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Waly Salomão

Waly Sailormoon

Nascimento: 1943 Jequié, BA / Rio de Janeiro, RJ
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Poeta, letrista e produtor cultural nascido em Jequié. Assinou Vapor Barato, dirigiu o show FA-TAL e ocupou a Secretaria Nacional do Livro.

Em 1970, preso no Carandiru, Waly Salomão começou a escrever Me segura qu'eu vou dar um troço. O livro saiu em 1972, assinado como Waly Sailormoon, com projeto gráfico de Hélio Oiticica. Quem busca o nome hoje raramente quer só a ficha de um poeta baiano. Quer a pessoa que passou pelo tropicalismo, escreveu letra de canção, editou revista de vanguarda, dirigiu show e, meses antes de morrer, assumiu a Secretaria Nacional do Livro.

Waly Dias Salomão nasceu em Jequié, na Bahia, em 3 de setembro de 1943. Morreu no Rio de Janeiro em 5 de maio de 2003, aos 59 anos, de um tumor no intestino. Entre o interior baiano e o Ministério da Cultura houve Salvador, o eixo Rio-São Paulo e uma temporada em Nova York. O ofício que se repete nesses endereços é o mesmo: escrever, articular gente e pôr obra em circulação.

De Jequié à Faculdade de Direito

Era o quinto de sete filhos de um imigrante sírio e de uma sertaneja. A casa tinha biblioteca e o hábito de discutir livro, e foi dali que saiu o leitor voraz antes do poeta público. Com a mudança para Salvador, entrou na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Formou-se em 1967 e não exerceu a profissão. O diploma ficou para trás; a cidade e os grupos culturais, não.

Entre 1963 e 1964 cursou a Escola de Teatro da mesma universidade. Na Bahia, aproximou-se do Centro Popular de Cultura e de compositores como Tom Zé. Esse circuito, mais do que a sala de aula de direito, explica o vocabulário com que ele chega ao fim da década: poesia, palco, canção e política no mesmo saco, sem pedir licença para misturar.

Anos depois, entre 1974 e 1975, estudou inglês na Columbia University, em Nova York. A viagem não apaga a Bahia nem o Rio. Soma uma camada: o poeta que já circulava entre tropicalistas passa a ler e a escrever também a partir do inglês, sem trocar o sotaque da rua pelo da academia.

Tropicalismo, Gal Costa e a letra que virou canção

No fim dos anos 1960, Waly entra na órbita do tropicalismo com poema e letra, não como mascote do movimento. Em 1971 dirige o show FA-TAL — Gal a Todo Vapor, de Gal Costa. No disco está Vapor Barato, parceria com Jards Macalé, uma das faixas que ainda carregam o nome dele para quem nunca abriu um livro de poesia.

A canção não ficou presa àquele palco. Gal a gravou, O Rappa a refez nos anos 1990, e ela voltou no filme Terra estrangeira. Outras letras seguiram caminho parecido. Maria Bethânia, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto e o próprio Gilberto Gil interpretaram canções suas. Mel e Talismã, escritas com Caetano, deram título a discos de Bethânia. Com Macalé também saíram Mal secreto e Anjo exterminado.

A produção de disco continuou nos anos 1990. Waly produziu dois trabalhos de Cássia Eller: Veneno AntiMonotonia, de 1997, e Veneno Vivo, de 1998. Não era só letra emprestada. Era direção de show, escolha de repertório e presença na hora de gravar.

Na mesma virada dos anos 1970, a poesia impressa andava junto com a de Torquato Neto. Os dois editaram o número único da revista Navilouca, com colaboração de Augusto de Campos, Décio Pignatari, Caetano Veloso e Hélio Oiticica. Quando Torquato morreu, Waly organizou Os últimos dias de Paupéria, o livro póstumo do amigo. A revista e o volume mostram o mesmo gesto: não deixar texto de companheiro solto em gaveta ou em jornal velho.

Livros, Jabuti e a Secretaria do Livro

O primeiro livro não esgota a estante. Gigolô de bibelôs sai em 1983, pela Brasiliense. Armarinho de miudezas sai em 1993, pela Fundação Casa de Jorge Amado. Em 1996 vêm dois títulos de natureza diferente: o livro de poemas Algaravias: câmara de ecos, pela Editora 34, e Hélio Oiticica: qual é o parangolé?, perfil do artista amigo. Algaravias leva o Prêmio Jabuti de poesia em 1997. A crítica passou a ler esse volume como a fase em que a dicção dele aperta a forma sem perder elipse, trocadilho e excesso.

Depois vieram Lábia (1998), Tarifa de embarque (2000) e O mel do melhor (2001), os três pela Rocco. Pescados vivos, também pela Rocco, só chega às livrarias em 2004, depois da morte. Em 2014, a Companhia das Letras reúne a poesia num volume único, Poesia total. Cada um desses livros pede leitura própria. Aqui bastam as datas e as casas editoriais para situar a curva: do texto de estreia, escrito na prisão, ao volume póstumo e à reunião da obra.

  • 1972 — Me segura qu'eu vou dar um troço, como Waly Sailormoon.
  • 1983 — Gigolô de bibelôs.
  • 1996–1997 — Algaravias e o Jabuti de poesia.
  • 2003 — Secretaria Nacional do Livro, no Ministério da Cultura.
  • 2004 e 2014 — Pescados vivos e, depois, Poesia total.

A vida institucional não começa só em Brasília. Nos anos 1980 ele dirige a Fundação Gregório de Mattos, em Salvador, ligada à cultura da cidade. Nos anos 1990 entra no AfroReggae, em Vigário Geral, como coordenador executivo ao lado de José Júnior. Em 2010, já depois da morte, a sede reformada do grupo passou a se chamar Centro Cultural Waly Salomão. O apelido de cardume, que ele usava para falar do AfroReggae, ficou grudado nessa homenagem.

No início de 2003, Gilberto Gil, então ministro da Cultura, o nomeia secretário nacional do Livro. Uma das propostas públicas era colocar um livro na cesta básica. O mandato foi curto. Ele morreu em maio do mesmo ano. No velório, na Biblioteca Nacional, o AfroReggae tocou, e a Mangueira estendeu a bandeira verde e rosa sobre o poeta. No mesmo 2003, Waly interpretou o personagem principal do filme Gregório de Mattos, de Ana Carolina, sobre o poeta baiano do século XVII. Fundação, filme e secretaria usam o mesmo nome histórico por caminhos diferentes: um cargo em Salvador, um papel no cinema e uma pasta federal de livro e leitura.

O que o nome ainda responde

Quem digita Waly Salomão costuma chegar por três portas. Uma é a canção: Vapor Barato, Gal Costa, O Rappa. Outra é o livro de estreia e a reunião da obra na Companhia das Letras. A terceira é a figura de agitador cultural, o homem que produzia show, editava amigo morto e, no fim, tentou tratar livro como item de alimentação, não como enfeite de estante.

A Enciclopédia Itaú Cultural o registra como poeta, produtor cultural, diretor artístico e letrista, ligado à estética do excesso e da ruptura. Não é um perfil de autor de um gênero só. Poesia, letra, direção de espetáculo e gestão pública curta cabem na mesma biografia porque ele tratou essas frentes como partes de um único trabalho. Na prateleira de literatura, o nome continua ao lado de quem escreveu livro; na memória da canção, continua ao lado de quem fez a letra sair do papel.

O filho Omar Salomão, também poeta, lembrou em entrevista que o pai não guardava texto inédito em gaveta: produzia e publicava. Os cadernos de anotação ficaram como matéria ainda por organizar. O que já está impresso — de Me segura a Pescados vivos, passando pelas letras que outras vozes gravaram — é o mapa público de Waly Dias Salomão.

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Poesia total
Poesia total
Reunião da poesia de Waly Salomão, da estreia de 1972 a Pescados vivos, publicada pela Companhia das Letras em 2014.
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