Contexto e proposta de A arte de mentir: Pequenos textos encontrados na caverna de Cronos
A arte de mentir reúne mais de cem crônicas que Cícero Sandroni publicou no Jornal do Commercio entre 1999 e 2003. O subtítulo, Pequenos textos encontrados na caverna de Cronos, dá o tom do volume: são textos curtos, feitos para serem lidos com calma, nascidos da observação diária de um jornalista que passou a vida entre redações.
Na apresentação da obra, o próprio autor define o espírito do livro ao falar de memórias de amigos que já partiram e de pequenas alusões aos malfeitos da vida, sem pretensão de ser a palmatória do mundo. A crônica, gênero que transita entre o jornalismo e a literatura, é o formato ideal para esse tipo de escrita: ela parte de um fato do cotidiano e chega à reflexão sem perder a leveza.
Personagens e cenários
As crônicas de Sandroni circulam por personagens reais e por lugares muito diferentes. Entre as figuras que aparecem no livro estão escritores como Clarice Lispector e Fernando Sabino, músicos como John Lennon e Aldir Blanc, religiosos como dom Helder Câmara, além de nomes da vida pública brasileira e da literatura latino-americana. Os cenários também variam: Brasil, Cuba, Paris, Davos. Da cozinha à arte, da economia às guerras, tudo passa pelo olhar do cronista.
Por que ler A arte de mentir
O livro interessa a quem aprecia boa escrita e quer entender como um jornalista experiente transforma a experiência de repórter em literatura. Também funciona como retrato indireto de uma época: as crônicas registram encontros, viagens e leituras de quem conviveu com alguns dos principais nomes da cultura brasileira do século 20.
O que é uma crônica de Sandroni
As crônicas reunidas aqui têm a marca do jornalista que passou décadas escrevendo para o leitor diário. São textos que partem de um fato simples — uma lembrança, uma leitura, uma notícia — e ganham densidade pelo encadeamento de referências. Sandroni escreve sobre amigos que morreram, sobre livros, sobre viagens, sobre o noticiário político, sempre com um humor discreto e uma prosa que não perde o fio.
O título A arte de mentir antecipa o pacto que o cronista propõe: a pequena invenção que a literatura permite, sem abrir mão daquilo que o jornalismo exige. O subtítulo brinca com a ideia de que esses textos seriam achados arqueológicos na caverna de Cronos, o deus do tempo — uma boa pista do tom do livro.
Para quem conhece Sandroni apenas como biógrafo ou ficcionista, A arte de mentir revela o cronista — talvez a faceta mais próxima do trabalho diário de jornalista que ele exerceu por mais de cinquenta anos. O volume foi publicado pela Rocco, com 256 páginas, e tem edição também em formato digital.





