Me segura qu'eu vou dar um troço não cabe em diário de cela nem em romance de enredo. É o livro de estreia de Waly Salomão, publicado em 1972 pela José Álvaro Editor e assinado com o nome Waly Sailormoon. Parte do texto foi escrita em 1970, quando o poeta esteve preso no Carandiru. A edição que a Companhia das Letras recolocou em circulação, na coleção Poesia de Bolso, tem 128 páginas, formato de 12,5 por 18 centímetros, e saiu em 19 de maio de 2016, com ISBN 978-85-359-2729-0.
O volume mistura prosa, poema e ensaio. Há desenho e projeto gráfico de Hélio Oiticica, amigo que também empurrou a publicação dos primeiros escritos. Antonio Candido, lendo essa estreia, viu no mesmo livro protesto, desacato, testemunho e desabafo, numa linguagem de associação livre, gíria, frase cortada e salto abrupto. A descrição serve de aviso: quem espera lirismo bem-comportado ou relato linear da prisão vai achar outra coisa.
O que o livro faz com a prisão
A cela está no texto, mas o livro não se apresenta como reportagem do presídio. A própria editora, ao reeditar a obra, usa as palavras do autor para a prisão: ele falava em ter sido detido por portar “uma bagana de fumo”. O dado importa porque situa o livro na ditadura, sem transformar a obra num panfleto de uma causa só. O efeito que os leitores repetem é o contrário do que a cela sugeriria. A dicção corre solta, com excesso, piada e corte, como se a página recusasse o espaço estreito em que foi começada.
Esse desencontro entre o lugar da escrita e o jeito da frase é o centro do livro. Não há um eu arrependido pedindo absolvição, nem um narrador que organize o horror em capítulos didáticos. Há um texto que quer ocupar o sistema cultural por dentro — gráfica de artista, editor comercial, circulação entre quem lia poesia marginal e quem ouvia tropicalismo — em vez de ficar só no circuito mimeografado.
Para quem abre agora
A reedição de bolso existe para quem não vai caçar o exemplar de 1972. O miolo continua sendo o da estreia, com cronologia do autor acrescentada pela Companhia das Letras. O leitor que já conhece Vapor Barato encontra aqui o mesmo nome numa chave mais áspera: menos canção de três minutos, mais página que não pede licença. O leitor que vem de Algaravias ou de Poesia total encontra a origem da dicção, antes do Jabuti e antes da reunião da obra.
Não é manual de contracultura nem biografia disfarçada. É um livro curto, denso, gráfico, marcado pela amizade com Oiticica e pela prisão de 1970. Quem compra a edição de 2016 leva o texto de estreia num formato de bolso, não um estudo sobre o autor. O estudo fica para quem quiser cruzar essa leitura com o perfil de Oiticica e com a poesia posterior. A página, sozinha, já mostra por que o primeiro livro de Waly Salomão continua sendo o título que a crítica cita quando precisa explicar de onde veio aquela voz.



