Erasmo Carlos, nome artístico de Erasmo Esteves (Rio de Janeiro, 1941 – Rio de Janeiro, 2022), foi o cantor, compositor e escritor que levou o rock and roll da Tijuca para o centro da música brasileira. Amigo de Tim Maia na adolescência, parceiro de Roberto Carlos em uma das duplas de composição mais duradouras do país e uma das três estrelas do programa Jovem Guarda, ele atravessou mais de seis décadas de carreira sem largar o apelido que ganhou nos anos 1960: Tremendão.
Além dos discos, Erasmo escreveu a autobiografia Minha Fama de Mau, publicada pela Objetiva em 2009, e deixou um repertório que vai de "Festa de Arromba" e "Gatinha Manhosa" a "Sentado à Beira do Caminho" e "Panorama Ecológico". A trajetória dele ajuda a entender como o iê-iê-iê virou fenômeno de massa, como a música popular brasileira absorveu o soul e o samba-rock e por que suas canções continuam sendo regravadas por artistas de gerações diferentes.
Quem foi Erasmo Carlos
Filho de baianos, Erasmo nasceu na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, em 5 de junho de 1941. A mãe, Maria Diva, criou o filho sozinha, e ele só conheceu o pai aos 23 anos. Antes de viver de música, vendeu revistas usadas e rãs para botequins da vizinhança e passou por empregos que duravam pouco, de mostrador de imóveis a office boy.
O nome artístico nasceu de uma insatisfação: "Erasmo Esteves" rendia trocadilhos na escola e soava "espanholado" aos seus ouvidos. A convivência com Roberto Carlos e com o apresentador Carlos Imperial o aproximou do nome "Carlos", e a decisão se firmou depois que ele leu em um almanaque que as letras de Carlos remetiam a lideranças poderosas — C de Cristo, A de águia, R de rosa, L de leão, O de ouro e S de sol.
Da Tijuca ao Tremendão: como a carreira começou
No Bar Divino, na Rua do Matoso, Erasmo conviveu com Tim Maia e Jorge Ben e mergulhou no rock and roll e na bossa nova que dividiam a atenção da turma. Com amigos da Tijuca, formou o grupo vocal The Snakes, que chegou a gravar um compacto e o LP S Twist, sem alcançar o sucesso. Em 1962, entrou como crooner no Renato e Seus Blue Caps, onde dividiu os vocais com o baixista Paulo César.
A virada veio com uma versão: Erasmo traduziu "Splish Splash" para Roberto Carlos, que estourou com a gravação e abriu caminho para a dupla de composição. Contratado pela RGE em 1964, lançou "O Terror dos Namorados" e a canção "Minha Fama de Mau", que daria título à sua autobiografia décadas depois.
A Jovem Guarda e o país dividido
Em setembro de 1965, a TV Record estreou o programa Jovem Guarda, apresentado por Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléa. O trio se tornou o rosto de um movimento que misturava pop britânico, rock americano e comportamento jovem, com Erasmo no papel de Tremendão, o roqueiro de jaqueta de couro e pulseiras. "Gatinha Manhosa" e "Festa de Arromba" estão entre os sucessos da fase.
O período também teve tensões. Em 1966, Erasmo, Eduardo Araújo e Carlos Imperial foram acusados de corrupção de menores e depois inocentados. Com o fim do programa, ele entrou em crise e se recuperou com o apoio de Roberto Carlos e da então esposa, Narinha, retomando a carreira com "Sentado à Beira do Caminho" e "Coqueiro Verde", o primeiro samba-rock que gravou.
A virada dos anos 1970
Assinando com a Philips, Erasmo lançou em 1971 Carlos, Erasmo, disco que abandona a pose de ídolo juvenil e mergulha no soul e no rock psicodélico. A faixa de abertura, "De Noite na Cama", foi escrita por Caetano Veloso especialmente para ele. O álbum é hoje apontado como um dos mais importantes da música brasileira.
A década seguinte consolidou a maturidade artística: Sonhos e Memórias – 1941/1972, Projeto Salva Terra, Banda dos Contentes e Pelas Esquinas de Ipanema, que traz "Panorama Ecológico", uma das primeiras canções brasileiras de grande circulação a tratar da destruição ambiental. Em 1980, Erasmo Convida reuniu duetos com Roberto Carlos, Gilberto Gil, Rita Lee, Tim Maia, Gal Costa, Maria Bethânia e Nara Leão, entre outros. No ano seguinte, Mulher rendeu "Mulher (Sexo Frágil)" e "Feminino Coração de Deus".
O livro Minha Fama de Mau
Em outubro de 2009, a Editora Objetiva publicou Minha Fama de Mau, autobiografia em que Erasmo reconstrói a infância na Tijuca, a formação dos primeiros grupos, a Jovem Guarda e as parcerias que marcaram sua carreira. O livro tem 360 páginas e deu origem ao filme homônimo de 2019, dirigido por Lui Farias e distribuído pela Downtown Filmes, com Chay Suede no papel principal.
O título vem da canção de 1964 e funciona como chave de leitura da própria imagem pública do artista: a fama de mau que ele nunca levou a sério. A obra reconstrói em primeira pessoa o circuito musical carioca dos anos 1950 e 1960, do Bar Divino aos estúdios da RGE, e é leitura frequente de quem estuda a formação do rock no Brasil.
Prêmios, Grammy Latino e reconhecimento
Erasmo construiu uma relação longa com o Grammy Latino. Venceu a categoria de melhor álbum de rock brasileiro em 2014 com Gigante Gentil, produção de Kassin com participações de Caetano Veloso, Arnaldo Antunes e Nelson Motta. Em 2018, recebeu o Prêmio Excelência Musical da Academia Latina da Gravação e foi eleito compositor do ano pela UBC. Em 17 de novembro de 2022, cinco dias antes de morrer, ganhou mais um Grammy Latino por O Futuro Pertence à... Jovem Guarda. Em 2024, o álbum póstumo Erasmo Esteves levou a terceira vitória na categoria, igualando o recorde de Os Paralamas do Sucesso.
- Carlos, Erasmo (1971) — a virada para o soul e o rock psicodélico;
- Pelas Esquinas de Ipanema (1978) — "Panorama Ecológico" e o olhar social;
- Erasmo Convida (1980) — duetos que resumem uma geração;
- Gigante Gentil (2014) — Grammy Latino e retorno às inéditas;
- O Futuro Pertence à... Jovem Guarda (2022) — releitura do movimento que ajudou a criar.
Os últimos anos e o legado
Em 2022, Erasmo seguiu ativo: lançou O Futuro Pertence à... Jovem Guarda em fevereiro e cumpriu turnê com shows em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Caeté e Vila Velha. Morreu no Rio de Janeiro em 22 de novembro de 2022, aos 81 anos, um dia após ser internado.
A cidade do Rio rebatizou o Largo da Segunda-Feira, na Tijuca, como Largo da Segunda-Feira Erasmo Carlos, e ele recebeu postumamente o Prêmio United Earth Amazônia por canções que trataram da ecologia antes do tema se tornar pauta global. Em 2024, os filhos Leonardo Esteves e Gil Eduardo concluíram o álbum Erasmo Esteves, com participações de Emicida, Marina Sena, Gaby Amarantos e Tim Bernardes, entre outros nomes da nova geração.
Quem procura a obra de Erasmo Carlos encontra hoje um catálogo que cruza rock, soul, samba-rock e MPB, além de uma autobiografia e um filme. Para acompanhar lançamentos, acervo e novidades, o site oficial e o canal no YouTube seguem ativos, e a tag música reúne outras autoridades do mesmo universo no site.





