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João Silvério Trevisan

Nascimento: 1944 Ribeirão Bonito, SP
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Escritor, cineasta e dramaturgo paulista, João Silvério Trevisan fundou o jornal Lampião da Esquina e assinou Devassos no Paraíso, estudo sobre a história LGBT no Brasil.

João Silvério Trevisan escreveu Devassos no Paraíso, um dos primeiros levantamentos amplos sobre a homossexualidade no Brasil, e ajudou a fundar o jornal Lampião da Esquina, que circulou entre 1978 e 1981. Quem procura o nome dele hoje chega por caminhos que se cruzam: a curiosidade sobre os romances, a pesquisa sobre a história do movimento LGBT brasileiro e o interesse pelas oficinas de escrita criativa que ele coordena há décadas.

Essa mistura de ficção, ensaio e militância não é acidental. Trevisan nasceu em Ribeirão Bonito, no interior de São Paulo, em 23 de junho de 1944, e construiu uma trajetória em que literatura, cinema e ativismo caminharam juntos — do seminário à censura, do exílio à fundação de um jornal que mudou a forma como a imprensa brasileira tratava a homossexualidade.

Quem é João Silvério Trevisan

Trevisan é escritor, ensaísta, roteirista, diretor de cinema, dramaturgo, jornalista e tradutor. Filho mais velho de uma família de classe média baixa, cresceu ajudando o pai na entrega dos pães produzidos em casa e teve na mãe a primeira incentivadora da leitura. Ainda adolescente, entrou no Seminário Menor Diocesano de São Carlos e depois cursou filosofia no Seminário Maior de Aparecida/Lorena e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, formando-se em licenciatura plena pelas Faculdades Associadas Ipiranga.

Foi no seminário que organizou um núcleo de estudos de cinema e um cineclube — sinal do que viria. Depois de deixar a formação religiosa, trabalhou na Cinemateca Brasileira e passou a atuar em produções cinematográficas, ao mesmo tempo em que escrevia contos e ensaios.

Do cinema marginal ao autoexílio

Em 1967, Trevisan foi assistente de direção de Liberdade de Imprensa, de João Batista de Andrade. No ano seguinte, ajudou a fundar a Tecla Produções Cinematográficas e passou a trabalhar em trilhas sonoras e funções diversas em filmes da chamada boca do lixo. Uma viagem pela Europa e pela África inspirou o roteiro de seu único longa-metragem, Orgia ou o Homem que Deu Cria (1970), alegoria sobre a formação do Brasil que foi proibida pela censura.

O filme partia de um título provocador, Foi assim que matei meu pai, e misturava antropofagia, personagens tipificados e crítica ao cinema novo. Com a perseguição política e a censura, Trevisan deixou o país em 1973, viveu nos Estados Unidos e no México e percorreu onze países da América Latina. Na Califórnia, entrou em contato com o movimento gay organizado e com a imprensa voltada ao tema — experiência decisiva para o que faria ao voltar.

Lampião da Esquina, Grupo Somos e a imprensa gay

De volta ao Brasil, publicou Testamento de Jônatas deixado a David (1976), seu primeiro livro de contos. Em 1978, participou da fundação do Grupo Somos, organização pioneira na defesa dos direitos dos homossexuais, e do jornal Lampião da Esquina, criado por um conselho editorial de onze pessoas que reunia nomes como Aguinaldo Silva, Darcy Penteado, Jean-Claude Bernardet e Peter Fry.

O tabloide circulou até 1981, com 38 edições e tiragem que chegava a 15 mil exemplares, e abriu espaço não só para homens gays, mas também para travestis, lésbicas, pessoas negras, mulheres e povos originários. Foi uma das primeiras publicações brasileiras a tratar essas pautas com linguagem política própria, sem tom de manual. Trevisan também atuou como colunista da revista G Magazine e, entre 1998 e 2005, coordenou oficinas literárias no Sesc de São Paulo.

Devassos no Paraíso e a pesquisa sobre a homossexualidade brasileira

A encomenda veio da editora britânica Gay Men's Press, que em 1982 procurou Trevisan para escrever uma história da homossexualidade no Brasil. O resultado, Devassos no Paraíso, saiu em 1986 simultaneamente na Inglaterra e no Brasil e se tornou uma das obras mais consultadas sobre o tema. O livro percorre da colônia à atualidade e examina como o desejo entre pessoas do mesmo sexo foi tratado em diferentes contextos, da Inquisição à imprensa alternativa, da repressão à organização política.

A obra ganhou edições ampliadas — a quarta, revista e atualizada, saiu em 2018 — e foi traduzida para o inglês como Perverts in Paradise. Ao lado dela, Seis balas num buraco só (1998, com nova edição em 2021) aprofunda a discussão sobre masculinidade, misoginia e homofobia.

Os romances e a literatura do eu

Antes do ensaio histórico, Trevisan já escrevia ficção. Em nome do desejo (1983) narra a história de amor e ódio entre dois seminaristas e foi adaptado para o teatro na década de 1990. Vieram Vagas notícias de Melinha Marchiotti (1984), O Livro do Avesso (1992), Ana em Veneza (1994), Troços & Destroços (1997) e Rei do Cheiro (2009).

Nos últimos anos, o autor voltou-se para a memória familiar. Pai, pai (2017) reconstrói a relação tumultuosa com o pai; A Idade de Ouro do Brasil (2019) retoma o romance; e Meu irmão, eu mesmo (2023) trata da amizade com o irmão Cláudio, morto em 1996. Trevisan também traduziu autores como Jorge Luis Borges, Guillermo Cabrera Infante, Melanie Klein e Eduardo Galeano.

Prêmios, traduções e reconhecimento público

A obra de Trevisan recebeu três vezes o Prêmio Jabuti e três vezes o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Entre as distinções e homenagens públicas:

  • Jabuti de romance por O Livro do Avesso (1993) e por Ana em Veneza (1995);
  • Jabuti de contos por Troços & Destroços (1998);
  • APCA por Ana em Veneza (1994) e por Rei do Cheiro (2009);
  • título de Cidadão Paulistano, concedido pela Câmara Municipal de São Paulo em 2006;
  • Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em 2023;
  • homenagens do Instituto Moreira Salles, em 2000, e da Balada Literária, em 2009.

Seus livros foram traduzidos para inglês, alemão, espanhol, italiano, polonês e húngaro.

Onde encontrar João Silvério Trevisan hoje

Trevisan mantém presença ativa em canais próprios, onde divulga lançamentos, entrevistas e oficinas. As opções incluem:

  • perfil no Instagram, com avisos de eventos e trechos de livros;
  • página no Facebook;
  • canal no YouTube, com vídeos e participações;
  • página no Linktree, que reúne contato e links oficiais.

Na Amazon, o autor tem página própria com a lista de títulos disponíveis. Para quem quer começar, Devassos no Paraíso apresenta o pesquisador; Pai, pai e Meu irmão, eu mesmo mostram o memorialista; e Em nome do desejo revela o romancista. A combinação explica por que o nome dele segue sendo pesquisado tanto por leitores de literatura quanto por quem estuda a história da comunidade LGBT no Brasil.

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Em nome do desejo
Em nome do desejo
Primeiro romance de João Silvério Trevisan, publicado em 1983: a história de amor e ódio entre dois seminaristas, reeditada décadas depois.
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