Erivaldo Fagundes Neves nasceu em 20 de novembro de 1946 no então distrito de Bonito, em Caetité, no sertão da Bahia — a região que se tornaria o centro de sua obra. Historiador formado pela Universidade Católica do Salvador, com mestrado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutorado pela Universidade Federal de Pernambuco, lecionou na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) desde 1978, instituição em que também foi vice-reitor. Seus estudos sobre sesmarias, escravidão, pecuária e comércio colonial ajudaram a firmar a história regional e local como campo de investigação no Brasil.
Quem procura o nome dele costuma chegar por dois caminhos: a curiosidade sobre o passado da Bahia e do sertão, ou a vontade de entender como a sociedade brasileira se formou longe dos grandes centros. Erivaldo Fagundes Neves responde aos dois interesses com uma obra construída em arquivos públicos, cartórios e paróquias — o "historiador dos sertões", como passou a ser apresentado por colegas e leitores.
Quem é Erivaldo Fagundes Neves
Filho de Joaquim Fagundes Chaves e Adelina Rodrigues Neves, fez a formação secundária em Caetité, primeiro no Colégio Diocesano do Seminário S. José e depois no Instituto de Educação Anísio Teixeira. Em 1969 foi para São Paulo, onde trabalhou em uma indústria da região do ABC, e em 1971 retornou à Bahia para cursar História.
Graduou-se pela Universidade Católica do Salvador em 1976 e fez especialização em Conteúdo e Métodos do Ensino Superior pela Universidade Federal da Bahia no ano seguinte. O mestrado em História veio pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 1985, e o doutorado pela Universidade Federal de Pernambuco, em 2003. É casado com Ivone Freire Costa e tem dois filhos.
O que os sertões da Bahia revelam
Erivaldo foi um dos primeiros historiadores a tratar pequenas comunidades sertanejas como objeto sério, com base em documentação cartorária, paroquial e fundiária preservada no Arquivo Público da Bahia. Em vez de narrar apenas os grandes ciclos econômicos, ele reconstituiu a vida de vilas e freguesias: quem tinha terra, como a terra mudava de mãos, quem era escravizado, como o gado e os gêneros circulavam e de que modo as famílias convertiam posse em poder local.
Essa abordagem atravessou fronteiras. A historiadora Jane-Marie Collins, da University of Nottingham, na Grã-Bretanha, apoiou-se em trabalhos dele para discutir resistência escrava e relações de gênero na Bahia do século XIX. No Brasil, a produção de Erivaldo se tornou leitura de referência para quem estuda estrutura fundiária, escravidão, pecuária e policultura no sertão.
O método: documentos do cotidiano
Boa parte do que Erivaldo escreveu nasceu de papéis que costumam passar despercebidos: escrituras, inventários, testamentos, registros de batismo e de casamento, cartas de sesmaria e livros de notas. Ao cruzar esses documentos com a bibliografia sobre o Brasil colonial e imperial, ele mostrou que a história de uma vila pequena permite enxergar processos amplos, como a concentração de terras, a mobilidade social e a formação das elites sertanejas.
O resultado é uma escrita que evita o retrato heroico e prefere o detalhe verificável. Em vez de tratar o sertão como cenário vazio, o historiador o apresenta como espaço de economia ativa, de conflitos fundiários e de cultura própria — visão que hoje sustenta cursos, debates e novas gerações de estudiosos da Bahia.
Da sala de aula à vice-reitoria da UEFS
Professor da UEFS desde 1978, Erivaldo acompanhou e ajudou a construir a consolidação do curso de História e da pós-graduação na instituição. Foi vice-reitor em uma gestão e, ao longo da carreira, orientou desde trabalhos de iniciação científica até teses de doutorado. Aposentou-se como professor pleno e, em 3 de junho de 2014, durante o 3º Colóquio Regional de História Colonial, colegas prestaram uma homenagem pública à trajetória dele, com a presença do então reitor José Carlos Barreto de Santana e da ex-reitora Iara Cunha.
Os livros que firmaram o nome do historiador
Entre estudos de fôlego sobre o sertão e obras de síntese sobre o Brasil, a bibliografia de Erivaldo Fagundes Neves cobre diferentes frentes:
- Uma comunidade sertaneja: da sesmaria ao minifúndio (1998; 2ª edição em 2008) — reconstituição da formação de uma comunidade do sertão baiano, da distribuição de terras à fragmentação em minifúndios;
- História regional e local (2002) — reflexão sobre o papel da história regional no debate historiográfico;
- Estrutura fundiária e dinâmica mercantil (2005) — a terra e o comércio no Alto Sertão da Bahia nos séculos XVIII e XIX;
- Caminhos do sertão (organização, 2007) — ocupação territorial, sistema viário e intercâmbios coloniais;
- Sertões da Bahia (organização, 2011) — panorama coletivo sobre formação social, economia, política e cultura sertanejas;
- Crônica, memória e história (2016) — a formação historiográfica dos sertões da Bahia;
- Formação social do Brasil (2019) — etnia, cultura e poder na construção da sociedade brasileira.
Academia Caetiteense de Letras e presença pública
Em 2004, Erivaldo tomou posse como acadêmico correspondente da Academia Caetiteense de Letras, em cerimônia ao lado da acadêmica Elza Teixeira. A mesma casa reúne outros sócios correspondentes, como Dário Teixeira Cotrim, memorialista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros.
No convívio acadêmico, costuma resumir uma tese que repete para colegas: o Brasil é o segundo maior feito português; o primeiro teria sido Portugal manter-se soberano e independente na Península Ibérica. A frase, registrada pelo sociólogo Juarez Duarte Bomfim, dá o tom do historiador que nunca separou o sertão da Bahia das conexões atlânticas que o formaram.
Por onde começar a ler
Para entender uma comunidade e seus conflitos de terra, Uma comunidade sertaneja é o ponto de partida natural. Para o jogo entre propriedade e comércio, Estrutura fundiária e dinâmica mercantil. Para um panorama da formação brasileira, Formação social do Brasil. Quem ensina História da Bahia encontra nos volumes organizados por ele material de apoio e capítulos assinados por diferentes especialistas.
A obra dialoga com a produção literária e memorialística que a tag literatura reúne no site, e os livros seguem em catálogo nas editoras universitárias da Bahia e na Editora Vozes.






