Cícero Augusto Ribeiro Sandroni nasceu em São Paulo, em 26 de fevereiro de 1935, e morreu no Rio de Janeiro, em 17 de junho de 2025, aos 90 anos. Jornalista e escritor, cobriu a política brasileira em jornais como Correio da Manhã, O Globo e Jornal do Brasil, participou da criação da agência de notícias Interpress Service e presidiu a Academia Brasileira de Letras entre 2007 e 2009.
Quem procura Cícero Sandroni costuma chegar por dois caminhos que se cruzam: o interesse pela história da imprensa brasileira e a obra literária que ele passou a publicar na década de 1980, entre contos, romances, crônicas e biografias. A trajetória dele atravessa momentos decisivos do país — do governo de Jânio Quadros ao golpe militar de 1964 — e ajuda a entender como o jornalismo político daquela geração se converteu em memória literária.
Quem foi Cícero Sandroni?
Filho de Ranieri Sandroni, de origem italiana, e de Alzira Costa Ribeiro, Sandroni nasceu na capital paulista e se mudou com a família para o Rio de Janeiro em 1946, aos 11 anos. Formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a PUC-Rio, e estudou administração na Fundação Getúlio Vargas. Antes de concluir os cursos, já trabalhava em redação, e a carreira na imprensa se estendeu por mais de meio século.
Ele foi o sexto ocupante da cadeira número 6 da Academia Brasileira de Letras, que tem como patrono Casimiro de Abreu, e é lembrado tanto pelos livros que assinou quanto pelo papel que desempenhou na vida institucional da Academia.
Como começou a carreira no jornalismo
Em 1954, Sandroni estagiou na Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, e passou também pelo Correio da Manhã e pelo Jornal do Brasil. Em 1958 transferiu-se para O Globo, onde se especializou em política, matéria que continuou a cobrir quando assumiu o setor de reportagem política do Diário de Notícias. A especialização precoce em política explicaria boa parte de sua produção literária posterior, marcada por episódios da história brasileira recente.
Brasília, o governo Goulart e o golpe de 1964
Em 1961, mudou-se para Brasília a convite do então prefeito Paulo de Tarso Santos e assumiu a Secretaria de Imprensa da nova capital. Na mesma época, ajudou na elaboração da única mensagem de Jânio Quadros ao Congresso Nacional. Durante a breve experiência parlamentarista, atuou no governo de João Goulart, no gabinete de André Franco Montoro, ministro do Trabalho, em 1962.
Sandroni presidiu o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos, o IAPM, e foi afastado pelo golpe militar de 1964. De volta ao jornalismo, fundou com Pedro Penner da Cunha a editora Edinova, voltada para o lançamento de obras latino-americanas e do nouveau roman. Em 1965, participou da criação da Interpress Service e se tornou representante da agência no Brasil. Voltou ao Correio da Manhã, onde permaneceu até a intervenção da ditadura no jornal, e em 1974 recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo. Trabalhou ainda no Jornal do Brasil e no Jornal do Commercio, além de assinar comentários sobre livros na televisão.
O que Cícero Sandroni escreveu
A obra literária de Sandroni alterna ficção, crônica e pesquisa histórica. Entre os títulos mais conhecidos estão:
- O Diabo só chega ao meio-dia (1985) — livro de contos que marcou sua estreia na ficção;
- O vidro no Brasil (1989) — ensaio histórico;
- Austregésilo de Athayde, o Século de um Liberal (1998) — biografia escrita com Laura Sandroni e premiada pela ABL com o prêmio José Ermírio de Moraes;
- Cosme Velho (1999) — passeio literário pelo bairro carioca;
- Quase Cony (2002) — perfil do escritor Carlos Heitor Cony;
- O Peixe de Amarna (2003) — romance de aventura ambientado no Egito antigo;
- A arte de mentir (2015) — reunião de crônicas publicadas no Jornal do Commercio;
- Batman não foi a Búzios (2016) — contos que partem de episódios da história brasileira.
Como o jornalista virou ficcionista
Em A arte de mentir, Sandroni reuniu mais de cem crônicas publicadas no Jornal do Commercio entre 1999 e 2003. São textos curtos que misturam memória, literatura e cotidiano, com passagens sobre amigos que já morreram, cenas de viagem e figuras que atravessaram sua vida de repórter. Já em Batman não foi a Búzios, o ponto de partida é a madrugada de 31 de março de 1964: um encontro amoroso serve de analogia para as relações internacionais que se tramavam por trás do golpe militar. O livro mostra como o repórter de política se transformou em ficcionista sem abandonar o interesse pelos enganos e desencontros da história do país.
A crítica costuma destacar nessa produção a leveza da escrita e o repertório de quem passou décadas em redações, convivendo com escritores, artistas e personagens da vida pública. A ficção de Sandroni não funciona como relatório: ela usa a experiência jornalística como matéria-prima transformada.
Cícero Sandroni na Academia Brasileira de Letras
Sandroni foi eleito para a cadeira número 6 da Academia Brasileira de Letras em 25 de setembro de 2003, na sucessão de Raimundo Faoro, com 36 votos, e foi recebido em 24 de novembro daquele ano pelo acadêmico Candido Mendes de Almeida. Na Academia, foi tesoureiro na presidência de Ivan Junqueira e, dois anos depois, secretário-geral na gestão de Marcos Vinicios Vilaça.
Em 13 de dezembro de 2007, tomou posse como presidente da ABL, eleito por unanimidade pelos colegas, e presidiu a instituição nos anos de 2008 e 2009. Foi sucedido na cadeira 6 por Milton Hatoum.
Fora da Academia, a ligação familiar com a casa era antiga: Sandroni era casado com Laura Constância Austregésilo de Athayde, filha do acadêmico Austregésilo de Athayde, que presidiu a ABL por 34 anos, de 1959 até sua morte, em 1993. Com Laura, escreveu a biografia do sogro. O casal teve cinco filhos: Carlos, Clara, Eduardo, Luciana e Paula.
Qual é o legado de Cícero Sandroni?
Cícero Sandroni morreu em 17 de junho de 2025, no Rio de Janeiro, aos 90 anos, e foi velado na sede da Academia Brasileira de Letras. Deixa uma obra que continua em catálogo e uma trajetória que conecta a imprensa política do século 20 à literatura brasileira contemporânea.
Para quem quer conhecê-lo, há mais de uma porta de entrada. Quem prefere crônicas pode começar por A arte de mentir; quem busca ficção histórica encontra em Batman não foi a Búzios e em O Peixe de Amarna dois caminhos distintos; e quem se interessa por biografia e pela memória da Academia Brasileira de Letras tem em Austregésilo de Athayde, o Século de um Liberal o título mais denso. Em qualquer um deles, aparece o mesmo autor: um repórter que passou a vida observando o poder e que, ao escrever, preferiu investigar os mal-entendidos humanos por trás dos fatos.






