Quando Narradores de Javé chegou aos cinemas, em 2004, o filme sobre um vilarejo do sertão baiano que tenta escrever a própria história antes de ser inundado por uma represa já havia passado por Cannes e vencido festivais no Brasil e no exterior. Por trás dele estava Eliane Caffé, diretora e roteirista paulistana que desde os anos 1990 constrói uma obra marcada pela mistura entre ficção e realidade e por um método constante: filmar junto com as pessoas dos territórios retratados, não apenas sobre elas.
Eliane Caffé nasceu em São Paulo, em 1961, e se formou em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 1985. A passagem para o cinema veio na segunda metade daquela década, com um curso de dramaturgia e roteiro em Cuba e uma pós-graduação em estética e teoria das artes na Universidade Autônoma de Madri, entre 1991 e 1992. Dessa formação híbrida nasceu um olhar que atravessa curtas, longas de ficção, séries de televisão e documentários realizados em colaboração com comunidades em situação de conflito real — do sertão da Bahia às ocupações do centro de São Paulo.
Da psicologia ao cinema: curtas premiados e formação no exterior
Antes do primeiro longa, Eliane Caffé assinou uma trilogia de curtas que já anunciava seus temas. O Nariz (1987), adaptação de uma crônica de Luiz Fernando Verissimo, venceu o Festival Internacional de Cinema de Oberhausen, na Alemanha, em 1989. Arabesco (1990) levou cinco prêmios no Festival de Cinema de Gramado, entre eles os de melhor curta-metragem pelo júri oficial e pelo júri popular. Caligrama (1995), ensaio realizado com moradores de rua de São Paulo, foi eleito melhor documentário no Festival de Brasília e melhor filme experimental no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, em Havana. No fim dos anos 1980, ela também trabalhou como assistente de direção do documentário Strip-tease, de Ivo Branco.
Kenoma: o primeiro longa e a passagem por Veneza
O primeiro longa-metragem veio em 1998. Kenoma acompanha Lineu, personagem vivido por José Dumont, obcecado por construir uma máquina de movimento perpétuo numa cidade fictícia do interior do Brasil — alegoria da persistência diante do fracasso que a crítica aproxima das lutas de quem vive à margem do desenvolvimento. O filme foi exibido na 55ª edição da Bienal de Veneza, na seção Prospettive, e passou por festivais como Toronto, Locarno e Rotterdam. Na temporada de prêmios, venceu o Soleil d'Or do Festival de Biarritz e levou melhor filme, direção e fotografia no Festival de Gava, na Espanha. Em Brasília, José Dumont foi premiado como melhor ator.
Narradores de Javé: memória oral, prêmios e reconhecimento
Exibido em Cannes em 2003 e lançado nos cinemas brasileiros em janeiro de 2004, Narradores de Javé nasceu de um trabalho de campo: Eliane Caffé percorreu a Bahia e Minas Gerais com gravador e câmera, registrando contadores de histórias, e das expedições saiu a matéria-prima do roteiro escrito com Luís Alberto de Abreu. A trama, rodada em Gameleira da Lapa com moradores da própria região ao lado de atores como José Dumont, Matheus Nachtergaele e Nelson Xavier, mostra a comunidade improvisando um dossiê histórico para tentar escapar da represa que vai submergir o povoado. O personagem Antônio Biá foi livremente inspirado no memorialista mineiro Pedro Cordeiro Braga, morador do povoado do Vau, em Diamantina.
O longa venceu o Festival do Rio de 2003, pelo júri oficial e pelo voto popular, e dominou a premiação do Cine PE, com prêmios de melhor filme, direção, montagem, som e atuação. No circuito internacional, recebeu o prêmio FIPRESCI no Festival de Friburgo, na Suíça, e foi eleito melhor filme independente e melhor roteiro no Festival Internacional do Filme Independente de Bruxelas e melhor filme em Punta del Este, no Uruguai. O roteiro, escrito com Luís Alberto de Abreu, também rendeu à dupla o Prêmio APCA de 2005.
Era o Hotel Cambridge: filmar dentro de uma ocupação
Em 2016, Eliane Caffé aplicou esse método em Era o Hotel Cambridge, híbrido de ficção e documentário rodado dentro de uma ocupação real do centro de São Paulo, onde refugiados recém-chegados ao Brasil dividem espaço com trabalhadores sem-teto ligados à Frente de Luta pela Moradia. Moradores e atores profissionais, como José Dumont, Carmen Silva e Suely Franco, contracenam em situações que misturam drama e comédia enquanto o despejo é anunciado. A preparação levou dois anos e envolveu oficinas de dramaturgia, cenário e figurino realizadas com os próprios ocupantes e estudantes da Escola da Cidade, faculdade de arquitetura e urbanismo.
O filme recebeu menção honrosa no Festival de San Sebastián, na Espanha, venceu o voto popular na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio, onde também levou o prêmio da crítica e o de melhor montagem. No Fest Aruanda, foi eleito melhor longa pelo júri oficial e pelo júri da Abraccine, com melhor atriz para Suely Franco. Chegou aos cinemas em 2017 e segue disponível em plataformas brasileiras, como Prime Video, Looke, Belas Artes à La Carte e Apple TV.
O Sol do Meio-Dia, a televisão e o cinema feito em coletivo
Apresentado na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2009, O Sol do Meio-Dia acompanha três personagens do interior que deixam suas cidades por motivos distintos e se encontram em Belém do Pará na tentativa de recomeçar. O filme recebeu o prêmio da crítica de melhor filme brasileiro na mostra e rendeu a Luis Carlos Vasconcelos e Chico Diaz o prêmio de melhores atores no Festival do Rio daquele ano.
Ao mesmo tempo, a diretora ampliou a atuação em outras frentes. Na TV Cultura, dirigiu a microssérie O Louco dos Viadutos (2009), sobre a academia de boxe que ocupou os baixios de um viaduto paulistano. No cinema, assinou documentários feitos com comunidades, como Milágrimas (2006), sobre o espetáculo de dança de Ivaldo Bertazzo, e Céu sem Eternidade (2011), realizado nas comunidades quilombolas de Alcântara, no Maranhão, com menção honrosa no Festival Guarnicê. Também coordenou oficinas de audiovisual com pacientes psiquiátricos, moradores de rua e refugiados, experiência que atravessa boa parte dos seus filmes.
Em 2020, codirigiu com Beto Amaral e Carla Caffé o documentário Para Onde Voam as Feiticeiras, que acompanha as performances de sete artistas pelas ruas do centro paulistano e discute preconceitos de gênero e raça. O filme foi premiado no Festival Queer Porto, no Festival de Cinema de Vitória e no Santos Film Fest. Mais recentemente, assinou Costurando Céus, filme de 38 minutos montado a partir de imagens antigas em domínio público e do encontro entre artistas de diferentes territórios.
Filhos do Mangue e o Kikito de melhor direção em 2024
O quinto longa de ficção, Filhos do Mangue, saiu do 52º Festival de Cinema de Gramado com o Kikito de melhor direção para Eliane Caffé e o de melhor atriz coadjuvante para a potiguar Genilda Maria. O filme parte do livro Capitão, de Sérgio Prado, e mostra um homem violento e sem memória que aparece ferido numa comunidade ribeirinha do Rio Grande do Norte, onde é acusado de roubo e submetido a um julgamento popular — dispositivo que faz emergir uma trama de violência doméstica, tráfico de pessoas e desvio de verba pública. As filmagens aconteceram em Barra de Cunhaú, no litoral potiguar, com Felipe Camargo, Titina Medeiros, Roney Villela e Thiago Justino no elenco.
Antes do Kikito, o prêmio de melhor direção em Gramado já havia reconhecido cineastas como Anna Muylaert, vencedora em 2002 por Durval Discos. Depois de Gramado, Filhos do Mangue passou pelo Festival do Rio e pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2024, e estreou nos cinemas brasileiros em 17 de julho de 2025. Na sequência, ainda foi premiado no FESTIN de Lisboa, na categoria de melhor direção, e no Inffinito de Miami, com melhor roteiro, melhor ator e melhor direção.
Onde encontrar os filmes de Eliane Caffé
Os longas mais recentes circulam em serviços de assinatura, aluguel e compra digital, e os títulos mais antigos também podem ser encontrados em DVD. Entre as obras centrais da diretora estão:
- Kenoma (1998) — primeiro longa, vencedor do Soleil d'Or em Biarritz;
- Narradores de Javé (2003) — vencedor do Festival do Rio e do Cine PE;
- O Sol do Meio-Dia (2009) — prêmio da crítica na Mostra de São Paulo;
- Era o Hotel Cambridge (2016) — ficção e documentário dentro de uma ocupação real;
- Para Onde Voam as Feiticeiras (2020) — documentário codirigido;
- Filhos do Mangue (2024) — Kikito de melhor direção em Gramado.
O site oficial, elianecaffe.com.br, reúne currículo, fichas técnicas e imagens de cada trabalho, e o canal Eliane Caffé no YouTube mantém um repertório de filmes e ensaios da diretora. Em outubro de 2026, Eliane Caffé participa da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com a masterclass "O Cinema de Contrapartida em Territórios de Conflito", ao lado da diretora de arte Carla Caffé, sobre as estratégias de criação coletiva em territórios de conflito — o mesmo princípio que atravessa Narradores de Javé e Era o Hotel Cambridge.





