Franklin de Sousa Martins é o jornalista brasileiro que percorreu a clandestinidade contra a ditadura militar, os telejornais de maior audiência do país e o comando da comunicação da Presidência da República antes de se dedicar a uma obra que conta a história política do Brasil por meio da música popular. Nascido em Vitória, no Espírito Santo, em 10 de agosto de 1948, entrou no jornal Última Hora como estagiário aos 15 anos, no Rio de Janeiro, e menos de uma década depois era uma das principais lideranças estudantis do país.
Preso em 1968 e participante do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick em 1969, viveu dez anos de exílio até a anistia. Trabalhou como comentarista político em jornais, rádios e emissoras de TV por quase três décadas e, entre 2007 e 2010, foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social no segundo governo Lula. Depois do ministério, escreveu os livros da série Quem foi que inventou o Brasil?, que transformam canções de cada época em crônica do poder.
Da militância estudantil à luta armada
Filho do senador Mário Martins, Franklin estudou no Colégio Aplicação, no Rio de Janeiro, e ingressou no curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro — a antiga Universidade do Brasil. Aos 20 anos, foi eleito presidente do Diretório Central dos Estudantes da universidade e, em seguida, vice-presidente da União Metropolitana dos Estudantes. Foi nesse círculo que se aproximou de nomes que marcariam a política brasileira, como o então líder estudantil José Dirceu.
Militante do MR-8 e da Dissidência Universitária da Guanabara, adotou o codinome Valdir. Foi preso em outubro de 1968, durante o XXX Congresso da UNE, em Ibiúna, no interior de São Paulo, e libertado um dia antes da edição do AI-5. A partir dali, passou a ser procurado por participação em assaltos a banco e a carro pagador usados para financiar a resistência ao regime militar.
O sequestro do embaixador Elbrick e o exílio
Em 1969, Franklin Martins idealizou, ao lado de Cid Benjamin, a operação que resultou no sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Elbrick. A ação conjunta do MR-8 e da Ação Libertadora Nacional (ALN), que teve entre os participantes o também jornalista Fernando Gabeira, forçou o governo militar a libertar 15 presos políticos. Por causa do episódio, Franklin Martins está até hoje impedido de entrar nos Estados Unidos. Os anos da luta armada e da repressão também foram reconstituídos em profundidade pelo jornalista Elio Gaspari, autor da série de livros sobre a ditadura militar.
Com a repressão, deixou o país. Passou por Cuba — onde fez treinamento militar na província de Pinar del Río —, pelo Chile e pela França, onde se diplomou na Escola de Ciências Sociais da Universidade de Paris. Voltou ao Brasil em 1979, com a anistia.
A carreira no jornalismo e os anos na Globo
De volta ao país, retomou a profissão e atuou como comentarista político em diferentes veículos até chegar à Rede Globo, em 1996. Na emissora, comentou política no Jornal Nacional e no Jornal da Globo até 2006, quando o contrato não foi renovado, em meio a um embate público com o colunista Diogo Mainardi, da revista Veja. Passou então pelo portal iG e pela Rede Bandeirantes, onde fazia comentários diários sobre política na TV, na Rádio Bandeirantes e no Jornal Gente, até ser convidado por Lula para assumir a comunicação do governo, em 2007.
Ministério da Comunicação Social no governo Lula
Como ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, entre 2007 e 2010, Franklin Martins ficou responsável pela interlocução do governo com a imprensa, pela publicidade oficial e pelo projeto da rede nacional de TV pública, que resultou na criação da TV Brasil. Também participou das discussões sobre o marco regulatório das comunicações, tema que rendeu polêmicas com setores da mídia e do Congresso. Deixou o cargo no fim do segundo mandato de Lula, sucedido por Helena Chagas, e em 2009 foi apontado pela revista Época entre os cem brasileiros mais influentes do ano.
Quem foi que inventou o Brasil?: música popular como fonte histórica
O título da obra vem da marchinha História do Brasil, de Lamartine Babo, sucesso do carnaval de 1934. Na letra, a pergunta "quem foi que inventou o Brasil?" é respondida com seu Cabral, Peri e Ceci, Ioiô e Iaiá — os europeus, os indígenas e os africanos, ou seja, o povo brasileiro. Franklin Martins levou a pergunta a sério e passou a colecionar canções sobre fatos, personagens e processos políticos, organizadas em verbetes que situam cada uma no seu contexto histórico.
A pesquisa começou em 1997, foi interrompida quando ele assumiu a Secretaria de Comunicação Social e retomada em 2011, depois do ministério. O primeiro ciclo virou a trilogia Quem foi que inventou o Brasil? – a música popular conta a história da República, publicada pela Editora Nova Fronteira, com cerca de 1.100 canções sobre o século XX brasileiro:
- Volume I — de 1902 a 1964, dos primeiros discos da Casa Edison ao golpe militar;
- Volume II — de 1964 a 1985, o período da ditadura e da censura à música;
- Volume III — de 1985 a 2002, da redemocratização à virada do século.
Em 2023, veio o Volume Zero (Kotter Editorial, 614 páginas), que recua ao Império e ao começo da República, entre 1822 e 1906: são 296 canções garimpadas em cinco anos de pesquisa, 135 delas gravadas especialmente para o projeto a partir de partituras do século XIX decifradas pelo músico João Nabuco. Todas as gravações podem ser ouvidas no site oficial da obra.
"Este não é um livro sobre música, mas um livro com música. É uma obra para ser lida e escutada", escreveu o autor na apresentação do Volume Zero.
Comunicação da pré-campanha de Lula e presença pública recente
Em 2021, Franklin Martins foi convidado por Lula para coordenar a comunicação e as redes sociais da pré-campanha de 2022, função que deixou em abril de 2022. Lançou o Volume Zero em São Paulo, em março de 2023, e seguiu participando de debates públicos sobre música e ditadura, como o encontro realizado em Juiz de Fora, em 2025. Em março de 2026, foi detido no aeroporto do Panamá e deportado ao Brasil depois de ser questionado sobre sua prisão durante a ditadura militar — episódio que levou o governo panamenho a pedir desculpas ao Brasil. No mesmo ano, participou do filme Honestino, do diretor Aurélio Michiles, sobre o líder estudantil Honestino Guimarães, morto pela repressão.
Questionamentos públicos e disputas judiciais
Em 2006, artigos do colunista Diogo Mainardi na revista Veja acusaram Franklin Martins de nepotismo e de envolvimento na divulgação de dados bancários do caseiro Francenildo Santos Costa. Ele processou o jornalista e venceu em primeira instância, decisão depois reformada pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, em 2008; em 2020, o Superior Tribunal de Justiça extinguiu o recurso apresentado por ele no caso.
Ao longo do governo Lula, nomeações de parentes — como as do irmão Victor Martins na Agência Nacional do Petróleo e da irmã Maria Paula no setor de energia do Espírito Santo — foram criticadas na imprensa como indício de favorecimento familiar. Reportagens também questionaram o contrato da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) com a empresa Tecnet, onde trabalhava um filho do ministro: em 2011, o Tribunal de Contas da União apontou irregularidades na licitação, e Franklin Martins, que presidia o conselho da estatal na época da assinatura, defendeu a regularidade do processo.






