José Simão transformou uma risada — “Rarará!” — em assinatura de um dos humores mais reconhecíveis do jornalismo brasileiro. Nascido em São Paulo, em 31 de dezembro de 1943, ele construiu uma trajetória que passa pela Folha de S.Paulo, pela rádio BandNews FM, por programas na internet e por livros em que a piada funciona como comentário do país.
Quem chega até ele costuma procurar o apelido Macaco Simão, a coluna semanal na Folha ou a lembrança do Buemba! Buemba!, quadro que apresentou por quase duas décadas na BandNews FM. A trajetória abaixo mostra como esse personagem nasceu, o que ele publicou e onde o humor de José Simão continua circulando.
Formação, Londres e a entrada no jornalismo
José Simão estudou no Colégio Rio Branco e, em 1969, ingressou no curso de Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Não concluiu a graduação. Depois, viajou para Londres, onde teve uma passagem pela BBC. A experiência antecede o retorno ao Brasil e a entrada na Folha de S.Paulo, em 1987.
É nesse intervalo que a biografia pública do colunista se organiza: formação em São Paulo, contato com a imprensa britânica e retorno ao país para trabalhar em um dos maiores jornais brasileiros. A passagem pela BBC aparece na trajetória como parte da formação de um jornalista que faria do noticiário matéria-prima de humor.
Macaco Simão e a coluna na Folha de S.Paulo
Ao ingressar na Folha, em 1987, José Simão assumiu uma coluna humorística na Ilustrada. No começo, o foco era a televisão; com o tempo, o texto se abriu para o noticiário em geral, da política ao comportamento. Foi nesse espaço que ele adotou o apelido de infância, Macaco Simão, e passou a encerrar as piadas com a risada onomatopeica “Rarará!”, referência a Noel Rosa.
A coluna consolidou um estilo de frase curta, ritmo de conversa e piada encaixada no fato do dia. O texto não separa opinião e humor: a graça nasce do modo como a notícia é contada, não de um comentário adicionado depois. Essa mistura acompanha a produção do colunista desde a Folha Ilustrada até os livros que reúnem suas crônicas.
O personagem Macaco Simão não é um heterônimo distante. Ele aparece como extensão do próprio colunista, um jeito de assinar a piada e de manter uma voz reconhecível em veículos diferentes. A coluna também atravessou mudanças do jornalismo impresso e da internet sem perder o vínculo com o leitor que abre o jornal para saber o que aconteceu — e encontra uma versão torta, mas informada, do noticiário.
Buemba! Buemba! e a voz no rádio
Na BandNews FM, José Simão apresentava diariamente o Buemba! Buemba!, quadro em que comentava as notícias com a participação de jornalistas do matinal. O programa começava com o “Tango de la macacada”, reinterpretado por ouvintes, e trazia personagens como Gervásio, o chefe estressado, e Os Predestinados, lista de nomes reais que rendia piada com profissões.
Simão dividiu o estúdio com Ricardo Boechat e outros nomes da emissora, e também participou do Café com Jornal, na Band, ao lado do colega. Em dezembro de 2025, despediu-se da BandNews FM depois de quase 20 anos no ar. A rádio registrou a saída como o fim de uma passagem de 19 anos; na despedida, ele resumiu o período como “missão cumprida”.
O rádio deu ao humor de José Simão uma cadência diferente da coluna escrita. A piada precisava caber no tempo do programa, dialogar com a notícia lida minutos antes e sustentar personagens recorrentes. O “Tango de la macacada”, cantado na abertura, e os quadros com nomes de ouvintes e colegas ajudaram a transformar o comentário político em ritual diário.
Monkey News, Ondas Latinas e a internet
Entre 2001 e 2014, José Simão manteve no UOL o Monkey News, programa de vídeos sobre as notícias do dia que, no início, teve a participação de Paulo Henrique Amorim. O Ondas Latinas, iniciado em 2000, mostrou outra face do colunista: uma seleção eclética de músicas latinas e de ascendência africana, com mais de duas mil faixas apresentadas ao longo de mais de 400 edições. Ele também manteve um blog no portal.
A passagem pela internet ampliou o alcance do personagem e permitiu que o colunista testasse o humor em vídeo, áudio e texto no mesmo ambiente. O Monkey News levou a piada sobre o noticiário para a tela; o Ondas Latinas deu espaço à música latina e de ascendência africana que o colunista apresentava. São frentes diferentes, mas ligadas pela mesma curiosidade pelo que o país produz e comenta.
Os livros, as memórias e a República em piada
As colunas deram origem a vários livros. Macaco Simão no Cipó das Onze, Guia do Llamagate e Nóis Sofre Mas Nóis Goza saíram pela Iluminuras. No País da Piada Pronta, de 2007, foi publicado pela Editora do Bispo e organiza termos como “lulês”, “tucanês” e “antitucanês”. A Esculhambação Geral da República chegou pela Agir em 2011.
Em 2022, a Objetiva publicou Definitivamente, Simão!, livro de memórias em que o jornalista revisita a infância, a família de origem libanesa, a carreira, as viagens, as Copas e a amizade com Boechat. Quatro anos depois, em 2026, ele publicou Waly Salomão é uma VOZ ALTA, pela Casa Matinas, com memórias de quarenta anos de amizade e colaboração criativa com o poeta. A relação dos dois pode ser conhecida na biografia de Waly Salomão.
Os livros não funcionam como anexos da biografia. Eles mostram fases distintas do mesmo projeto: a coletânea de colunas que fixa o personagem, o guia político escrito durante uma crise institucional, o dicionário que radiografa a fala pública e a memória pessoal que reorganiza a trajetória. Cada volume ilumina uma parte do método, sem repetir o anterior.
Como o humor de José Simão funciona
O humor de José Simão se apoia em poucos elementos repetidos com precisão: a risada “Rarará!”, o apelido Macaco Simão, a transcrição da fala pública para o absurdo e a transformação de nomes e expressões do noticiário em piada recorrente. O “Tango de la macacada” e os personagens do rádio mostram como ele leva o mesmo método para outros formatos.
O procedimento não depende de uma piada isolada. Ele costuma ocupar o espaço entre a notícia e o comentário, deixando que o leitor reconheça o fato e, em seguida, veja o fato virar outra coisa. É um humor de atualidade, mas com memória: volta a personagens, bordões e episódios que o público acompanha ao longo dos anos.
Onde acompanhar José Simão hoje
José Simão mantém coluna na Folha de S.Paulo, com textos publicados semanalmente. O acervo do jornal reúne a produção recente; a BandNews FM guarda a página do Buemba! Buemba!, e o perfil no Facebook registra a presença do personagem. Para quem quer entender a obra em sequência, os livros de memórias e as coletâneas de crônicas formam o caminho mais direto.
A leitura em ordem cronológica ajuda a perceber o que mudou e o que permaneceu. Mudaram o suporte, a velocidade da notícia e o alcance dos vídeos. Permaneceu a voz que trata a política como matéria de piada, sem abandonar o vínculo com o leitor e com o ouvinte que reconhece a risada antes mesmo de terminar a frase.
Marcos públicos da trajetória
- 1943 — nascimento em São Paulo.
- 1969 — ingresso no curso de Direito da USP, não concluído.
- 1987 — entrada na Folha de S.Paulo e início da coluna humorística.
- 2000 — estreia do Ondas Latinas, no UOL.
- 2001 a 2014 — Monkey News, no UOL.
- 2022 — publicação de Definitivamente, Simão!, pela Objetiva.
- 2025 — despedida da BandNews FM após quase 20 anos.
- 2026 — lançamento de Waly Salomão é uma VOZ ALTA, pela Casa Matinas.






