Elisa Lucinda escreveu, dirigiu e interpretou Parem de falar mal da rotina, espetáculo que estreou em 2002 e se tornou um dos raros projetos de palco brasileiros a atravessar décadas — primeiro como peça, depois como livro. Antes disso, ela já havia transformado a poesia falada em ofício, declamando em bares e pequenos shows do Rio de Janeiro enquanto estudava teatro. Foi por esse caminho que saiu de Cariacica, no Espírito Santo, para a televisão, o cinema e uma obra literária com mais de quinze títulos publicados.
Atriz, poetisa, escritora e cantora, Elisa Lucinda Campos Gomes nasceu em 2 de fevereiro de 1958 e construiu uma trajetória em que a palavra dita é o fio condutor. Ela aparece nas novelas de Manoel Carlos, em filmes premiados em Brasília e Gramado, em livros de poesia, prosa e literatura infantil, em discos e na Casa Poema, instituição que fundou com a atriz Geovana Pires para ensinar poesia falada. O poema costuma ser o ponto de partida de tudo o que ela faz — no palco, na televisão, nos discos e nos livros.
De Cariacica ao Rio: origem, jornalismo e formação de atriz
Filha de um professor de português e latim, Elisa Lucinda cresceu em Cariacica, na região metropolitana de Vitória, ouvindo e decorando poemas. Aos dez anos, entrou em aulas de declamação — ou "interpretação teatral de poesia", como preferia chamar a professora Maria Filina Salles Sá de Miranda. A cena e o verso, portanto, se cruzaram antes da vida adulta.
Na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), formou-se em Comunicação Social e atuou como jornalista até 1986. Também deu aulas. No mesmo período, decidiu que queria viver de teatro e se mudou para o Rio de Janeiro, onde morou em uma vila na Tijuca e cursou interpretação na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL).
- Nascimento: 2 de fevereiro de 1958, em Cariacica (ES);
- Formação: Comunicação Social pela Ufes e interpretação teatral na CAL;
- Estreia no teatro: Rosa, um musical brasileiro, dirigido por Domingos de Oliveira;
- Estreia na TV: novela Kananga do Japão, na Rede Manchete, em 1989;
- Primeiro livro: A Lua que menstrua, publicado de forma independente em 1992.
Ainda nos anos 1980, atuou em filmes nacionais e recebeu um prêmio de atriz revelação no Festival de Cinema de Brasília. Na televisão, depois da Manchete, passou pelo SBT antes de chegar à TV Globo, onde se tornaria presença recorrente nas novelas de Manoel Carlos.
A poesia falada como ofício: dos bares ao espetáculo
Enquanto estudava teatro, Elisa Lucinda fazia o que hoje se chama de poesia falada: apresentava seus poemas em bares, casas de show e pequenos eventos, vendia livros artesanais e conquistava um público que a procurava pelo texto, não pelo personagem. Essa prática virou método e sustenta boa parte de sua obra.
Depois do primeiro livro, veio O Semelhante, publicado pela Record, que ela transformou em espetáculo e em disco — a gravação de 1997 traz participações de nomes como Miguel Falabella, Paulo José, Zezé Polessa e Mauro Salles.
O passo mais popular veio em 2002, com Parem de falar mal da rotina. Escrito, dirigido e interpretado por ela, o espetáculo parte de histórias miúdas do cotidiano para falar de amor, trabalho, cansaço e alegria com humor. A peça virou livro e rendeu a Elisa o Troféu Raça Negra de teatro em 2010. Com Geovana Pires, criou ainda a Companhia da Outra, grupo que leva a declamação ao palco em montagens como Euteamo e O Semelhante.
Na música, gravou os discos de poesia Euteamo e suas estreias, Notícias de Mim, Estação Trem e Ô Danada, e excursionou com os shows A letra que eu canto, ao lado do pianista João Carlos Coutinho, e Ô Danada, com o músico Marcus Lima.
Televisão, cinema e teatro: onde o grande público a viu
Na televisão, Elisa Lucinda ficou marcada por personagens de novelas como Mulheres Apaixonadas (Pérola), Páginas da Vida (a médica Selma, em trama que discutiu o racismo), Viver a Vida, Insensato Coração, Aquele Beijo (sua primeira vilã), Lado a Lado, Tempo de Amar, Manhãs de Setembro (a voz da cantora Vanusa) e Vai na Fé (Marlene, que lhe valeu o Troféu Raça Negra de melhor atriz em 2023).
No cinema, são mais de quinze filmes. Entre eles, Barrela (1990), A Causa Secreta, O Testamento do Senhor Napumoceno, Maré, Nossa História de Amor, A Última Estação (2012, que abriu o Festival de Brasília), Talvez uma História de Amor, Alfazema, Por que Você Não Chora? — pelo qual recebeu o Prêmio Especial do Júri do Festival de Gramado em 2020 —, O Pai da Rita (2022) e Meninas Não Choram (2024).
No teatro, além dos solos de poesia, integrou montagens como A Fúria da Beleza, A Natureza do Olhar e L, o Musical, em que interpretou a cantora Ester Rios.
Casa Poema: quando o método vira instituição
Em 2008, Elisa Lucinda e Geovana Pires fundaram no Rio de Janeiro a Casa Poema, instituição de ensino dedicada à poesia falada. As oficinas atendem grupos minorizados, com atenção especial a mulheres e pessoas negras, e a instituição prioriza a contratação de pessoas trans. O trabalho se apoia no método Escola Lucinda de Poesia Viva, aplicado por Elisa em oficinas pelo país desde o fim dos anos 1990.
Com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a atriz desenvolveu o projeto "Palavra de Polícia, Outras Armas", que levou a poesia falada a policiais e guardas municipais em discussões sobre direitos humanos, gênero e raça. A ideia de transformar a prática cênica em formação também aparece no trabalho de Denise Stoklos, que sistematizou o Teatro Essencial como método de atuação.
Livros, discos e obras: o que procurar primeiro
A bibliografia de Elisa Lucinda passa por poesia, prosa poética, contos, romance e literatura infantil. Além dos títulos de estreia, vale conhecer:
- A menina transparente — livro infantil que recebeu o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ);
- A poesia do encontro — diálogo com o educador Rubem Alves sobre poesia, leitura e formação;
- Fernando Pessoa, o cavaleiro de nada — romance publicado pela Record, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2015 e prefaciado por Mia Couto;
- Vozes guardadas — livro de poemas sobre amores, espantos e paixões;
- Contos de vista — dezesseis histórias entre drama e comédia, publicadas pela Global Editora.
Em 2019, lançou Livro do avesso: o pensamento de Edite, pela editora Malê. Muitos desses títulos nasceram de espetáculos ou viraram espetáculo depois — o trânsito entre página e palco é uma marca da autora.
Prêmios e reconhecimento público
Ao longo da carreira, Elisa Lucinda acumulou prêmios em teatro, cinema e literatura. Os principais:
- Prêmio de atriz revelação no Festival de Cinema de Brasília (1989);
- Ordem de Rio Branco, no grau de Oficial suplementar (2006);
- Prêmio Mulher Cidadã Bertha Lutz, do Senado Federal (2009);
- Troféu Raça Negra de teatro por Parem de falar mal da rotina (2010);
- Prêmio Especial do Júri do Festival de Cinema de Gramado pelo conjunto da obra (2020), ano em que também foi indicada a melhor atriz coadjuvante por Por que Você Não Chora?;
- Troféu Raça Negra de melhor atriz por Vai na Fé (2023).
O reconhecimento também se mede pela circulação: seus poemas aparecem em projetos de leitura, aulas e estudos sobre poesia falada, além das oficinas mantidas pela Casa Poema.
Elisa Lucinda e outras vozes da poesia e da literatura
Em A poesia do encontro, Elisa dialoga com Rubem Alves, educador que escreveu sobre o prazer da leitura — a parceria é uma das pontes mais diretas entre sua obra e o debate educacional brasileiro.
Na televisão, a poesia contemporânea foi tema da conversa que ela gravou com o escritor Raphael Montes no programa Trilha de Letras, da TV Brasil. A presença de autoras negras nos catálogos e nas universidades, tema que atravessa a obra de Conceição Evaristo, também dialoga com o trabalho de Elisa.
Quem quiser continuar navegando por esse universo encontra outros escritores e poetas na página de literatura do autoridades.org.
Onde acompanhar o trabalho de Elisa Lucinda
Elisa mantém presença ativa no Instagram, com mais de 400 mil seguidores, e no Facebook, onde publica poemas, datas de apresentações e lançamentos. Também está no X, antigo Twitter.
A Casa Poema publica aulas, leituras e vídeos de poesia falada em seu canal no YouTube e na página da instituição no Facebook. Para quem quer conhecer a obra por dentro, os registros de oficinas e declamações são a melhor porta de entrada.
Perguntas frequentes sobre Elisa Lucinda
Quem é Elisa Lucinda?
Atriz, poetisa, escritora e cantora brasileira nascida em Cariacica (ES), em 1958. Ficou conhecida por unir teatro e poesia falada, criou o espetáculo Parem de falar mal da rotina e fundou, com Geovana Pires, a Casa Poema.
Por que Elisa Lucinda é conhecida?
Pela atuação em novelas como Mulheres Apaixonadas, Páginas da Vida e Vai na Fé, por filmes como A Última Estação e Por que Você Não Chora? e, principalmente, pela poesia: seus livros e shows de declamação ajudaram a tornar a poesia falada um gênero popular no Brasil.
O que é a Casa Poema?
Instituição de ensino fundada em 2008 por Elisa Lucinda e Geovana Pires, no Rio de Janeiro, dedicada a oficinas de poesia falada, com foco em grupos minorizados.
Quais livros de Elisa Lucinda procurar primeiro?
Para começar pela poesia, O Semelhante e Vozes guardadas. Para conhecer a faceta de cronista, Parem de falar mal da rotina. Para o romance, Fernando Pessoa, o cavaleiro de nada. E, para ler com crianças, A menina transparente.






