Fernando de Azevedo tinha 33 anos quando assumiu, em 1927, a Diretoria Geral da Instrução Pública do Distrito Federal e começou a preparar a reforma que levou seu nome. Sancionada em janeiro de 1928, ela tornou o ensino primário obrigatório e gratuito, criou o ensino técnico-profissional e instituiu concursos para o magistério na então capital do país. Foi o primeiro de uma série de episódios que ligariam sua trajetória à educação brasileira, da redação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em 1932, à criação da Universidade de São Paulo.
Educador, sociólogo, jornalista, crítico literário e administrador, Fernando de Azevedo (1894-1974) nasceu em São Gonçalo do Sapucaí, no sul de Minas Gerais, e construiu a carreira em São Paulo. Formou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco em 1918, entrou para o magistério pela Escola Normal Caetano de Campos em 1920 e passou a combinar sala de aula, imprensa e administração pública. Desse cruzamento saíram livros que até hoje aparecem na bibliografia de cursos de pedagogia, sociologia e história da educação.
Quem foi Fernando de Azevedo
Ainda adolescente, estudou no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, e depois na Companhia de Jesus, em Campanha (MG), onde teve as primeiras experiências como professor substituto. A docência ganhou espaço em relação ao plano inicial de seguir a vida religiosa e o levou, em 1914, aos estudos de Direito, iniciados no Rio de Janeiro e retomados em Belo Horizonte.
Na capital mineira, foi professor substituto de Latim e de Psicologia no Ginásio do Estado e defendeu a obrigatoriedade da Educação Física nas escolas oficiais e particulares, projeto aprovado pela Câmara Estadual. Em 1917, o contato com a obra do sociólogo francês Émile Durkheim aproximou-o da sociologia, campo que passaria a ensinar anos depois.
Do jornalismo à reforma do ensino no Rio
Formado em Direito em 1918, começou a lecionar Latim no Ginásio Anglo-Brasileiro e, em 1920, entrou na Escola Normal Caetano de Campos, ao lado de Manuel Lourenço Filho. Na imprensa, trabalhou no Correio Paulistano, entre 1917 e 1922, e depois em O Estado de S. Paulo, onde assinou crítica literária e conduziu, em 1926, a pedido de Júlio de Mesquita Filho, um inquérito sobre a instrução pública em São Paulo.
O levantamento ouviu educadores, mapeou problemas do ensino primário, secundário, profissionalizante e superior e serviu de base para uma campanha por novas políticas educacionais e pela criação de universidades no país. O próprio autor costumava dizer que foi nesse inquérito que passou a se considerar um trabalhador da educação.
Em janeiro de 1927, assumiu a Diretoria Geral da Instrução Pública do Distrito Federal, cargo que ocupou até 1930. Para reformar a rede carioca, ordenou um recenseamento escolar por sexo, idade e distrito, ampliou a construção de escolas, reorganizou a Escola Normal e transformou o ensino em pauta de política pública. A chamada Reforma Fernando de Azevedo enfrentou críticas, mas se tornou referência para as reformas estaduais que se multiplicaram no Brasil a partir dos anos 1920.
Manifesto dos Pioneiros e a criação da USP
Em 1931, a convite de Lourenço Filho, passou a ensinar Sociologia na Escola Normal de São Paulo. No ano seguinte, redigiu e assinou em primeiro lugar o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, documento que defendeu escola pública, gratuita, laica, obrigatória e única, além de uma universidade comprometida com o ensino e a pesquisa. Assinaram o texto, entre outros, Cecília Meireles e Anísio Teixeira.
A campanha pela criação de uma universidade em São Paulo, iniciada por ele em 1926, deu resultado em 1934. Fernando de Azevedo participou da elaboração do projeto que criou a USP e, na nova universidade, foi professor catedrático de Sociologia e Antropologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, diretor do Departamento de Educação e membro do Conselho Universitário. Entre 1938 e 1941, ensinou Sociologia Educacional no Instituto de Educação de São Paulo, unidade incorporada à universidade.
Biblioteca Pedagógica Brasileira, sociologia e editoração
Como dirigente da Companhia Editora Nacional, fundou em 1931 a Biblioteca Pedagógica Brasileira, coleção que dirigiu até 1946 e que deu origem às séries Iniciação Científica e Brasiliana. Traduções, ensaios e manuais publicados nesses volumes ajudaram a formar gerações de professores e pesquisadores.
Fernando de Azevedo também ajudou a institucionalizar a sociologia no país. Foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Sociologia, em 1935, e seu presidente até 1960. Em 1950, no Congresso Mundial de Sociologia de Zurique, foi eleito vice-presidente da International Sociological Association, entidade que passou a dirigir a partir de 1953.
Em 1933, assumiu a Diretoria Geral da Instrução Pública de São Paulo e organizou um conjunto de mudanças reunidas no Código de Educação. No mesmo ano, tornou-se diretor do Instituto de Educação de São Paulo.
ABL, prêmios e a defesa da educação pública
Em 1947, foi nomeado Secretário de Educação e Saúde do Estado de São Paulo, cargo do qual pediu exoneração poucos meses depois. Em 1955, a convite de Anísio Teixeira, então diretor do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, passou a dirigir o Centro Regional de Pesquisas Educacionais de São Paulo, onde atuou na articulação entre pesquisa acadêmica e escola pública.
Quatro anos depois, foi redator e signatário de Mais uma vez convocados: manifesto ao povo e ao governo, reação de intelectuais a propostas que destinavam recursos públicos ao ensino privado. Entre os 161 signatários estavam Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes e Sérgio Buarque de Holanda.
Durante a ditadura militar, manifestou-se contra a perseguição a professores e cientistas. Em 1965, assinou um documento contra a prisão dos professores da USP Mario Schenberg, Fernando Henrique Cardoso e Florestan Fernandes. No texto, defendia que a reconstrução nacional dependia de educação, ciência e cultura, não de ameaças a quem as produz.
Em 1967, foi eleito para a cadeira 14 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Antônio Carneiro Leão. Tomou posse em setembro de 1968, recebido pelo acadêmico Cassiano Ricardo. Ao longo da vida, recebeu entre outras honrarias:
- Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (1945);
- Cruz de Oficial da Legião de Honra, concedida pela França (1954);
- Prêmio Jabuti, na categoria Personalidade Literária do Ano (1964);
- Título de Cidadão Paulistano (1967);
- Prêmio Moinho Santista, na área de Ciências Sociais (1971).
Em 1970, doou ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP o acervo que hoje reúne mais de 16 mil documentos: correspondências, recortes de jornal, fotografias e originais manuscritos e datiloscritos, entre eles o de A Cultura Brasileira e o do Manifesto dos Pioneiros. Fernando de Azevedo morreu em São Paulo, em 18 de setembro de 1974.
Principais obras de Fernando de Azevedo
Os livros abaixo atravessam fases diferentes de sua atuação e continuam sendo consultados por quem estuda educação, sociologia e cultura brasileira:
- Princípios de Sociologia (1935) — manual que ajudou a difundir a sociologia no ensino brasileiro;
- Sociologia Educacional (1940) — estudo sobre as relações entre educação e outros fenômenos sociais;
- A Cultura Brasileira (1943) — interpretação da formação cultural do país, publicada como introdução ao recenseamento geral;
- As Ciências no Brasil (1955) — obra coletiva que organizou e mapeou o desenvolvimento científico brasileiro;
- A Educação na Encruzilhada (1958) — reúne textos e conferências sobre os problemas do ensino no país;
- História de Minha Vida (1971) — relato autobiográfico de sua trajetória intelectual.
Por que Fernando de Azevedo continua sendo lido
As bandeiras que ele ajudou a formular em 1932 — escola pública para todos, formação universitária de professores, financiamento estatal do ensino — seguem no centro do debate educacional. Seus livros são reeditados, seu acervo é consultado por pesquisadores e seu nome batiza escolas, bibliotecas e prêmios. Para quem quer entender como o Brasil passou a tratar a educação como direito, a obra de Fernando de Azevedo é ponto de partida e de referência. A trajetória dele dialoga com outras figuras da educação pública reunidas em Educação, como Paulo Freire.




