Quase memória é o livro que reconduziu Carlos Heitor Cony à ficção depois de mais de duas décadas afastado do romance. Publicado em 1995, o “quase romance” parte de um envelope gordo, com letra e perfume que o narrador reconhece como do pai morto havia dez anos. Daí em diante, o texto transita entre lembrança, invenção e crônica de um Rio que o próprio autor descreveu como “um mundo que acabou”.
O centro da narrativa é Ernesto Cony Filho, jornalista de redação modesta, sonhador de grandes feitos para “amanhã” e figura quixotesca no relato do filho. Cony não esconde o tom quase cruel: o pai atola-se nos próprios sonhos, desfaz-se deles e inventa outros. O efeito, porém, não é acerto de contas. É elegia. A crítica e o próprio autor falaram em pedido de desculpas pelo desprezo que o filho alimentara em relação àquele homem pitoresco.
Como o livro nasceu
A volta à ficção não veio de um plano editorial. Em 1995, Cony passou noites em claro cuidando da cadela Mila, gravemente doente. Nessas madrugadas, em cerca de três semanas, escreveu o livro. Mila morreu pouco antes do fecho e recebeu a dedicatória. A coincidência importa porque explica o tom: urgência afetiva, sem o projeto de “obra-prima” que ele mesmo dizia não perseguir.
O êxito foi imediato. A edição ultrapassou 400 mil exemplares, ganhou o Prêmio Jabuti e o Livro do Ano da Câmara Brasileira do Livro em 1996. Para um autor que tinha prometido abandonar o romance depois de Pilatos, o público reabriu a porta. Vieram, em sequência, O Piano e a Orquestra, A casa do poeta trágico e outros títulos da segunda avalanche ficcional, já na casa dos setenta anos.
Para quem faz sentido
O livro serve a quem quer Cony sem a tensão política de 1964 e sem o grotesco de Pilatos. É porta de entrada afetiva: pai e filho, Copacabana e Lins de Vasconcelos, o Rio capital federal, o jornalismo de pequeno porte, o compadrio de uma cidade que ainda não tinha virado metrópole violenta no relato do narrador. Quem lê procura também a fronteira que o subtítulo anuncia — quase memória, quase romance — e o prazer de uma prosa lírica com ironia, sem pieguice.
Não é biografia. Cony mistura dado autobiográfico e invenção de propósito, e o leitor que tentar “conferir” cada episódio perde o jogo. A edição da Nova Fronteira, no acervo do autor, mantém o texto acessível em capa comum. Quem prefere o fluxo contínuo da crônica vai reconhecer o pulso; quem chega da ficção contemporânea encontra um livro curto, de 240 páginas nesta edição, que se lê em poucos fôlegos e deixa o pai sentado na memória.




