Hélio Oiticica: qual é o parangolé? é o livro em que Waly Salomão escreve o amigo artista por dentro da obra, não por fora de um catálogo de exposição. A pergunta do título, ele explica, era gíria comum no Rio quando chegou da Bahia e queria dizer “o que é que há?”. A mesma frase nomeia os parangolés de Hélio Oiticica, capas e estandartes feitos para o corpo se mover. O livro usa essa ponte de linguagem como método: a prosa tenta andar com a folga do objeto, em vez de explicar a obra como peça de museu parada.
A primeira edição saiu em 1996, pela Relume-Dumará, no mesmo ano de Algaravias. A Companhia das Letras republicou o texto em 26 de maio de 2015, com 160 páginas, formato de 14 por 21 centímetros e ISBN 978-85-359-2572-2. Não é a poesia reunida do autor. É um perfil, com outros escritos, de um dos artistas brasileiros mais citados da segunda metade do século XX, feito por quem conviveu com ele e trabalhou no acervo.
O que Waly viu de perto
A editora apresenta Waly como conselheiro do acervo de Oiticica e editor de textos do artista. Antonio Cicero, na orelha, diz que poucos entenderam aquela obra como o poeta, contemporâneo e amigo. O elogio só faz sentido se o leitor souber o tipo de proximidade. Oiticica desenhou o projeto gráfico de Me segura qu'eu vou dar um troço. Os dois aparecem juntos na revista Navilouca. A amizade não é detalhe sentimental: é a razão de o livro existir nesse tom, e não como verbete distanciado.
No texto, Waly avisa que vai escrever de lado, numa conversa entrecortada, parecida com o zigue-zague das quebradas. A frase descreve o procedimento. Quem espera biografia em ordem de ateliê, exposição e morte vai achar parágrafos longos, gíria e salto. Quem espera um guia escolar do parangolé também vai se frustrar. O livro assume que o tecido no ar tem uma simplicidade brutal — um pano que se move — e, ao mesmo tempo, uma arquitetura. A prosa imita as duas coisas.
Para quem serve a edição de 2015
A reedição interessa a quem estuda Oiticica e não quer depender do volume de 1996, e a quem lê Waly e ainda não viu a prosa de perfil, diferente do poema. Arte brasileira, tropicália e cultura de morro entram porque estavam na vida dos dois, não como cenário decorativo. O parangolé, o samba e a Mangueira aparecem como matéria da obra, no mesmo chão em que o poeta depois se aproximou do AfroReggae.
O limite é honesto. Este não é o catálogo raisonné de Oiticica, nem a edição dos escritos completos do artista. É a leitura de Waly, com o viés de quem participou. Comprar o livro da Companhia das Letras é escolher esse viés: um perfil de 160 páginas, escrito por poeta, sobre um artista que recusou a obra fechada. O título pergunta “qual é o parangolé?”. A resposta do livro não cabe numa definição de dicionário. Cabe no modo como a frase anda.



