Na primeira lista dos 40 imortais da Academia Brasileira de Letras, o nome de Júlia Lopes de Almeida estava escrito. Na reunião seguinte, saiu. No lugar dela entrou o marido, o poeta português Filinto de Almeida, depois chamado de acadêmico consorte. O veto a mulheres durou até 1977, quando Rachel de Queiroz ocupou uma cadeira.
Quem procura Júlia agora raramente chega só pela curiosidade histórica. Chega por A falência, romance de 1901 sobre café, adultério e ruína no Rio republicano; por Memórias de Martha, leitura da Fuvest; ou pela pergunta seca: como a escritora mais publicada da Primeira República ficou de fora da casa que ajudou a inventar.
Quem foi Júlia Lopes de Almeida
Júlia Valentina da Silveira Lopes de Almeida nasceu no Rio de Janeiro em 24 de setembro de 1862 e morreu na mesma cidade em 30 de maio de 1934. Foi romancista, contista, cronista, teatróloga e jornalista. Filha do médico Valentim José da Silveira Lopes, depois visconde de São Valentim, e de Adelina Pereira Lopes, ambos portugueses, passou a infância em Campinas, no interior de São Paulo.
A obra transita entre realismo e naturalismo, com dívida assumida a Guy de Maupassant e a Émile Zola. O cenário preferido é o Rio capital, entre salões burgueses, negócios de café e a vida privada que a imprensa masculina preferia tratar como recato. A crítica Lúcia Miguel-Pereira apontou Ânsia eterna, de 1903, como o livro em que ela mais aproveitou o ofício de escritora. O público de vestibular, no entanto, costuma entrar por A falência e por Memórias de Martha.
Como ela entrou na imprensa quando escrever ainda era ofício de homem
Em 1881, aos 19 anos, estreou na Gazeta de Campinas. Em 1884 passou a colaborar no carioca O País, vínculo que durou mais de três décadas. Também escreveu para A Semana, Jornal do Commercio, Tribuna Liberal, Ilustração Brasileira, A Mensageira e a revista luso-brasileira Brasil-Portugal.
Em 1886 foi para Lisboa. No ano seguinte publicou com a irmã Adelina Lopes Vieira o volume Contos infantis e, sozinha, Traços e iluminuras. Em 28 de novembro de 1887 casou-se com Filinto de Almeida, então diretor da Semana Ilustrada. Voltou ao Brasil em 1888. O primeiro romance, Memórias de Martha, circulou em folhetim; em livro, A família Medeiros saiu em 1892.
Numa entrevista a João do Rio, entre 1904 e 1905, confessou que gostava de versos, mas os fazia às escondidas. O dado é pequeno e diz muito: a prosa pública dela nasceu de uma mulher que já tinha aprendido a negociar o que podia mostrar.
Por que a Academia Brasileira de Letras recusou o nome dela
Júlia integrou o grupo que planejou a ABL. Lúcio de Mendonça a incluiu na lista inaugural. Os fundadores, porém, copiaram a Academia Francesa e fecharam a casa aos homens. Machado de Assis presidiu a instituição; Filinto ocupou a cadeira 3. Ela ficou do lado de fora, com produção maior do que a de vários eleitos.
O episódio não é nota de rodapé. Explica por que o nome dela some de manuais e reaparece em dossiês, teses e listas de vestibular. Em 2017, nos 120 anos da ABL, a própria Academia a homenageou como cofundadora. A reparação chegou tarde e não devolveu a cadeira.
Quais livros buscar primeiro
A bibliografia passa de 40 títulos entre romance, conto, crônica, teatro, manual doméstico e literatura infantil. Para quem chega agora, quatro portas bastam:
- A falência (1901): comerciante de café, casamento de conveniência e quebra no Rio da última década do século XIX.
- Memórias de Martha (1899): relato em primeira pessoa de uma professora pobre; voltou à Fuvest.
- A viúva Simões (1897): luto, reputação e desejo de uma viúva vigiada pela família.
- Ânsia eterna (1903): contos mais livres, alguns insólitos, elogiados pela crítica do século XX.
Há ainda A intrusa (1908), Cruel amor (1911), o epistolar Correio da roça (1913) e o póstumo Pássaro tonto (1934). Quem quiser o lado de conselho às leitoras encontra O livro das noivas (1896) e Livro das donas e donzelas (1906), best-sellers de época que hoje se leem como documento do que se esperava de uma mulher letrada.
O que ela defendeu fora da ficção
Os jornais dela não eram só literatura. Textos públicos defenderam a abolição, a República, o divórcio, a educação formal de mulheres e direitos civis. Foi presidente honorária da Legião da Mulher Brasileira, sociedade criada em 1919. Deu conferências sobre o lugar da mulher e sobre temas nacionais; alguns textos chegaram a circular em Paris, onde viveu com Filinto na década de 1920, acompanhando a filha Margarida, escultora.
Entre 1913 e 1918 voltou a morar em Portugal e publicou teatro e um livro infantil com o filho Afonso Lopes de Almeida. Os outros filhos também seguiram ofício artístico: Albano pintou; Margarida esculpiu. A casa do casal, no Rio, João do Rio descreveu como lar de artistas.
O estilo realista a aproxima do clima de Aluísio Azevedo, mas o centro de gravidade dela é outro: a vida doméstica vista de dentro, com mulheres que calculam, desejam e sobrevivem quando o marido quebra ou some. Em literatura brasileira do período, esse recorte ainda é raro o bastante para explicar a redescoberta.
Como o nome dela voltou à pauta
Júlia morreu no Rio em 30 de maio de 1934, depois de uma viagem à África para trazer a filha Lúcia. Fontes divergem entre febre amarela e malária; o que está firme é a data, a cidade e o enterro no cemitério São Francisco Xavier, no Caju. No mesmo ano saiu Pássaro tonto.
A volta recente deve pouco a milagre editorial e muito a escola, pesquisa e reimpressão. Memórias de Martha entrou na Fuvest. A falência circula em edição da Companhia das Letras com apresentação de Luiz Ruffato e em edições acessíveis da Principis. Teses, o Itaú Cultural e a Biblioteca Nacional recolocaram a autora no mapa. Ler Júlia hoje não é gesto de museu: é recuperar uma prosa que já discutia dinheiro, raça, gênero e hipocrisia burguesa enquanto a Academia preferia fingir que mulher não fundava instituição nenhuma.





