Em 5 de agosto de 1920, um tenente de Intendência do Exército assinou, ao lado de outros cinco nomes, a ata de fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Emílio Fernandes de Sousa Docca tinha 36 anos, havia entrado na caserna como soldado raso em São Borja e ainda percorreria duas décadas de carreira até chegar a general. O que o tornou conhecido, porém, foi a pena: uma obra que defendeu com documentos o caráter brasileiro da Revolução Farroupilha e a atuação do Brasil no Prata.
Conhecido como Souza Docca, nasceu em São Borja em 16 de julho de 1884 e morreu no Rio de Janeiro em 21 de maio de 1945. Militar de Intendência, historiador, contista e ensaísta, ocupou a cadeira 10 da Academia Rio-Grandense de Letras, foi sócio benemérito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e sócio do Instituto de Geografia e História Militar, que o homenageia como patrono da Cadeira 67. Sua biblioteca particular foi incorporada ao acervo da Biblioteca do Exército, que ele dirigiu entre abril de 1942 e maio de 1945.
Quem foi Souza Docca
Souza Docca pertenceu a uma geração de militares que escreveu história fora da universidade. Autodidata na pesquisa documental, reuniu ao longo de décadas um arquivo particular sobre o Rio Grande do Sul e o Prata, e ficou conhecido entre os confrades como um arquivo vivo de suas coisas e de seus homens. A frase, registrada em sua homenagem no centenário de nascimento, resume o lugar que ocupava: mais do que um autor de livros, era uma referência consultada por quem estudava a formação sulina.
Filho de um veterano da Campanha do Paraguai, ingressou no Exército em 4 de abril de 1899, aos 14 anos. Fez carreira na arma de Intendência, responsável pelo abastecimento e pela administração das tropas, e chegou ao generalato em 1941. Em paralelo, publicou estudos históricos que o colocaram entre os principais nomes da intelectualidade sul-rio-grandense da primeira metade do século XX, ao lado de pesquisadores ligados ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, do qual foi um dos fundadores.
Da tropa à Intendência: a carreira militar
A trajetória militar de Souza Docca atravessa alguns dos episódios que marcaram o Exército na Primeira República. Ele serviu na Campanha do Contestado, entre 1912 e 1916, como sargento brigada do 30º Batalhão de Caçadores. Em 1915, foi promovido a segundo-tenente. Anos depois, como capitão, classificou-se em primeiro lugar no Curso de Administração Militar ministrado pela Missão Militar Francesa, que reformou o ensino do Exército nos anos 1920.
Na Revolução de 1923, foi chefe de Intendência do destacamento comandado pelo coronel Eneas. Em 1930, com a deposição da Primeira República, foi preso a bordo do navio Comandante Riper, no Guaíba. Seguiu na carreira: tenente-coronel em 1928, coronel em 1934 e general em 1941. Chefiou os Serviços de Fundos e de Intendência do Exército, colaborou diretamente na construção da Academia Militar das Agulhas Negras e organizou o Serviço de Intendência da Força Expedicionária Brasileira.
Contestado, 1923 e 1930
Os três episódios ajudam a entender por que a obra histórica de Docca nunca foi apenas bibliográfica. Ele escreveu sobre guerras e revoluções tendo participado de algumas delas, e essa experiência aparece na forma como tratava documentos militares, relatórios de comando e correspondência oficial. Era um historiador que lia o arquivo com os olhos de quem conhecia a rotina da tropa.
O historiador do Prata e da Farroupilha
O foco central de sua produção foi a formação histórica platina e rio-grandense. Em 1919, publicou Causas da Guerra com o Paraguai, estudo em que examinou a documentação do conflito para responder às acusações de que o Império brasileiro teria provocado a guerra. A obra se tornou um marco de sua atuação polêmica: Docca discutia com historiadores platinos e com autores brasileiros que, segundo ele, repetiam versões sem consultar as fontes.
Na década de 1930, defendeu outra tese que considerava central: a de que a Revolução Farroupilha teve caráter brasileiro e ideal republicano, e não separatista. O argumento aparece em conferências e estudos publicados em revistas e anais de congressos, e rendeu a Docca tanto prestígio quanto inimizades no meio intelectual. Ele também representou o Brasil em congressos no exterior, como o Congresso de História Nacional do Uruguai, no centenário da independência uruguaia, onde apresentou a tese Convenção Preliminar de Paz de 1828.
A polêmica com a historiografia platina
Boa parte dos textos de Souza Docca foi escrita como réplica. Ele respondia a versões que considerava erradas sobre a participação política, diplomática e militar do Brasil no Prata e sobre a Questão Militar. Essa disposição para o debate, registrada por seus contemporâneos, explica o tom combativo de vários capítulos e o cuidado com a citação de documentos.
Os principais livros de Souza Docca
A produção do autor combina história militar, formação regional e textos literários. Entre os títulos mais consultados estão:
- Causas da Guerra com o Paraguai (1919), estudo documental sobre as origens do conflito;
- Vocábulos Tupis-guaranis na Geografia do Rio Grande do Sul (1924), levantamento sobre topônimos de origem indígena;
- Caxias Pacificador (1938), separata da Revista Militar Brasileira sobre a atuação de Luís Alves de Lima e Silva;
- As forças armadas na formação e defesa da nacionalidade (1939), ensaio sobre o papel das Forças Armadas na construção do Estado brasileiro;
- Gente sul-rio-grandense (1940), estudo apresentado no III Congresso Sul-Rio-Grandense de História e Geografia;
- O Homem Capaz (1942), conto que integra sua produção de ficção;
- História do Rio Grande do Sul (1954), síntese publicada após sua morte.
O conto e os estudos de vocabulário mostram um autor que circulava entre a história, a filologia e a literatura. É esse perfil híbrido que sustenta o interesse atual por sua trajetória, registrada em bases como a Biblioteca Digital de Literatura Brasileira da UFSC e associada ao campo da literatura no diretório.
Como a obra é lida hoje
A historiografia recente situa Souza Docca na corrente luso-brasileira que, a partir dos anos 1920, explicou a formação do Rio Grande do Sul como desdobramento da colonização portuguesa. Pesquisadores como Ieda Gutfreind, Luiz Henrique Torres e Carlos Henrique Armani analisaram essa produção e mostraram seus limites: a leitura de Docca hierarquizava origens étnicas e minimizava influências platinas e indígenas, teses que a pesquisa atual não sustenta.
Reconhecer esse contexto não diminui o valor documental da obra. Os livros de Souza Docca continuam sendo consultados por quem investiga como o Rio Grande do Sul pensou a própria história no século XX, e por quem estuda a construção de narrativas sobre a Guerra do Paraguai e a Farroupilha.
Legado e presença pública
Além dos livros, o legado de Souza Docca inclui instituições que ajudou a criar e acervos que reuniu. Ele foi o primeiro orador da diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, fundado em 1920, e sócio fundador e primeiro presidente da Federação de Academias de Letras do Brasil. É patrono da Cadeira 67 do Instituto de Geografia e História Militar e tem a memória preservada em publicações como Souza Docca — Vida e Obra, do escritor Mário Calvet Fagundes, lançada em 1961.
Souza Docca ou Sousa Docca?
As duas grafias aparecem em documentos e catálogos. O registro civil e o verbete enciclopédico usam Sousa; as capas de vários de seus livros e boa parte da imprensa da época usam Souza. Quem pesquisa o autor deve considerar as duas formas, além do título de general e da assinatura E. F. de Souza Docca.



