Quem foi Henfil
Em 1972, uma charge de Henfil no semanário O Pasquim "enterrou" Elis Regina no Cemitério dos Mortos-Vivos e apelidou a cantora de "Elis Regente", por causa de uma apresentação dela para as Forças Armadas. Anos depois, o próprio cartunista declarou que se arrependia de dois daqueles sepultamentos simbólicos: o de Elis e o de Clarice Lispector. Entre a piada que cutucava o regime e o reconhecimento posterior de que algumas delas tinham passado do ponto está o autor que fez boa parte do Brasil rir — e pensar — durante os anos de chumbo.
Henrique de Souza Filho nasceu em Ribeirão das Neves, em Minas Gerais, em 5 de fevereiro de 1944, e morreu no Rio de Janeiro em 4 de janeiro de 1988, aos 43 anos. Ficou conhecido pelo traço simples e pelos personagens que atravessaram gerações: os fradinhos Cumprido e Baixim, a Graúna, o bode Orelana, o retirante Zeferino e o paranoico Ubaldo. Foi cartunista, quadrinista, jornalista, escritor, roteirista de televisão e diretor de cinema.
Era o quarto de oito filhos de uma família mineira marcada pela hemofilia. Dois de seus irmãos, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, e o músico Chico Mário, também herdaram a doença. As transfusões frequentes que o tratamento exigia acabaram expondo os três ao HIV nos anos 1980, quando o sangue doado ainda não passava por testes rigorosos.
De Ribeirão das Neves ao Pasquim
Filho de Henrique José de Souza e Maria da Conceição Fontes de Souza, Henfil cresceu em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, e fez ali os primeiros estudos. Antes de viver de desenho, trabalhou como embalador de queijos e como contínuo em uma agência de publicidade. Chegou a ingressar no curso de Sociologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas deixou a faculdade para se dedicar ao traço.
A carreira ganhou forma em 1964, quando publicou tiras na revista Alterosa, de Belo Horizonte, a convite do escritor Roberto Drummond. Ali nasceram Os Franguinhos. Depois vieram caricaturas políticas no Diário de Minas e charges esportivas no Jornal dos Sports, no Rio de Janeiro, além de colaborações para Realidade, Visão, Placar e O Cruzeiro.
A virada nacional aconteceu em 1969, quando passou a assinar o Jornal do Brasil e integrou a equipe do Pasquim, semanário de oposição que reuniu nomes como Ziraldo, Jaguar, Millôr Fernandes e Paulo Francis. Criado no mesmo ano do AI-5, o jornal transformou o humor em uma trincheira possível contra a censura prévia.
Os personagens e a revista Fradim
Em 1971, Henfil lançou a revista Fradim, publicada pela Codecri, cooperativa de escritores e editores. O título virou fenômeno de banca e apresentou ao país os personagens que resumem seu humor: os frades Cumprido e Baixim, a passarinha Graúna, o bode filósofo Orelana, o nordestino Zeferino e Ubaldo, o Paranoico, desconfiado de tudo e de todos.
No Pasquim, a série "O Cemitério dos Mortos-Vivos" enterrava simbolicamente personalidades que, na visão do cartunista, colaboravam com o regime militar ou se omitiam diante dele. Passaram pelo cemitério nomes como Roberto Carlos, Wilson Simonal, Pelé, Paulo Gracindo, Tarcísio Meira e Marília Pêra. A charge de Elis Regina foi a mais lembrada — e uma das duas que ele disse lamentar depois, ao lado da de Clarice Lispector.
O humor de Henfil misturava ironia cáustica, escatologia e um olhar raro sobre o cotidiano do povo brasileiro, sem didatismo. O traço econômico, feito de linhas grossas e poucos detalhes, tornava os desenhos reconhecíveis mesmo em tamanho reduzido — condição obrigatória para quem publicava em jornal.
Flamengo, TV, cinema e livros
Torcedor fanático do Flamengo, Henfil desenhou o urubu do clube em tiras e charges do Jornal dos Sports, ajudando a transformar um apelido que nasceu pejorativo no símbolo que a torcida adotou. Também retratou o jogador Zico em várias obras, entre elas o "Flautista da Gávea".
Na televisão, foi um dos redatores do programa TV Mulher, da Rede Globo, entre 1980 e 1984. No cinema, dirigiu e roteirizou o longa Tanga (Deu no New York Times?), lançado em 1987. Nos Estados Unidos, para onde viajou em busca de tratamento para a hemofilia, escreveu Diário de um Cucaracha, publicado em 1976, mistura de relato de viagem e crônica do estranhamento de um brasileiro diante da indústria cultural americana.
Entre os livros que publicou estão Hiroshima, Meu Humor (1966), Henfil na China (1980), Cartas da Mãe (1980), Diretas Já! (1984), Fradim de Libertação (1984), Como se Faz Humor Político (1984), O Melhor da Graúna e do Bode Orelana (1985), Ubaldo, o Paranoico (1985) e Zeferino, o Nordestino (1985). As crônicas "Cartas à Mãe" saíram no Pasquim e depois na revista IstoÉ, com Dona Maria, sua mãe, transformada em personagem.
A hemofilia, a Aids e o fim precoce
A hemofilia acompanhou a família Souza inteira. Como o sangue doado ainda não era testado de forma sistemática para o HIV, Henfil, Betinho e Chico Mário foram infectados nas transfusões que o tratamento exigia. Henfil morreu em 4 de janeiro de 1988, por complicações relacionadas à Aids. Chico Mário morreu no mesmo ano; Betinho, em 1997.
Em um país que tratava a doença como assunto proibido, o cartunista foi um dos primeiros brasileiros conhecidos a falar abertamente sobre a Aids, como registram a Agência de Notícias da Aids e o noticiário da época. O Jornal do Brasil levou a morte dele à capa. Textos e tiras em que tratou da própria saúde mostram como transformou uma experiência dura em conversa pública.
Prêmios, acervo e legado
Henfil recebeu o Troféu Cid Rebelo Horta em 1965, o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos na categoria Artes em 1981 e o Prêmio Angelo Agostini de Mestre do Quadrinho Nacional, concedido pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo. Em reconhecimento póstumo, recebeu a Ordem do Mérito Cultural.
Em 2005, o catálogo da exposição Henfil do Brasil, organizado pelo Centro Cultural Banco do Brasil, reuniu desenhos e textos do artista. Em 2009, o filho Ivan de Souza criou o Instituto Henfil para preservar e divulgar a obra. Entre 2012 e 2014, as 31 edições da revista Fradim, publicadas entre 1971 e 1980, foram reeditadas, incluindo uma edição especial de número zero. O documentário Henfil, de 2017, dirigido por Angela Zoé, levou a trajetória do cartunista a novas gerações. A Enciclopédia Itaú Cultural e o acervo do Arquivo Nacional mantêm registros de sua obra.
- Personagens: Cumprido, Baixim, Graúna, Bode Orelana, Zeferino, Ubaldo e o urubu do Flamengo.
- Livros de referência: Diário de um Cucaracha, Cartas da Mãe, Henfil na China, Diretas Já! e as coletâneas da revista Fradim.
- Prêmios: Troféu Cid Rebelo Horta (1965), Prêmio Vladimir Herzog (1981), Mestre do Quadrinho Nacional e Ordem do Mérito Cultural.
Por que Henfil continua sendo buscado
Quem procura Henfil hoje encontra um dos cartunistas que definiram o humor político brasileiro, um nome lembrado sempre que se discute charge e resistência à censura, e uma obra que segue reeditada e estudada em universidades. Sua trajetória dialoga diretamente com a de outros artistas e personagens que o cercaram, e o traço dele atravessou a fronteira entre jornalismo, quadrinhos e televisão.
Na mesma época em que desenhava o urubu do Flamengo, cruzou o caminho de nomes que também são pesquisados por aqui, como Zico, retratado em suas charges, e Clarice Lispector, que passou pelo Cemitério dos Mortos-Vivos e depois foi homenageada na autocrítica do próprio cartunista. Para entender a geração que fez do humor uma arma durante a ditadura, vale seguir a tag de política e a tag de literatura do site.





