Poesia total é o volume em que a poesia publicada de Waly Salomão deixa de estar espalhada em editoras diferentes e passa a caber numa leitura contínua. A Companhia das Letras lançou o livro em 8 de maio de 2014, com 552 páginas, formato de 14 por 21 centímetros, acabamento em brochura e ISBN 978-85-359-2400-8. Não é um livro que o autor viu impresso. Ele morreu em 2003. A reunião é póstuma e, pela primeira vez, junta a obra poética do começo ao fim.
O arco vai de Me segura qu'eu vou dar um troço, de 1972, até Pescados vivos, de 2004. No meio estão Gigolô de bibelôs, Armarinho de miudezas, Algaravias, Lábia, Tarifa de embarque e O mel do melhor. A editora ainda inclui uma seção de canções que não tinham saído em livro e um apêndice com textos críticos de Antonio Cicero, Francisco Alvim e Davi Arrigucci Jr., entre outros. O miolo, portanto, não é só a soma dos poemários. Há letra e há leitura alheia no mesmo objeto.
Por que não é só uma caixa de livros antigos
Cada título avulso nasceu numa casa e numa década. A Brasiliense publicou Gigolô de bibelôs em 1983. A Fundação Casa de Jorge Amado publicou Armarinho de miudezas em 1993. A Editora 34 publicou Algaravias: câmara de ecos em 1996, o livro que no ano seguinte levou o Jabuti de poesia. A Rocco publicou os volumes do fim dos anos 1990 e o póstumo de 2004. Quem tentava ler a obra inteira precisava montar essa pilha. Poesia total corta esse caminho sem apagar a ordem do tempo: os livros entram em sequência cronológica.
A capa da edição, com projeto de Elisa von Randow e foto de Marcia Ramalho, trata o nome como letreiro, não como assinatura discreta. O gesto combina com o autor. A sinopse da Companhia das Letras lembra um verso de canção que Caetano Veloso dedicou a ele: a marca na terra resplandece, e o brilho não é pequeno. A frase não substitui o poema. Serve para dizer que a reunião não foi feita para um nicho de especialistas esquecidos. Foi feita porque a obra já circulava em canção, em show e em livro solto.
Como ler sem se perder
O volume é grande. Não pede leitura de uma sentada, e não funciona como introdução comentada página a página. O leitor que quer só a estreia pode ir direto ao bloco de 1972 e depois decidir se segue. O leitor que quer a fase do Jabuti encontra Algaravias no meio do caminho, com a linguagem mais armada e ainda assim cheia de elipse. O leitor que quer o último movimento encontra Pescados vivos, em que a erudição e o recorte de jornal dividem a página.
Há um limite claro. O livro reúne poesia e um conjunto de letras inéditas em livro. Não substitui os discos, não traz o perfil de Hélio Oiticica e não inclui os cadernos de anotação que ficaram de fora da edição. Para a poesia que Waly publicou em vida e no volume póstumo imediato, porém, esta é a edição de referência em português, num único tomo da Companhia das Letras. Quem compra Poesia total compra o mapa, não um recorte de bolso.



