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Oscar Araripe

Oscar de Alencar Araripe Ferreira

Nascimento: 1941 Rio de Janeiro, RJ / Tiradentes, MG
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Pintor e escritor carioca radicado em Tiradentes. Pintou Extinção Nunca Mais na Eco-92, usa vela náutica como tela e fechou a trilogia literária com Imaculada.

No Jardim Botânico do Rio, em 1992, uma pintura enorme de fauna ameaçada ficou ao relento enquanto o Brasil recebia a Eco-92. Oscar Araripe tinha descoberto, em 1984, que a vela náutica de dacron poliéster aguentava sol, chuva e gente passando: o suporte virou tela, a tela virou manifesto ao ar livre. Extinção Nunca Mais reuniu público estimado em dois milhões de pessoas.

Quem busca o nome hoje encontra um pintor de flores, casarios coloniais e heróis mineiros — e um escritor que começou no jornalismo cultural do Correio da Manhã, do Jornal do Brasil e da Última Hora. Oscar de Alencar Araripe Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 19 de julho de 1941, cresceu no Encantado e, desde o início dos anos 1990, trabalha no centro histórico de Tiradentes, em Minas Gerais, onde mantém galeria, ateliê e a Fundação Oscar Araripe.

Da Faculdade Nacional de Direito à anistia

Antes da paleta, veio o Direito. Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1968 pela Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, foi eleito para o diretório do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (CACO) e militou na Ação Popular. Nos primeiros anos da ditadura militar sofreu punições, suspensão e impedimento de entrar na faculdade. Em 2012, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça reconheceu as perseguições e o Estado brasileiro pediu desculpas em ato público.

Ainda na década de 1960 frequentou seminários na Universidade de Harvard, com bolsa da Interamerican University Foundation, em 1966 e 1968, e foi bolsista de jornalismo na Universidade Pró Deo, em Roma, em 1969. O repertório de estudante cassado, correspondente cultural e viajante volta o tempo todo na pintura e na prosa: liberdade, paisagem, heróis da Inconfidência e uma teimosia de quem aprendeu cedo que a rua também é escola.

No jornalismo cultural escreveu crítica de teatro, editorial e coluna. Em 1974 publicou o ensaio China, o Pragmatismo Possível, pela Artenova, com apresentação do editor Álvaro Pacheco, da Academia Brasileira de Letras. O livro saiu no momento em que Brasil e China reatavam relações e circulou como relato de viagem e observação política. Com o arte-educador Augusto Rodrigues, editou o jornal Arte e Educação e figura entre os membros fundadores da Insea, a Sociedade Internacional de Educação Através da Arte.

Como a pintura virou ofício

A virada plástica veio depois da redação. Autodidata, Araripe começou a pintar em papel vegetal e, em seguida, na tela sintética da vela náutica. Em 1975 participou do evento Poemação no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Entre 1975 e o fim dos anos 1980 viveu longos períodos em Mirantão, no sul de Minas, onde reinventou a rotina de pintor profissional e acumulou manuscritos que décadas depois virariam livro.

A inovação técnica faz parte do método público. A vela de dacron poliéster, introduzida como suporte em 1984, resiste a fungo e craquelê e combina com tinta acrílica. Ele também passou a usar filme laser no lugar do papel vegetal, pintar por trás do suporte para obter transparências, trabalhar com markers e aquarela acrílica. Com estrutura de ferro no lugar da moldura clássica, as telas grandes puderam ficar na rua, na praça e no jardim — o que explica a escala de Extinção Nunca Mais e das “pipas” coloridas que já ocuparam a Praça Tiradentes, em Ouro Preto, e o Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio.

Ele chama essa posição de pessoalismo: a afirmação do universo da pessoa do artista contra a moda de escola. Paisagista, marinista, realista e subjetivo, pinta na horizontal, perto da tela, e trata a cor como acontecimento, não como receita. A série Os Pilares, com cerca de 1.200 imagens, os bicos de pena de Tiradentes, Ouro Preto, Bahia e Ceará, os eróticos e os jarros de flores viraram as linhas mais reconhecíveis do ateliê.

O que ele pinta e onde a obra ficou

Três retratos de heróis brasileiros atravessam a produção pública: Tiradentes, Bárbara de Alencar e Tristão Araripe, os dois últimos apresentados pelo pintor como parentes. O díptico Tiradentes, o Animoso Alferes, de três metros por três, pintado para o bicentenário da morte do alferes em 1992, passou pelo Museu da Inconfidência, pelo Museu Mineiro, pelo Museu da República e por fóruns e praças de Tiradentes e São João del-Rei. A tela de Bárbara de Alencar chegou a espaços institucionais, entre eles o saguão de um edifício público com o painel emoldurado em metal.

  • Extinção Nunca Mais — instalação ao ar livre na Eco-92, Jardim Botânico do Rio.
  • Os Pilares — ciclo de cerca de 1.200 imagens, dos anos 1980.
  • Flores — fase iniciada em 2004, com jarros, borboletas e homenagens a cidades e artistas.
  • Bicos de pena de casarios de Minas, Bahia e Ceará.
  • Painéis entronizados em Ouro Preto, São João del-Rei, Iguape, Chapingo (México) e Fortaleza.

A Enciclopédia Itaú Cultural registra o pintor como Oscar Araripe Ferreira e lista dezenas de exposições. Houve individuais no Centro Cultural Banco do Brasil (1992), no Museu Regional de São João del-Rei (1995), na Galeria Manuel Bandeira da Academia Brasileira de Letras (2011), no Museu Inimá de Paula em Belo Horizonte (2022) e na Pinacoteca de Iguape (2022). Fora do Brasil, a obra passou pelos Estados Unidos, França, Espanha, Eslovênia, Grécia, Cuba, Reino Unido, China, México e Angola. Em 2010, o mural Flores para o Rei-Poeta Nezahualcoyotl foi entronizado na Universidade Autónoma Chapingo, no México. Em 2012, As Flores Abraçam o Mundo ganhou medalha de ouro na Olympic Fine Arts, no Barbican Centre, em Londres. Em 2019 levou Flowers for Harvard ao Science Center de Harvard e mostrou trabalho no MIT, em Cambridge.

Os livros, da China à Amazônia

A literatura corre em paralelo e, em certos trechos, se mistura à pintura. A trilogia abriu com Maria na Terra de Meus Olhos (Rocco, 1975), seguiu com Marta, Júpiter e Eu (Marco Zero, 1983) e fechou com Imaculada: a Amazônia que nos deu à luz (Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2024). O primeiro volume ganhou prefácio longo de Antônio Houaiss. Eduardo Portella e José Paulo Moreira da Fonseca também escreveram sobre a prosa. Marcelo Rubens Paiva, na revista Veja, descreveu Marta, Júpiter e Eu como “uma carta de amor à natureza e, sobretudo, às mulheres”.

Imaculada nasceu de cerca de 1.500 páginas manuscritas a grafite, escritas em Mirantão entre 1972 e 1986, e saiu em 682 páginas com 36 desenhos da série Uaupés. A EDUA publicou o volume; houve lançamentos na Academia Cearense de Letras, na Livraria da Travessa de Ipanema e na galeria de Tiradentes. Arnaldo Niskier e Carlos Nejar, ambos da ABL, comentaram a obra em textos de apresentação. O site do artista também anuncia Uma Vida de Pintor, autobiografia de 436 páginas com prefácio de Mary Del Priore.

O nome aparece na bibliografia do Aurélio e na Enciclopédia da Literatura Brasileira de Afrânio Coutinho. Em dezembro de 2023 tomou posse no PEN Clube Internacional do Brasil. A escrita e a pintura, no discurso público do próprio Araripe, são o mesmo gesto: “não exprimo, pinto”.

Tiradentes, honrarias e a disputa do honoris causa

A galeria pessoal funciona na Rua da Câmara, 92 e 98, no centro histórico de Tiradentes, endereço que também sedia a Fundação Oscar Araripe. Cidinha Ribeiro de Alencar Araripe, advogada de Catas Altas e esposa do pintor, preside a fundação. O casal tem três filhos: Anaí e os gêmeos Octávio e Victtoria de Alencar Araripe. No ateliê, Araripe mantém ensino artístico gratuito para crianças, presencial e pela internet.

A lista de honrarias públicas é longa e documentada. Foi cidadão honorário de São João del-Rei (2006), de Tiradentes (2008) e de Ouro Preto (2017). Em 2014 recebeu o conjunto de medalhas Pedro Ernesto da Câmara do Rio. Em 2015, a Medalha Tiradentes da Alerj. Em 2017, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais entregou o título de Cidadão Honorário do Estado. Há ainda medalha de ouro da Société académique Arts, Sciences et Lettres, na França (2014), prêmios de aquisição em Brasília e no Museu Histórico Nacional, e a Medalha Aleijadinho em Ouro Preto (2024).

O doutoramento honoris causa da UFRJ teve um capítulo público tenso. Em 2021, a Congregação da Faculdade Nacional de Direito indeferiu a indicação, no mesmo processo que também recusou Nei Lopes; a relatoria alegou falta de pertinência temática com o Direito. O Instituto dos Advogados Brasileiros e a OAB-RJ saíram em defesa do título. A FND reconsiderou em agosto de 2021. Em maio de 2022 o Conselho Universitário concedeu o honoris causa por aclamação; em 1º de dezembro daquele ano a reitora Denise Pires de Carvalho diplomou Araripe no Salão Nobre da Faculdade Nacional de Direito, cerimônia em que ele também recebeu o Colar do Mérito Pedro, o Libertador, do Conselho de Minerva.

Perguntas frequentes

Quem é Oscar Araripe?

Pintor, desenhista, escritor e arte-educador brasileiro, nascido no Rio em 1941 e radicado em Tiradentes. Ficou conhecido pelas telas em vela náutica, pela mostra Extinção Nunca Mais na Eco-92 e pela trilogia literária que fecha em Imaculada.

Onde ver as obras?

A galeria pessoal e a Fundação Oscar Araripe ficam na Rua da Câmara, no centro histórico de Tiradentes. Há painéis em museus e instituições de Ouro Preto, São João del-Rei, Iguape, Belo Horizonte, Chapingo e outros endereços públicos.

Qual livro começar?

Quem quer a prosa recente encontra Imaculada: a Amazônia que nos deu à luz. Quem quer o começo da trilogia volta a Maria na Terra de Meus Olhos. O ensaio de 1974 sobre a China é outro ponto de entrada, mais jornalístico.

Oscar Araripe continua pintando e escrevendo em Tiradentes, com o ateliê aberto à visita e a obra em catalogação pela fundação que leva seu nome. A pergunta que o traz até aqui costuma ser simples — quem é o pintor das flores de Minas — e a resposta atravessa direito, ditadura, jornal, vela náutica e uma floresta imaginada no papel.

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