Pessach: a travessia é o romance em que Carlos Heitor Cony meteu a ficção no miolo político dos anos 1960. Publicado em 1967, o livro se passa em 1966, dois anos depois do golpe militar e quase na véspera do AI-5. O protagonista Paulo Simões, alter ego do autor, começa a contar a história no dia do próprio quadragésimo aniversário e, sem pedir, é arrastado para um conflito que o tira da rotina de escritor ocupado com encomenda, amante, ex-mulher, filha e pais idosos.
O título biblico não é ornamento. Pessach é a Páscoa judaica, a travessia. Cony usa o rito para falar de passagem: do intelectual burguês para o homem que precisa decidir se entra ou não na luta armada. A orelha da primeira época veio com texto de Leandro Konder, então ligado à política cultural do PCB. O romance, no entanto, é crítico em relação ao papel daquela organização no enfrentamento ao regime — o que gerou debate na estreia e de novo na reedição de 1997, quando o autor falou em boicote de jornalistas e intelectuais comunistas, versão contestada por Ferreira Gullar e pelo próprio Konder.
O que o livro discute de fato
Não é panfleto. A primeira parte acompanha o cotidiano de Paulo — visitas inconvenientes, reencontros, o editor, o amigo misterioso Sílvio, a presença de Vera — com o andamento de romance existencialista que Cony já praticava desde O Ventre. A virada política chega como intromissão da história no privado. Sexo, violência e ação aparecem, mas o dilema central é outro: o escritor que vive do próprio trabalho consegue, ou deve, trocar a mesa pela militância clandestina?
Cony disse, em entrevista, que todos os personagens “têm por trás deles uma figura real”. Isso não transforma o livro em chave roman. Transforma-o em laboratório: o intelectual de esquerda, o militante, a mulher que empurra a travessia, o Estado que já prendeu o cronista seis vezes. Para o Instituto Vladimir Herzog, o romance traz “os dilemas e as estratégias políticas da esquerda que ingressou na luta armada”.
Edição, público e leitura hoje
A edição da Nova Fronteira (2021) tem 336 páginas e registra revisão do autor, com mudança de final em relação a edições antigas — ponto que leitores da terceira compra do mesmo título costumam notar. Serve a quem quer entender a literatura brasileira de resistência sem cair em hagiografia da guerrilha, e a quem já leu as crônicas de O ato e o fato e quer ver o mesmo homem testando o problema no romance.
Não é o livro mais suave de Cony. Quem busca o afeto de Quase memória pode estranhar o ritmo épico e a carga política. Quem busca o Brasil de 1966 em primeira pessoa, com dúvida moral em vez de cartilha, encontra aqui o título certo. O caminho de compra mais estável hoje é a capa comum da Nova Fronteira.




