Pilatos é o romance que Carlos Heitor Cony escolheu como o seu. Publicado em 1974, depois de um ano de dificuldade para editar o texto, o livro narra o périplo de um homem atropelado, mutilado no hospital sem explicação convincente e lançado ao submundo do Rio carregando o próprio membro amputado num vidro de compota — a quem dá o nome de Herodes. A primeira edição, de cinco mil exemplares, esgotou-se depressa. Otto Maria Carpeaux chamou o livro de originalíssimo, “sem semelhança com nenhuma outra obra da literatura brasileira”.
O título aponta para Pôncio Pilatos. Cony lava as mãos: depois deste romance, abandonou a ficção por 21 anos. Dizia que Pilatos era a única obra que o expressava por inteiro, a visão de mundo com a qual pretendia morrer. Não é declaração de modestia. É recusa. O livro chuta o pau da barraca à esquerda e à direita, no momento em que o autor já trabalhava no grupo Bloch e carregava a fama ambígua de quem combatéra o golpe em 1964 e agora ocupava uma “prisão de luxo” editorial.
Grotesco, humor e ditadura
A trama parece inviável de propósito. O anti-herói foge do hospital com medo de ser assassinado, perambula por um Rio subterrâneo e cruza tipos marginalizados, violência policial e uma galeria de personagens que leitores costumam citar pelo nome — o Grande Arquimandrita, o velho Sic Transit. Há histórias dentro da história: um personagem escreve contos e os lê ao protagonista. Mário da Silva Brito falou em grotesco à la Goya, mordacidade à Daumier, parábola escrita “antes com sangue e lágrimas do que com riso”.
Por baixo da escatologia, o livro lê a sociedade brasileira dos anos 1970. Militares aparecem com frequência, e o que fazem na cena raramente é heroico. O humor sarcástico atenua e, ao mesmo tempo, deixa passar a crítica ao regime. Quem busca “o Cony engajado” de O ato e o fato encontra aqui outro instrumento: a farsa, não a crônica datada. Quem busca o Cony lírico de Quase memória pode se chocar. O próprio autor avisou: história “completamente louca, inviável”. Há leitor que ri alto em público; há leitor que recua diante do mau gosto deliberado.
Edição e quem deve ler
A sétima edição da Nova Fronteira (2020) tem 248 páginas e é o volume corrente em capa comum. O livro foi adaptado para o teatro por Mário Prata (1988) e por Roberto Barbosa (1995), sinal de que a fábula atravessou o papel. Serve a quem já conhece o cronista e quer o romancista no extremo; a quem interessa a prosa brasileira capaz de juntar pornografia, sátira política e picaresca urbana sem pedir licença.
Não é porta de entrada. Se a primeira leitura de Cony for Pilatos, o risco é tomar o autor por um único gesto de choque. Melhor chegar aqui depois das crônicas ou de Quase memória, quando o nome já tem chão. Aí o vidro de compota deixa de ser anedota e vira o que Cony queria: um homem lavando as mãos, e mesmo assim escrevendo.




