Héctor Babenco dirigiu William Hurt em O Beijo da Mulher Aranha e Jack Nicholson em Ironweed, mas foi com um menino de rua de São Paulo, em Pixote, a Lei do Mais Fraco, que o cinema brasileiro o colocou no centro do debate internacional. Nascido na Argentina em 1946 e radicado no Brasil desde 1969, ele fez de personagens marginalizados o eixo de uma obra que passou pelo realismo social, pela adaptação literária e pelo melodrama.
Babenco morreu em São Paulo em 13 de julho de 2016, aos 70 anos. Entre O Rei da Noite (1975) e Meu Amigo Hindu (2016), dirigiu dez longas de ficção, concorreu ao Oscar de melhor direção e teve filmes selecionados para a competição de Cannes. A trajetória começou longe dos estúdios, com uma recusa que o afastou da Argentina e uma escolha que o aproximou de São Paulo.
Da Argentina a São Paulo: o começo de uma carreira
Héctor Eduardo Babenco nasceu em 7 de fevereiro de 1946, na Argentina, em uma família judia com raízes polonesas e ucranianas. Passou a infância e a adolescência em Mar del Plata e, entre 1964 e 1968, viveu na Europa. Ao voltar à América do Sul, recusou-se a cumprir o serviço militar argentino e não pôde retornar ao país natal. Em 1969, escolheu São Paulo para se estabelecer; naturalizou-se brasileiro em 1977.
O primeiro longa-metragem chegou em 1975: O Rei da Noite, estrelado por Paulo José e Marília Pêra, acompanha a trajetória de Tertuliano desde a infância até a velhice. Já ali aparecia um diretor interessado em personagens à deriva, mesmo antes do impacto social que marcaria os trabalhos seguintes.
A virada veio com Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), baseado no livro de José Louzeiro sobre a corrupção policial no Rio de Janeiro. O longa levou mais de 5 milhões de espectadores aos cinemas e abriu caminho para a carreira internacional de Babenco. A partir dali, o cineasta passou a alternar produções brasileiras e projetos rodados no exterior, sem abandonar o olhar sobre os excluídos.
Pixote e o retrato dos meninos esquecidos
Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980) é o filme que transformou Babenco em uma referência do cinema social brasileiro. O roteiro, escrito pelo diretor com Jorge Durán, parte do livro-reportagem Infância dos Mortos, de José Louzeiro, e acompanha um garoto de 11 anos que foge de um reformatório e passa a sobreviver entre assaltos, prostituição e violência nas ruas de São Paulo.
O papel-título foi interpretado por Fernando Ramos da Silva, descoberto na periferia de São Paulo. A escolha de um garoto sem experiência reforçou o tom documental do filme, elogiado pela crítica nacional e internacional. Pixote recebeu o Leopardo de Prata no Festival de Locarno, foi eleito o melhor filme estrangeiro do ano pelas associações de críticos de Los Angeles e Nova York e concorreu ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Em 2015, entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos da Abraccine.
A trajetória de Fernando Ramos da Silva, morto pela Polícia Militar de São Paulo aos 19 anos, tornou-se parte da história do filme e do debate sobre a violência contra crianças e adolescentes no Brasil. Na tela, Babenco acompanha a rotina de quem cresce sem rede de proteção, com a câmera próxima e sem discurso explicativo.
O Beijo da Mulher Aranha e a indicação ao Oscar
O reconhecimento internacional levou Babenco a O Beijo da Mulher Aranha (1985), adaptação do romance de Manuel Puig assinada por Leonard Schrader. O filme acompanha dois prisioneiros numa cela durante a ditadura militar brasileira: o militante político Valentín Arregui, interpretado por Raúl Juliá, e o homossexual Luís Molina, vivido por William Hurt. Sônia Braga completa o elenco principal.
Rodado em São Paulo, com diálogos em inglês e coprodução americana, o longa estreou no Festival de Cannes de 1985. William Hurt ganhou o prêmio de melhor ator no festival e, no ano seguinte, venceu o Oscar e o BAFTA na mesma categoria. O filme recebeu quatro indicações ao Oscar, entre elas melhor filme e melhor direção, e Babenco se tornou um dos poucos cineastas brasileiros a concorrer na categoria de direção. A obra ocupa a 61ª posição na lista da Abraccine.
Babenco passou a trabalhar com elencos internacionais sem deixar de lado temas como prisão, desigualdade e exclusão, que voltariam em filmes posteriores.
Hollywood, literatura e os anos 1980 e 1990
Em Ironweed (1987), Babenco dirigiu Jack Nicholson e Meryl Streep numa adaptação do romance de William Kennedy sobre andarilhos em Albany, nos Estados Unidos. O filme recebeu duas indicações ao Oscar: melhor ator para Nicholson e melhor atriz para Streep. Depois vieram Brincando nos Campos do Senhor (1991), adaptação de Peter Matthiessen com Tom Berenger, Aidan Quinn, Kathy Bates e Daryl Hannah, e Coração Iluminado (1998), rodado na Argentina e inspirado em lembranças de adolescência do diretor.
Nesse período, Babenco alternou projetos de estúdio e filmes mais pessoais. A adaptação literária se tornou uma marca: Puig, William Kennedy e Peter Matthiessen chegaram às telas com roteiros que preservavam o conflito entre indivíduo e sociedade. O diretor também trabalhou como ator em Before Night Falls (2000), de Julian Schnabel, no papel do escritor cubano Virgilio Piñera.
Carandiru e o retorno ao Brasil
Em 2003, Babenco voltou ao cinema brasileiro com Carandiru, adaptação do livro Estação Carandiru, do médico Drauzio Varella. O filme acompanha a chegada do doutor Varella à Casa de Detenção de São Paulo para um trabalho de prevenção à aids e transforma os relatos dos presos no centro da narrativa. A história culmina no massacre de 1992, quando 111 detentos foram mortos, 102 deles pela polícia.
Babenco rodou parte do filme na própria penitenciária, antes da demolição em 2002, e escalou muitos atores novatos, alguns ex-presos. O resultado foi um dos maiores públicos do cinema nacional naquele ano, com mais de 4,6 milhões de espectadores, e uma passagem pela competição de Cannes. O filme recebeu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de melhor direção em 2004 e também entrou na lista da Abraccine.
A obra dialoga diretamente com Estação Carandiru, livro que deu origem ao roteiro, e com a atuação pública de Drauzio Varella no debate sobre saúde prisional. Para Babenco, o projeto representou o reencontro com o Brasil depois de anos de produções internacionais.
Meu Amigo Hindu: cinema no fim da vida
O último longa de Babenco, Meu Amigo Hindu (2016), foi rodado em 2015 nos Estados Unidos e no Brasil, inteiramente em inglês. Willem Dafoe interpreta Diego, um cineasta que, diante de um câncer avançado, decide se casar, despedir-se dos amigos e buscar um tratamento experimental. No hospital, ele conhece Rajesh, um menino hindu de oito anos, e os dois passam a dividir fantasias para atravessar o período.
O filme foi apresentado na 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2015, e chegou aos cinemas em março de 2016. Babenco afirmou que a obra não era autobiográfica, mas uma ficção alimentada pelas memórias do período em que enfrentou um câncer linfático. A morte do diretor, em julho daquele ano, transformou o lançamento em uma despedida pública. Em 2019, Bárbara Paz, com quem ele se casou em 2010, dirigiu o documentário Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, sobre a vida e o processo de filmagem.
Como Babenco dirigia
A crítica costuma associar Babenco ao realismo social, mas o próprio diretor evitava rótulos. Seus filmes combinam rigor técnico e linguagem acessível, com narrativas que não escondem a violência nem transformam os personagens em símbolos. O crítico Ismail Xavier observou que Babenco não repetia o passado nem se filiava automaticamente ao cinema autoral: buscava novas formas de representar os problemas brasileiros sem perder o contato com o grande público.
Essa combinação aparece no trabalho com atores. Em Pixote, a câmera se aproxima de rostos sem experiência; em O Beijo da Mulher Aranha, aposta no confronto entre dois estilos de interpretação; em Carandiru, mistura profissionais e detentos.
Principais filmes de Héctor Babenco
- Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980): o menino de rua que se tornou um dos retratos mais conhecidos da infância abandonada no Brasil.
- O Beijo da Mulher Aranha (1985): adaptação de Manuel Puig que levou Babenco ao Oscar e deu a William Hurt o prêmio de melhor ator.
- Carandiru (2003): o retorno ao Brasil e o massacre de 1992 vistos a partir das histórias dos presos.
- Meu Amigo Hindu (2016): o último longa, uma ficção sobre doença, amizade e despedida.
Prêmios, legado e presença pública
Babenco recebeu o Leopardo de Prata em Locarno por Pixote, concorreu ao Oscar de melhor direção por O Beijo da Mulher Aranha e teve filmes premiados no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Em 2011, foi agraciado com a Ordem do Mérito Cultural. No ano seguinte, integrou o júri do 34º Festival Internacional de Cinema de Moscou.
Sua obra ajudou a levar o cinema brasileiro a circuitos internacionais sem abandonar questões locais. Pixote, O Beijo da Mulher Aranha e Carandiru seguem sendo exibidos, estudados e redescobertos por novas gerações. A morte do diretor, em 2016, encerrou uma carreira de quatro décadas, mas os filmes continuam disponíveis em mídia física e em plataformas digitais.
Para quem quer entender a trajetória de Héctor Babenco, o caminho mais direto é assistir aos filmes na ordem em que foram feitos: Pixote mostra o Brasil que o diretor encontrou; O Beijo da Mulher Aranha revela o cineasta que o mundo conheceu; Carandiru traz o retorno ao país; Meu Amigo Hindu fecha o percurso com uma reflexão sobre a própria finitude.





