Flavio Alves tinha 27 anos quando publicou o livro que mudou o rumo da sua vida. Escrito em parceria com Sérgio Barcellos, Toque de Silêncio (1997) retratou a vida de gays e lésbicas dentro da Marinha do Brasil — instituição que o próprio autor havia deixado três anos antes, depois de mais de seis anos de serviço. Meses após o lançamento, ameaças relatadas por ele motivaram um pedido de asilo político nos Estados Unidos, concedido em 1998. Em Nova York, o ex-aprendiz de marinheiro nascido no Rio de Janeiro se formou em Ciências Políticas, trabalhou em gabinetes políticos e, a partir de 2007, dedicou-se ao cinema: dirigiu curtas premiados em festivais ao redor do mundo e, em 2019, estreou sua primeira longa-metragem, The Garden Left Behind, vencedora do prêmio do público no festival SXSW.
Em duas décadas de trabalho, Alves construiu uma filmografia que coloca no centro das histórias personagens que o cinema costuma deixar em segundo plano: pessoas idosas, imigrantes indocumentados e mulheres trans. É um cinema de observação, com elencos que já reuniram nomes como Viola Harris, Burt Young, Sally Kirkland, Michael Madsen e Ed Asner. Antes de chegar às telas, essa trajetória passou pela caserna, pelo ativismo e pelos bastidores do Partido Democrata norte-americano.
Da Marinha brasileira ao asilo político nos Estados Unidos
Flavio Pimenta Alves nasceu no Rio de Janeiro, em 30 de novembro de 1969. No fim dos anos 1980, ingressou nas Forças Armadas como aprendiz de marinheiro e serviu por mais de seis anos. Ainda na ativa, começou a se envolver com a causa dos direitos LGBT dentro da instituição — experiência que daria origem ao seu primeiro livro.
Toque de Silêncio saiu pela Geração Editorial em 1997, escrito com o escritor Sérgio Barcellos. O relato expôs a homossexualidade vivida sob a hierarquia militar e projetou o nome de Alves para além do Brasil. Segundo o autor, o livro lhe rendeu ameaças de morte. Entre as entidades e personalidades que apoiaram seu pedido de asilo estavam organizações de direitos humanos e nomes como a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy e o deputado federal Fernando Gabeira. O asilo foi concedido em 1998, com base em opinião política e orientação sexual.
Já nos Estados Unidos, formou-se em Ciências Políticas na Universidade Columbia, em 2007, depois de anos trabalhando com política: foi assistente do então deputado nova-iorquino Anthony Weiner e da então senadora Hillary Clinton. Ainda em 2007, deixou os gabinetes para estudar produção e direção de cinema na Universidade de Nova York (NYU).
Como Flavio Alves entrou no cinema
Na NYU, Alves escreveu e dirigiu Even in My Dreams (2008), curta que venceu o prêmio Technisphere de melhor filme estudante e rodou festivais internacionais — no Brasil, levou o prêmio do público no Festival Internacional de Cinema de Itu. No ano seguinte, vieram o Golden Palm Award do Mexico International Film Festival e o Golden Ace Award de Las Vegas.
O passo seguinte foi The Secret Friend (2010), adaptação do conto homônimo de 1997 do escritor João Silvério Trevisan. Com Viola Harris e Siobhan Fallon nos papéis principais, o curta acompanha Anna Marshall, uma viúva idosa e solitária num subúrbio de Nova York que desenvolve uma amizade misteriosa com um interlocutor que liga e permanece em silêncio. Filmado em Brooklyn no início de 2009, estreou no Palm Springs International Film Festival de 2010, onde foi escolhido como Best of the Fest, e passou por mais de 90 festivais, acumulando dezenas de prêmios.
Personagens idosos, imigrantes e trans: o que os filmes de Flavio Alves têm em comum
Em Tom in America (2014), Alves levou para a tela dois atores indicados ao Oscar: Burt Young e Sally Kirkland. O roteiro segue um homem idoso e casado que vive num subúrbio de Long Island e revira o lixo da vizinhança em busca de objetos para vender na feira local. Quando encontra um boneco de Tom of Finland, desperta um impulso que havia ignorado por décadas. O curta rodou mais de 140 festivais e foi exibido no canal a cabo Here TV.
O tema do desejo tardio e da invisibilidade dos mais velhos reaparece, com outra roupagem, em The Garden Left Behind (2019), a primeira longa-metragem de Alves. A protagonista é Tina Carrera, uma mulher trans mexicana e indocumentada que tenta sobreviver em Nova York, papel defendido por Carlie Guevara ao lado de Michael Madsen e Ed Asner. O filme ficou marcado pela representação trans diante e atrás das câmeras e pela campanha de financiamento pouco convencional: a produção arrecadou mais de 100 mil dólares em doações e vendas pelo eBay, tornando-se o primeiro longa independente a ser custeado substancialmente por meio da plataforma.
Prêmios e reconhecimento internacional
O trabalho de Alves acumulou prêmios em festivais e programas de apoio à criação. Entre os principais reconhecimentos estão:
- Prêmio do público no SXSW 2019, por The Garden Left Behind;
- QueerScope Debut Film Award, no Hamburg LGBT Film Festival de 2019;
- Best Latinx Director, concedido pela NALIP em 2020;
- Jerome Hill Artist Fellowship, da Jerome Foundation, em 2021;
- Artist Academy da Film Society of Lincoln Center, em 2018;
- Mentoria de direção do HALF Initiative, programa do produtor Ryan Murphy, em 2019.
Alves também é membro do National Board of Review desde 2013, e The Garden Left Behind figura na lista dos 200 melhores filmes LGBTQ de todos os tempos publicada pela Rotten Tomatoes em 2021. Antes disso, The Secret Friend havia recebido o Cine Golden Eagle Award de melhor curta-metragem, entre outras premiações em festivais de vários países.
Onde assistir e acompanhar o trabalho de Flavio Alves
Seus filmes estão disponíveis para aluguel e compra digital no Amazon Prime Video, e Toque de Silêncio continua à venda em edição impressa na Amazon, na coleção de literatura do site. O diretor mantém perfis públicos no Facebook e no X (antigo Twitter) e tem ficha completa no IMDb, útil para acompanhar a filmografia em ordem cronológica.
Em 2022, Alves anunciou a mudança de sua produtora para a Flórida, onde passou a pesquisar o próximo filme — a imprensa local noticiou planos de rodar uma produção na região de Homosassa. Ele vive em The Villages, no mesmo estado, e segue ativo entre a escrita e a direção.





