A família tratou Carlos Heitor Cony como mudo até os quatro anos. O primeiro som saiu de um susto: um hidroavião vermelho sobre a praia de Icaraí, em Niterói. Até os quinze, trocava letras na fala e se defendia no papel. Depois de uma zoação do irmão, escreveu “fogão” tantas vezes que o grupo perdeu a graça. Escrever, ele diria depois, não foi vocação. Foi destino.
Quem busca o nome hoje quer o cronista que, em 1964, transformou a coluna do Correio da Manhã em respiradouro público; o romancista de Quase memória; o colunista da Folha de S.Paulo e comentarista da rádio CBN que ocupou a cadeira 3 da Academia Brasileira de Letras. Carioca de Lins de Vasconcelos, nasceu em 14 de março de 1926 e morreu no Rio em 5 de janeiro de 2018, aos 91 anos.
Quem foi Carlos Heitor Cony
Cony foi jornalista, romancista, cronista, contista, roteirista e ensaísta. Filho do jornalista Ernesto Cony Filho e de Julieta Moraes Cony, cresceu na zona norte do Rio e passou a vida entre redação, romance e crônica diária. Não foi um escritor de gabinete isolado: cobriu prefeitura, editou revista, dirigiu teledramaturgia e manteve coluna até o fim. A literatura e o jornalismo, nele, nunca se separaram de verdade.
A obra reúne dezessete romances, coletâneas de crônicas, contos, ensaios biográficos, livros infantojuvenis, adaptações de clássicos e trabalhos para cinema e televisão. Estreou pela Civilização Brasileira, de Ênio Silveira. Décadas depois, a Nova Fronteira reeditou o acervo. A crítica falou em neorrealismo psicológico; o público, em frase curta, ironia e um ceticismo que não pedia desculpa.
Infância no Rio, seminário e a entrada no jornalismo
Alfabetizado em casa por causa da dicção, Cony entrou no Seminário Arquidiocesano de São José, no Rio Comprido, em 1938. Ficou até 1945, estudou latim, grego, francês, filosofia e teologia, e saiu antes da ordenação. No romance Informação ao Crucificado (1961), o seminarista João Falcão resume o motivo de ter querido ser padre de um jeito pouco piedoso: “porque achei bonito ser padre. Bonito e difícil.”
Em 1946 tentou a Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil e abandonou no ano seguinte. A carteira de jornalista veio cedo, cobrindo o pai. Em 1952 virou redator da Rádio Jornal do Brasil. Em 1955, depois de uma isquemia do pai, assumiu a sala de imprensa da Prefeitura pelo Jornal do Brasil e escreveu o primeiro romance, O Ventre. O júri do Prêmio Manuel Antônio de Almeida achou o livro “muito bom” e “forte demais” para um concurso oficial. Em nove dias, Cony escreveu A Verdade de Cada Dia e ganhou o prêmio em 1957. Repetiu a medalha em 1958 com Tijolo de Segurança. Os três livros saíram em 1958, 1959 e 1960.
O cronista de 1964 e o preço da opinião
Em 1960 entrou no Correio da Manhã como copidesque e editorialista. A coluna “Da arte de falar mal” o levou a um público maior do que o dos romances. Depois do golpe militar, as crônicas dos meses seguintes chamaram o movimento de quartelada, nomearam comandantes e irritaram o general Costa e Silva, então ministro da Guerra. Reunidas ainda em 1964 em O ato e o fato, venderam à velocidade de manifesto: mais de 1.600 exemplares numa noite de autógrafos, edição esgotada em semanas.
Luis Fernando Verissimo descreveu o hábito de ler Cony naqueles dias como exercício de oxigenação. Moacyr Scliar chamou a coluna de “respiradouro”. O próprio autor recusou o rótulo de militante programático: dizia escrever porque gente da redação desaparecia, era espancada, torturada. Entre 1964 e o AI-5, respondeu processos, foi preso seis vezes e, no fim de 1968, chegou a ficar quase um mês na cadeia. Em 1967–1968 passou onze meses em Havana, a convite do júri do Prêmio Casa de las Américas, depois de Paris, Moscou e Praga.
Na volta, aceitou o convite de Adolpho Bloch. Ficou cerca de trinta anos no grupo, em Manchete, Desfile, Fatos & Fotos e Ele Ela. A esquerda viu pacto; ele falou em “prisão de luxo”, salário e viagem. Em 1976 entrevistou o delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops — gesto que aumentou a desconfiança de parte da oposição. Em 2004, a Comissão de Anistia aprovou pensão e indenização pelas perseguições da ditadura, decisão que reabriu a polêmica pública em torno do valor.
Romances, prêmios e o retorno com Quase memória
Antes da pausa longa, Cony já tinha deixado um mapa de ficção urbana carioca: Matéria de Memória, Antes, o Verão, Balé Branco. Pessach: a travessia (1967) meteu o intelectual Paulo Simões no dilema da luta armada, no Brasil de 1966, quase véspera do AI-5. Pilatos, lançado em 1974, foi o livro que o próprio autor chamou de favorito: sátira escatológica de um homem que perambula pelo Rio com o próprio membro amputado num vidro de compota. Otto Maria Carpeaux chamou o romance de originalíssimo. Depois dele, Cony largou a ficção por 21 anos.
Voltou em 1995 com Quase memória, escrito nas noites em que cuidava da cadela Mila, gravemente doente. O “quase romance” parte de um envelope com a letra do pai morto e vendeu mais de 400 mil exemplares. Ganhou o Prêmio Jabuti e o Livro do Ano. A avalanche seguinte trouxe O Piano e a Orquestra (Prêmio Nestlé, 1997), A casa do poeta trágico (Jabuti, 1997) e Romance sem palavras (Jabuti, 2000). Em 1996, a ABL deu a ele o Machado de Assis pelo conjunto da obra. Em 1998, o governo francês o condecorou com a Ordre des Arts et des Lettres.
- O Ventre (1958) — estreia recusada e depois publicada, retrato áspero da classe média carioca.
- O ato e o fato (1964) — crônicas do golpe, no calor da hora.
- Pessach: a travessia (1967) — o intelectual diante da luta armada.
- Pilatos (1974) — o livro que o autor escolheu como o seu.
- Quase memória (1995) — o pai, o Rio antigo e o retorno à ficção.
Folha, televisão, rádio e a cadeira 3
Entre 1985 e 1990, Cony dirigiu a teledramaturgia da Rede Manchete e deixou marca na primeira minissérie da emissora, Marquesa de Santos, no projeto de Dona Beija e na ideia original de Kananga do Japão, com Adolpho Bloch. Em março de 1993, a convite de Jânio de Freitas, assumiu a coluna “Rio” da Folha de S.Paulo, no lugar de Otto Lara Resende. Escreveu no jornal até a morte e integrou o conselho editorial. Na CBN, comentou rádio até o fim da vida.
Em 23 de março de 2000 foi eleito para a cadeira 3 da Academia Brasileira de Letras, patrono Artur de Oliveira, quinto ocupante, recebido por Arnaldo Niskier em 31 de maio. No discurso de posse, citou Eça de Queirós e se definiu como “anarquista entristecido, humilde e inofensivo”: sem disciplina para a esquerda, sem firmeza para a direita, sem a imobilidade do centro. Sucedeu Herberto Sales; depois de 2018, a cadeira passou a Joaquim Falcão.
Debilitado por um câncer linfático diagnosticado em 2001 e por um coágulo após uma queda na Feira do Livro de Frankfurt em 2013, Cony morreu no Hospital Samaritano, no Rio, por falência de órgãos depois de cirurgia no intestino. O velório ficou reservado à família. A cremação foi no Memorial do Carmo. Marco Lucchesi, então presidente da ABL, falou em “nome certo para o Nobel” e em continente literário sagaz. O epitáfio que o próprio Cony imaginou era recusa: “Aqui não jaz Carlos Heitor Cony.”
Por que ainda se busca Cony
Buscar Carlos Heitor Cony em 2026, no ano em que ele completaria cem anos, é buscar o cronista que escreveu o golpe sem esperar o arquivo, o filho que pediu desculpas ao pai em forma de romance e o profissional que tratou a frase como ofício diário. Para quem chega agora, quatro portas bastam: as crônicas de O ato e o fato, o dilema de Pessach, o delírio de Pilatos e o afeto seco de Quase memória. O resto — seminário, Manchete, Folha, CBN, fardão da ABL — explica como um menino de fala travada virou uma das vozes mais lidas da prosa brasileira do século XX.





