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Everardo Dias

Nascimento: 1883 São Paulo, São Paulo
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Tipógrafo, jornalista e militante espanhol radicado em São Paulo (1883–1966). Atuou nas greves de 1917 e 1919 e escreveu História das Lutas Sociais no Brasil.

Everardo Dias (Pontevedra, 1883 – São Paulo, 1966) levou 25 chibatadas na prisão de Santos, em 1919, e foi deportado no navio Benevente por causa das greves que ajudou a organizar. O episódio, que ele mesmo registrou em Memórias de um exilado, resume a trajetória de um tipógrafo que se tornou uma das vozes mais persistentes do movimento operário brasileiro nas primeiras décadas do século XX.

Ao longo de quase cinquenta anos de militância, Everardo Dias atravessou o anticlericalismo, a maçonaria, o anarquismo, o comunismo e a imprensa operária. Foi preso várias vezes, teve o patrimônio confiscado e continuou escrevendo — em jornais, em livros de memória e no volume que o tornou referência para os estudiosos do período, História das Lutas Sociais no Brasil. A trajetória é reconstruída aqui a partir de registros públicos e do verbete do Dicionário Biográfico das Esquerdas Latino-Americanas.

Quem foi Everardo Dias

Nascido em Pontevedra, na Espanha, em 1883, Everardo Dias chegou ao Brasil ainda criança, acompanhando a família, que deixou a Europa por motivos políticos. O pai, Antônio Dias, era professor, republicano e maçom, e a mudança para São Paulo colocou o menino cedo em contato com os círculos que marcariam sua vida: a tipografia, a maçonaria e a imprensa.

Aos 13 anos, começou a aprender o ofício de tipógrafo e trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo. Formou-se depois pela Escola Normal e chegou a exercer o magistério em Aparecida do Monte Alto, no interior paulista, antes de voltar à capital e ao jornalismo. Em 1904, foi iniciado na maçonaria, na Loja Filhos do Universo, o primeiro passo de uma ligação que duraria, com interrupções, quase toda a vida.

O Livre Pensador e a militância anticlerical

No início do século XX, Everardo Dias dirigiu O Livre Pensador, quinzenário anticlerical que circulou a partir de 1902 e se tornou um dos principais veículos do livre-pensamento em São Paulo. Nas páginas do jornal, defendia a liberdade de consciência, atacava o poder da Igreja Católica e divulgava autores científicos e filosóficos da época.

O trabalho na imprensa não ficou separado da atuação pública. Em 1905, foi representante da imprensa no comício dos mártires russos, em São Paulo; em 1906, falou nas comemorações do 1º de Maio em Campinas. Dentro da maçonaria, ocupou cargos em lojas paulistas e chegou a Grande Secretário Adjunto do Grande Oriente Estadual, em 1918.

Greve de 1917, insurreição de 1918 e a repressão de 1919

Everardo Dias participou da greve geral de 1917 em São Paulo — redigiu o manifesto dirigido aos soldados, convocando-os a aderir à paralisação — e, no ano seguinte, da insurreição anarquista de 1918 no Rio de Janeiro. A repressão veio em outubro de 1919, quando foi preso com outros dirigentes depois de mais uma greve geral na capital paulista.

Levado para Santos, ficou nu em uma cela infecta, apanhou 25 chibatadas e seguiu para o Rio de Janeiro, de onde foi deportado com outros militantes no navio Benevente. A expulsão virou escândalo nacional: o deputado Maurício de Lacerda leu uma carta dele na Câmara, a maçonaria se mobilizou em sua defesa e o Supremo Tribunal negou o habeas-corpus. Everardo Dias era um dos deportados considerados brasileiros, e a pressão acabou revogando a medida. Ele desembarcou no Recife em janeiro de 1920, recebido com homenagens.

Memórias, prisões e o Partido Comunista

Do exílio nasceu Memórias de um exilado, publicado em 1920, um dos relatos mais diretos da repressão aos movimentos operários daquele período. No mesmo ano, participou da fundação do Grupo Clarté e ajudou a criar a revista Clarté no Rio de Janeiro, em 1921, onde também montou uma gráfica ligada à maçonaria.

Nos anos seguintes, a trajetória política se intensificou. Atuou na campanha de Nilo Peçanha à Presidência, em 1922, foi preso após a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana e passou por prisões como a Ilha das Cobras e a fortaleza de Santa Cruz. Em 1924, aderiu à Revolta Paulista e acabou preso no Rio de Janeiro, onde permaneceu por mais de dois anos — experiência que narrou em Bastilhas Modernas, publicado em 1927.

Filiado ao Partido Comunista do Brasil, foi candidato ao Conselho Municipal de São Paulo pelo Bloco Operário e Camponês em 1928, sem se eleger. Apoiou a revolução de 1930, participou da defesa da causa constitucionalista em 1932 e, no mesmo período, acabou desligado do partido. Entre 1935 e 1937, voltou à prisão por quase dois anos, acusado sem provas de envolvimento na Intentona Comunista; foi absolvido pelo Tribunal de Segurança Nacional, com defesa do então deputado Café Filho no Congresso.

Maçonaria, Revista Brasiliense e as obras finais

Depois da liberdade, Everardo Dias retomou a vida maçônica e se dedicou a escrever. Assinou obras como Semeando e À Sombra da Acácia, além de participar do Livro maçônico do Centenário com Octaviano Bastos e Optato Carajuru. Foi redator e diretor do Boletim Oficial do Grande Oriente de São Paulo e dos jornais Folha de Acácia e Mensageiro Romano.

Nos anos 1950, tornou-se colaborador frequente da Revista Brasiliense. Foram esses artigos, reunidos, que deram origem a História das Lutas Sociais no Brasil, publicado em 1962 e reeditado pela Editora Alfa-Omega em 1977. A obra reúne greves, sindicatos, imprensa operária e repressão a partir da memória de quem viveu os acontecimentos.

Qual é o legado de Everardo Dias

Everardo Dias morreu em São Paulo em 7 de março de 1966. No mês seguinte, em 4 de abril, foi fundada em sua homenagem a Loja Everardo Dias. O nome também batiza uma rua no bairro do Limão, na zona norte da capital paulista.

Para quem pesquisa o movimento operário brasileiro, ele deixou um conjunto de obras de valor documental:

  • Memórias de um exilado (1920), sobre a prisão e a deportação no Benevente;
  • Semeando (1921) e À Sombra da Acácia, ligadas à sua atuação maçônica;
  • Bastilhas Modernas (1927), sobre os presídios e campos de concentração da Primeira República;
  • História das Lutas Sociais no Brasil (1962; 2ª edição em 1977), sua obra mais conhecida.

A trajetória dele cruza temas que o site reúne nas tags política e literatura, e permanece como porta de entrada para entender a Primeira República pelo ponto de vista de quem esteve no centro das greves.

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Memórias de um Exilado
Memórias de um Exilado
Depoimento de Everardo Dias sobre a prisão, as torturas e a deportação de militantes operários no navio Benevente, em 1919, relançado pela NELCA em 2022.
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