O livro que colocou Lya Luft na mesa de milhões de leitores não foi o primeiro romance, nem o poema de estreia. Foi Perdas e Ganhos, de 2003: um volume curto, escrito como conversa, que passou 113 semanas nas listas de mais vendidos e chegou perto de um milhão de exemplares. Quem busca o nome hoje costuma chegar por essa porta — e só depois descobre a romancista de famílias sombrias, a tradutora de Virginia Woolf e Thomas Mann, a professora de linguística e a colunista que ocupou a revista Veja por duas décadas.
Lya Fett Luft nasceu em 15 de setembro de 1938, em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, e morreu em 30 de dezembro de 2021, em Porto Alegre, aos 83 anos, em casa, após um melanoma. Entre a cidade de colonização alemã e a capital gaúcha, construiu uma obra de romances, poemas, contos, crônicas, ensaios e livros infantis, publicada em grande parte pela Editora Record. O perfil abaixo reúne a trajetória pública, o contexto de formação e as obras que realmente explicam por que ela continua sendo procurada.
Quem foi Lya Luft
Lya Luft foi escritora, tradutora, professora universitária e cronista brasileira. Formou-se em Pedagogia e em Letras Anglo-Germânicas na PUCRS, fez mestrado em Linguística na mesma universidade (1975) e mestrado em Literatura Brasileira na UFRGS (1978). De 1970 a 1982 foi professora titular de Linguística na Faculdade Porto-Alegrense. Depois, deixou a sala de aula para viver da tradução e da própria literatura.
A reputação pública dela tem duas camadas que o leitor mistura com facilidade. De um lado, a ficção dos anos 1980 — As Parceiras (1980), A Asa Esquerda do Anjo, Reunião de Família, O Quarto Fechado — marcada por casas fechadas, loucura, morte e o lugar da mulher na família. De outro, os livros de reflexão que explodiram no mercado: Perdas e Ganhos e Pensar é Transgredir. Não são a mesma coisa. Um pede o romance denso; o outro, a crônica filosófica em tom de conversa.
- Estreia em livro: Canções de Limiar (1964), poemas.
- Primeiro romance: As Parceiras (1980), aos 41 anos.
- Fenômeno de venda: Perdas e Ganhos (2003).
- Prêmio ABL: O Tigre na Sombra (2012), ficção de 2013.
- Último livro em vida: As Coisas Humanas (2020).
Origem germânica, Porto Alegre e formação
Filha do advogado e juiz Arthur Germano Fett, Lya cresceu numa família teuto-brasileira que falava alemão em casa. Aos onze anos já recitava Goethe e Schiller. Aos dezenove, convertida do luteranismo ao catolicismo, espantou os pais. Aos vinte e um, atrasada numa prova de vestibular, conheceu o linguista e então irmão marista Celso Pedro Luft, dezenove anos mais velho, com quem se casou em 1963. Tiveram três filhos: Susana (1965), André (1966–2017) e Eduardo (1969).
A partir de 1959 fixou-se em Porto Alegre. Traduziu para o português mais de cem livros do alemão e do inglês, entre eles obras de Virginia Woolf, Rainer Maria Rilke, Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass, Botho Strauss e Thomas Mann. Em 2001 recebeu o Prêmio União Latina de melhor tradução técnica e científica por Lete: Arte e crítica do esquecimento, de Harald Weinrich. A tradução não foi atalho: foi o ofício que sustentou a escritora antes de ela se considerar, de fato, romancista.
Do acidente de 1979 ao primeiro romance
Os poemas de Canções de Limiar e Flauta Doce (1972) e os contos de Matéria do Cotidiano (1978) vieram antes da ficção longa. O empurrão decisivo, segundo a própria trajetória pública, foi um acidente de carro quase fatal em 1979. No ano seguinte saiu As Parceiras, estreia romanesca sobre Anelise e as mulheres de um casarão marcado por casamento forçado, viuvez e desagregação. A crítica recebeu o livro com peso; o vestibular da UFRGS ainda o cobraria décadas depois.
Vieram então A Asa Esquerda do Anjo (1981), Reunião de Família (1982), O Quarto Fechado (1984) — este último traduzido nos Estados Unidos como The Island of the Dead — e Exílio (1987). Em 1985, Lya separou-se de Celso Luft e foi viver no Rio de Janeiro com o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino, a quem fora apresentada por Nélida Piñon. Pellegrino morreu em 1988. Em 1992 ela voltou a viver com Celso, de quem ficou viúva em 1995. A partir de 2003, seu companheiro foi Vicente de Britto Pereira.
Colunas, Veja e o fenômeno de Perdas e Ganhos
Antes da Veja, Lya já escrevia crônicas no Correio do Povo. Na revista semanal, ocupou espaço de 1996 a 2016, falando de cotidiano, ética, família e o que ela chamava de “coisas humanas”. Em 1996, O Rio do Meio levou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, e ela foi patrona da Feira do Livro de Porto Alegre. O salto de público, porém, veio com Perdas e Ganhos: um livro que recusa a etiqueta de autoajuda e, ainda assim, vendeu como poucos ensaios brasileiros do século XXI.
Quem lê só o best-seller perde a romancista. Quem lê só os romances dos anos 1980 perde a cronista que conversava com o leitor “ao pé do ouvido”, como a própria Record descreveu a proposta. As duas frentes se encontram na obsessão por perda, família, doença e a possibilidade — nunca piegas — de algum ganho. Em 2013, a Academia Brasileira de Letras premiou O Tigre na Sombra, romance de 2012 em que a menina Dôda atravessa um mundo de espelhos, tigres e dramas domésticos. Em 2016 recebeu o Diploma Bertha Lutz.
Como ler Lya Luft hoje
Para quem chega pela escola ou pelo vestibular, As Parceiras ainda é a porta da ficção. Para quem chega pelas frases que circulam nas redes, Perdas e Ganhos e Pensar é Transgredir explicam o fenômeno de massa. Para quem quer o romance premiado da maturidade, O Tigre na Sombra. O último livro, As Coisas Humanas (2020), escrito depois da morte do filho André, em 2017, e às vésperas da própria doença, fecha o arco sem transformar o luto em espetáculo.
No mapa da literatura brasileira do século XX, Lya Luft não ocupa o mesmo nicho de Clarice Lispector: a prosa dela é mais direta, mais familiar, menos experimental. O que as aproxima é a insistência em tratar a vida interior da mulher — casa, corpo, linguagem, morte — como matéria pública, não como recanto doméstico. A página de projetos deste perfil aprofunda as obras principais com proposta, público e contexto de leitura.
Perguntas frequentes sobre Lya Luft
Lya Luft ainda está viva?
Não. Morreu em 30 de dezembro de 2021, em Porto Alegre, aos 83 anos, em casa, segundo a família. Lutava há meses contra um melanoma descoberto já em metástase. Em 2019 havia sofrido um infarto e passado por angioplastia no Hospital Moinhos de Vento.
Qual livro de Lya Luft ler primeiro?
Depende da busca. Perdas e Ganhos é o volume mais procurado e o mais curto caminho para o tom de crônica reflexiva. As Parceiras é a estreia em romance e o retrato da família sombria. O Tigre na Sombra é o romance premiado pela ABL. As Coisas Humanas interessa a quem quer o último testemunho publicado em vida.
Lya Luft só escreveu ensaios de reflexão?
Não. A obra cobre poesia, conto, romance, crônica, ensaio, tradução e literatura infantil — estes últimos, como Histórias de Bruxa Boa, ilustrados pela filha Susana Luft. Os ensaios de grande público vieram depois de duas décadas de ficção.
A Academia Rio-Grandense de Letras a homenageou como escritora do ano pouco antes da morte. O que permanece, para quem lê de fato, não é a frase solta nas redes: é a capacidade de escrever sobre perda sem fingir que a vida cabe num conselho.






