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Foto de perfil de João do Rio

João do Rio

Paulo Barreto

Nascimento: 1881 Rio de Janeiro, RJ
João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto (1881–1921), foi jornalista, cronista e imortal da ABL. Inventou a crônica-reportagem no Rio da Belle Époque.

O nome civil não sobreviveu ao jornal. Em 26 de novembro de 1903, na Gazeta de Notícias, Paulo Barreto assinou João do Rio pela primeira vez — e a capital da República entrou na rubrica como se fosse sócia da matéria.

Ele atravessava o Theatro Municipal e a Pequena África no mesmo dia, traduziu Oscar Wilde, entrou na Academia Brasileira de Letras aos 28 anos e morreu aos 39 dentro de um táxi. Cerca de cem mil pessoas acompanharam o enterro. Quem chega a este perfil quase sempre quer o cronista que tratou a rua como redação, e os livros em que o Rio da Belle Époque ainda cabe numa crônica.

Quem foi João do Rio além do pseudônimo

João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto nasceu em 5 de agosto de 1881, na rua do Hospício — hoje rua Buenos Aires, no Centro do Rio. Os biógrafos também registram o nome João Paulo Alberto Coelho Barreto, forma que ele usava em contratos. Filho do professor de matemática positivista Alfredo Coelho Barreto e de Florência dos Santos Barreto, estudou no Colégio de São Bento e, aos 15 anos, prestou concurso para o Ginásio Nacional, o atual Colégio Pedro II.

O primeiro texto saiu em 1º de junho de 1899, no jornal O Tribunal, de Alcindo Guanabara: uma crítica à peça Uma casa de bonecas, de Ibsen, então em cartaz no teatro Santana. Tinha 17 anos incompletos e já assinava com o próprio nome. Entre 1900 e 1903, colaborou em O Paiz, O Dia, Correio Mercantil, O Tagarela e O Coió, quase sempre atrás de máscaras — Godofredo de Alencar, José Antônio José, Claude, Joe, Caran d'Ache. O pseudônimo que vingou, no entanto, foi o que colou o homem à cidade.

Homem mestiço, de origem humilde, solteiro e lido pelos contemporâneos como homossexual, Paulo Barreto viveu da imprensa numa época em que literatura ainda era bico de funcionário público. Vestia-se como dândi tropical, engordava as colunas e pagava as contas com elas. A recusa diplomática no Itamaraty, em 1902, e as troças racistas e homofóbicas que o perseguiram até o fim não o tiraram da rua: o jornal virou ofício, não hobby.

Como a crônica-reportagem nasceu na Gazeta

Em 1903, Nilo Peçanha o indicou para a Gazeta de Notícias, onde ficou até 1913. Foi ali que a máscara João do Rio engoliu o resto. O método era simples e, para a época, insolente: sair do gabinete, conversar com quem a cidade fingia não ver, anotar fala, cheiro, crença e figurino, depois devolver tudo em texto que não escolhia entre jornalismo e literatura.

Entre fevereiro e abril de 1904, publicou a série As Religiões no Rio. Entrou em terreiros da Pequena África, falou com maronitas, presbiterianos, espíritas, cartomantes e um frei exorcista. O volume vendeu mais de oito mil exemplares em seis anos — número alto num país de analfabetismo brutal. Em 1908 veio A alma encantadora das ruas, reunião de textos de 1904 a 1907 em que a rua deixa de ser cenário e vira personagem. Em 1911, Vida vertiginosa registrou o Rio das reformas de Pereira Passos: automóvel, favela, feminismo nascente, cartomante e pressa.

Quem lê essas crônicas hoje reconhece o parentesco com o flâneur parisiense, mas o material é carioca: o contraste entre o salão e o cortiço, a fé oficial e o culto escondido, o bonde e o feitiço. Para quem chega pela literatura brasileira clássica, João do Rio ocupa um lugar diferente do romance de gabinete — ele documenta a cidade enquanto ela se destrói para parecer moderna.

  • As Religiões no Rio (1904): reportagem de campo sobre crenças da capital, da igreja ao terreiro.
  • A alma encantadora das ruas (1908): o livro pelo qual a maior parte dos leitores o encontra.
  • Vida vertiginosa (1911): crônicas da modernização acelerada, com edição anotada recente.
  • Dentro da noite (1910): contos de mistério, ocultismo e rua escura.
  • A bela Madame Vargas (1912): o maior sucesso teatral, estreado no Theatro Municipal.

Da Academia Brasileira de Letras ao jornal A Pátria

Eleito em 7 de maio de 1910 para a cadeira 26, João do Rio foi o acadêmico mais jovem da Academia Brasileira de Letras e o primeiro a tomar posse com o fardão. A instituição que também abrigou Machado de Assis recebeu um jornalista de rua, não um romancista de gabinete. Anos depois, com a eleição do desafeto Humberto de Campos, afastou-se. A mãe, na hora da morte, vetou velório na ABL: o filho não aprovaria.

A lista de ofícios públicos não para no fardão. Em 1911 emprestou 20 contos de réis a Irineu Marinho para fundar A Noite — o empréstimo foi quitado em um ano. Dirigiu a revista luso-brasileira Atlantida (1915–1920), tornou-se correspondente da Academia de Ciências de Lisboa, fundou em 1917 a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais e, em 1920, o jornal A Pátria. Nesse jornal defendeu os poveiros, pescadores portugueses da Póvoa de Varzim ameaçados por lei de nacionalização da pesca. Ganhou inimigos, ofensas e uma surra em restaurante.

Traduziu Salomé e Intenções, de Oscar Wilde, e estreou no teatro com a revista Chic-Chic (1906) e o drama Clotilde (1907). Em 1916 aproximou-se de Isadora Duncan durante a temporada da bailarina no Municipal. Em 1917 escreveu a crônica “Praia Maravilhosa” sobre Ipanema e ganhou dois terrenos no bairro então nascente. Em 1918 cobriu o armistício em Versalhes. Nada disso o transforma em dândi de vitrine: o núcleo da autoridade continua sendo a reportagem a pé.

Morte no táxi, cem mil no enterro e a Flip 2024

Obeso e mal o dia inteiro, sentiu-se pior no táxi em 23 de junho de 1921. Pediu ao motorista que parasse e trouxesse água. Morreu de enfarte na rua Bento Lisboa, aos 39 anos. O velório foi na sede de A Pátria; o cortejo rumou ao Cemitério de São João Batista, em Botafogo. A biblioteca foi doada pela mãe ao Real Gabinete Português de Leitura. A rua Paulo Barreto, no mesmo bairro, é curta — Graciliano Ramos anotou a modéstia da homenagem. Lisboa respondeu com a Praça João do Rio.

Em 2021, o centenário da morte reabriu o dossiê: Brasiliana Fotográfica, biografias de João Carlos Rodrigues e o volume infantojuvenil de Fabiano Ormaneze. Em 2024, a Festa Literária Internacional de Paraty o escolheu como homenageado da 22ª edição. A rua que ele amou deixou de ser só arquivo: voltou à mesa de debate, à edição comentada e à livraria. Quem quiser o homem, começa pela biografia; quem quiser o método, abre as crônicas e anda.

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Projetos de João do Rio

A alma encantadora das ruas
A alma encantadora das ruas
Crônicas de 1904 a 1907 em que João do Rio flana pelo Rio da Belle Époque e transforma a rua em personagem.
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As Religiões no Rio
As Religiões no Rio
Série de 1904, depois livro, em que João do Rio mapeia terreiros, igrejas e crenças da capital federal.
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Vida vertiginosa
Vida vertiginosa
Coletânea de 1911 sobre o Rio das reformas de Pereira Passos, agora em edição anotada da José Olympio.
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Dentro da noite
Dentro da noite
Contos de 1910 em que João do Rio leva o Rio para o mistério, o ocultismo e a rua escura.
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