Flávia Oliveira percorreu durante anos cerca de 30 quilômetros por dia entre Irajá, na Zona Norte do Rio de Janeiro, e o centro da cidade — o mesmo trajeto que sua mãe, Ana Lúcia, fazia para trabalhar. Criada em um apartamento de 33 metros quadrados em um conjunto habitacional do bairro, ela transformou a rotina daquela casa em uma das carreiras mais visíveis do jornalismo econômico brasileiro. Hoje, é colunista do jornal O Globo, comentarista da GloboNews e da Rádio CBN e uma das principais vozes negras da imprensa nacional.
A trajetória começou longe das redações. Antes do jornalismo, Flávia Oliveira concluiu formação técnica em estatística na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE), experiência que mais tarde daria lastro ao domínio de números, indicadores e dados econômicos. Depois, graduou-se em jornalismo pelo Instituto de Artes e Comunicação Social (IACS) da Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1992 — no mesmo ano em que estreou profissionalmente, como repórter do Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro.
Da estatística ao noticiário de economia
Em 1994, Flávia Oliveira entrou no jornal O Globo como repórter de economia e logo se especializou em temas socioeconômicos: pobreza, desenvolvimento humano e desigualdade social. Em 2001, tornou-se editora de suplementos especiais e passou a responder de forma interina pela coluna Panorama Econômico, então assinada por Miriam Leitão — episódio que ela mesma já descreveu como um divisor de águas na própria carreira: uma jornalista negra, criada na periferia, substituindo temporariamente a maior referência de economia do país em um jornal de circulação nacional.
A experiência na cobertura de desigualdade e exclusão rendeu séries de reportagens premiadas, como Retratos do Rio, Pirataria S/A e Exclusão Digital, produzidas em parceria com colegas como Nelson Vasconcelos e Luciana Rodrigues. Foi também o período em que assinou a coedição do suplemento A Cor do Brasil, voltado à população negra e às relações raciais no país.
A coluna própria e a página 3 do Globo
Em agosto de 2006, Flávia Oliveira passou a assinar a coluna Negócios & Cia, publicada cinco dias por semana e dedicada ao noticiário de empresas privadas e públicas, brasileiras e estrangeiras. Mais tarde, migrou para a seção de opinião do jornal, onde assina artigos semanais na página 3. Nesse espaço, o olhar econômico se ampliou: além de conjuntura e mercado, a coluna trata de racismo, diversidade, direitos humanos e políticas sociais, com a mesma lógica de quem lê a desigualdade brasileira a partir de dados e da própria história.
GloboNews e CBN: a rotina de quem comenta o dia
Na televisão, é presença fixa na GloboNews desde 2009, como comentarista de economia do Estúdio i, programa que acompanha de segunda a sexta. Entre 2011 e a segunda metade da década, comentou finanças pessoais e economia doméstica no Bom Dia Rio e no RJTV, na TV Globo, sempre às sextas-feiras. Hoje, participa também do Em Pauta e do Jornal das Dez e mantém duas entradas semanais na Rádio CBN e na CBN Rio.
Em entrevistas, a jornalista costuma dizer que trabalha sozinha, sem assistente, e que dorme e acorda respirando notícias para dar conta de escrever, aparecer e comentar em veículos diferentes no mesmo dia. É essa rotina de leitura permanente que sustenta a leitura sóbria dos indicadores econômicos que a tornou conhecida — e que ela combina com uma agenda declarada de defesa da diversidade nas redações.
Angu de Grilo: mãe e filha no mesmo podcast
Em 2019, quando mulheres à frente de podcasts ainda eram exceção no Brasil, Flávia Oliveira estreou o Angu de Grilo ao lado da filha, a também jornalista Isabela Reis. No programa, as duas — duas gerações de cariocas, segundo a própria apresentação do projeto — comentam as notícias da semana com informalidade, humor e intimidade, passando por política, economia, cultura, comportamento e pelas questões do Rio de Janeiro.
O podcast ultrapassou 350 episódios, foi indicado ao prêmio MTV Miaw e ganhou versão em vídeo no YouTube, além de perfil próprio no Instagram. É, na prática, o projeto mais pessoal da carreira da jornalista: um espaço em que trabalho e família se misturam, ancorado na química entre mãe e filha.
Prêmios e reconhecimento
A trajetória de Flávia Oliveira é pontuada por reconhecimentos que acompanham as diferentes fases da carreira:
- Prêmio Esso de Jornalismo (2001), na categoria Melhor Contribuição à Imprensa, pela série Retratos do Rio;
- Prêmios Fiat Allis de Jornalismo Econômico, Ayrton Senna e Imprensa Embratel (2002), pelo caderno Pirataria S/A, em parceria com Nelson Vasconcelos;
- Prêmio Imprensa Embratel (2003), pelo caderno Exclusão Digital;
- Prêmio Jornalismo para Tolerância, da Federação Internacional de Jornalistas (2003), pela coedição do suplemento A Cor do Brasil;
- Prêmio Elizabeth Neuffer, da Associação dos Correspondentes da ONU (2003), por reportagens sobre desenvolvimento humano;
- Medalha Tiradentes (2018), concedida pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro;
- Prêmio Marielle Franco (2021), também da Alerj;
- Prêmio Especial Vladimir Herzog (2024), pelas contribuições ao jornalismo brasileiro em diversidade, inclusão e direitos humanos.
Na entrevista concedida ao prêmio Herzog, ela resumiu o lugar que ocupa na profissão: "Sou a exceção que confirma a regra." A frase virou uma espécie de síntese da sua atuação pública — a de quem aproveita a visibilidade conquistada para defender a ampliação de vozes e de pautas no jornalismo, em vez de tratar a própria trajetória como prova de que basta esforço individual.
Ancestralidade, religião e família
Criada na Umbanda, Flávia Oliveira tem no Candomblé um dos pilares da vida adulta. "Fora a maternidade, o Candomblé foi a melhor coisa que me aconteceu", declarou em entrevista ao portal Terra. Em 2015, ao assistir a uma entrevista da ialorixá Mãe Beata de Iemanjá no programa Espelho, apresentado por Lázaro Ramos no Canal Brasil, notou semelhanças entre a religiosa e sua mãe. Dias depois, encontrou Mãe Beata durante o Prêmio Camélias da Liberdade e descobriu o parentesco: seu avô, o ferreiro conhecido como Pitú, em Cachoeira (BA), era primo de primeiro grau da mãe da ialorixá. As duas passaram a conviver como família até a morte de Mãe Beata.
Flávia Oliveira é mãe de Isabela Reis, avó e tia do jogador de futebol Paulinho. Fora das redações, costuma desfilar em escola de samba e diz cuidar do jardim, da terapia e das obrigações religiosas como contrapeso à rotina intensa de notícias.




