro
Frieiro nasceu em 5 de julho de 1889 em Matias Barbosa, então distrito de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, filho de imigrantes galegos. A família mudou-se para Belo Horizonte em 1898, quando a capital ainda era jovem, e foi ali que ele viveu até morrer, em 24 de março de 1982. A cidade que ele chamava de "província" e de "oco do mundo" foi o palco de toda a sua trajetória: o jornalismo, a biblioteca pública, a cátedra e a editora que fundou.
Casado com Noêmia e sem filhos, tinha fama de arredio e ensimesmado. Em A ilusão literária, escreveu que gostava das letras, mas não dos literatos. A frase virou uma espécie de retrato moral do autor: um misantropo que respondia a todas as cartas que recebia e manteve, por décadas, uma rede de correspondência com cerca de 300 intelectuais brasileiros e estrangeiros — acervo hoje estudado pela Universidade Federal de Minas Gerais.
Como um autodidata chegou à cátedra na UFMG
A formação de Frieiro foi feita em livrarias, gabinetes e bibliotecas, não em salas de aula. Ele não completou nem o curso primário, mas lia em espanhol, português, francês, italiano, inglês e latim. Esse repertório o levou à Faculdade de Filosofia da UFMG, onde se tornou professor catedrático de Literatura Espanhola e Hispano-Americana e participou da fundação da própria faculdade. Também lecionou Filologia Românica e recebeu da universidade o título de professor emérito.
A professora Letícia Malard, que foi sua aluna e depois se tornou professora emérita da mesma instituição, lembra que o mais marcante era a cultura literária do mestre, que "lia tudo". Em sala, Frieiro era cortês e aplicado, corrigia até a ortografia dos trabalhos e nunca dava nota máxima — hábito que confessava aos alunos. Fora da aula, os estudantes o chamavam, com carinho, de "Frieirinho".
Amigos do Livro: a editora que reuniu Drummond
Nos anos 1930, Frieiro fundou a Sociedade Editora Amigos do Livro, que publicou mais de 25 títulos e funcionou como uma alternativa às grandes casas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Entre os cerca de 20 sócios estavam Carlos Drummond de Andrade, Aníbal Machado e Ciro dos Anjos. A editora nasceu do mesmo impulso que atravessa toda a biografia de Frieiro: a crença de que circular livros é uma forma de construir uma comunidade — e de que o ofício editorial exige rigor artesanal, tema que ele tratou em vários ensaios.
Feijão, angu e couve e o estudo da comida mineira
Publicado em 1966, Feijão, angu e couve é o livro que garantiu a Frieiro um lugar duradouro na cultura brasileira. O ensaio percorre a formação histórica da cozinha de Minas, seus ingredientes, hábitos e transformações, e é reconhecido como o primeiro trabalho a explorar a fundo a culinária mineira como objeto de estudo. Antes dele, a comida do interior já aparecia na literatura e na crônica, mas não havia recebido tratamento ensaístico sistemático.
O reconhecimento veio também pela via institucional: em 2012, uma lei estadual instituiu o dia 5 de julho, data de nascimento do escritor, como o Dia da Gastronomia Mineira. Em Belo Horizonte, o Troféu Eduardo Frieiro passou a premiar pessoas e instituições que mantêm viva a memória da cozinha do estado. Nenhum outro autor brasileiro tem uma data comemorativa ligada à gastronomia regional com esse grau de formalização.
O diabo na livraria do cônego e a história de Minas
Antes do livro sobre a comida, Frieiro já havia mergulhado no século 18 mineiro. Em 1945, publicou O diabo na livraria do cônego, ensaio sobre a biblioteca apreendida do Cônego Luís Vieira da Silva, um dos implicados na Inconfidência Mineira de 1789. Cerca de mil livros do religioso foram confiscados pelas autoridades da Devassa, e o autor usa esse acervo para discutir o que se lia na Minas colonial e o que aquelas leituras tinham de perigoso aos olhos da Coroa. O volume foi ampliado em edições posteriores com outros estudos sobre a história mineira.
O interesse pelas fontes primárias e pelos autores esquecidos atravessa outros títulos, como Como era Gonzaga? (1950), sobre o poeta da Inconfidência, e as coletâneas Letras mineiras (1937) e Páginas de crítica e outros escritos (1956). Como pesquisador, Frieiro ajudou a resgatar escritores menores e a iluminar pontos pouco explorados da formação do sistema literário de Minas.
A polêmica com o modernismo
Frieiro foi um crítico ferrenho do modernismo, o que lhe rendeu inimigos e o rótulo de passadista. Nos anos 1920, assinou textos com o pseudônimo João Cotó — inspirado no francês Jean Cocteau — para atacar os "rapazes desatinados" que renovavam a literatura brasileira. O episódio é reconstituído no capítulo "Um caderno de fel", de O desatino da rapaziada, livro de Humberto Werneck sobre jornalistas e escritores mineiros.
O contraste rende até hoje leituras curiosas: um autor que publicava jovens poetas em sua editora e, ao mesmo tempo, desancava o grupo de Drummond nas páginas dos jornais. Em A ilusão literária, de 1932, Frieiro reuniu mais de vinte textos sobre o ofício de escrever e a função da crítica, com reflexões que continuam atuais para quem escreve ou pretende escrever. O jornalista André Nigri descreveu o livro como um "antídoto contra a grafomania".
O que Eduardo Frieiro escreveu
A obra reúne ensaios, romances, crítica e memorialismo. Os títulos mais conhecidos são:
- O clube dos grafômanos (1927), sátira sobre o ambiente literário;
- O mameluco Boaventura (1929), romance ambientado nas Minas do século 18;
- A ilusão literária (1932), ensaios sobre a arte de escrever;
- O cabo das tormentas (1936), ensaio lançado pela sua própria editora;
- Os livros nossos amigos (1941), o mais afetuoso dos seus livros, sobre bibliotecas e leitura;
- O diabo na livraria do cônego (1945), estudo sobre a biblioteca do cônego da Inconfidência;
- Feijão, angu e couve (1966), obra pioneira sobre a comida mineira;
- Novo diário, publicado após a queima dos cadernos originais.
Academia, prêmios e legado
Frieiro ocupou a cadeira nº 7 da Academia Mineira de Letras e recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Sua biblioteca pessoal, com milhares de volumes, foi incorporada ao acervo da Academia Mineira de Letras, onde permanece à disposição de pesquisadores.
Em 2019, o festival Livro na Rua, em Belo Horizonte, dedicou a edição ao "mais envergonhado dos escritores mineiros", levando o nome dele de volta ao debate público. Vinte anos antes, Humberto Werneck resumiu o paradoxo do autor: um sujeito discreto que se envolvia em polêmicas, respeitado por nomes como Drummond e Otto Maria Carpeaux, mas enraizado em Minas por escolha — e por isso menos conhecido fora do estado do que a qualidade da obra permitiria prever.
Perguntas frequentes
Quem foi Eduardo Frieiro?
Escritor, professor e bibliófilo nascido em Matias Barbosa em 1889 e radicado em Belo Horizonte desde 1898. Ensinou literatura espanhola na UFMG, fundou a Sociedade Editora Amigos do Livro e dirigiu a Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais.
Por que ele é considerado pioneiro da gastronomia mineira?
Porque Feijão, angu e couve (1966) foi o primeiro livro a estudar a comida de Minas com método ensaístico, reunindo história, ingredientes e hábitos alimentares. A data de nascimento do autor, 5 de julho, foi transformada em Dia da Gastronomia Mineira em 2012.
Onde está a biblioteca de Eduardo Frieiro?
O acervo pessoal foi incorporado pela Academia Mineira de Letras, em Belo Horizonte, que também guarda sua coleção e preserva parte da correspondência do escritor.
Qual livro de Eduardo Frieiro ler primeiro?
Depende do interesse: quem busca história e cultura de Minas pode começar por O diabo na livraria do cônego; quem escreve encontra em A ilusão literária um clássico sobre o ofício; e Feijão, angu e couve é a porta de entrada mais conhecida para a obra.






