Contexto e proposta de Batman não foi a Búzios
Publicado pela editora 7 Letras em 2016, Batman não foi a Búzios reúne contos que usam episódios da história brasileira recente como ponto de partida para tratar de enganos, mal-entendidos e desencontros das relações humanas. É um livro de ficção, mas escrito por alguém que passou décadas cobrindo política e conhecia de perto os bastidores que transforma em matéria literária.
O conto que dá título ao volume se passa na madrugada de 31 de março de 1964, quando um encontro amoroso e uma tentativa de conquista servem de analogia para as relações internacionais que se tramavam por trás do golpe militar. A história também ilumina, em chave ficcional, a dinâmica política do Brasil que se formou depois daquela data.
O que o leitor encontra nos contos
Além da narrativa que abre o livro, o volume reúne histórias de registros bem diferentes. Em uma delas, um desastre ferroviário ocorrido nos anos 1930 funciona como pano de fundo para as lembranças do narrador. Em Não se mate, por favor, diálogos telefônicos rápidos e urgentes traduzem, com humor, a dificuldade de comunicação entre as personagens. Em As feras, uma farra de sexo e violência esconde uma vingança macabra. A variedade de tons é uma das marcas do livro.
Por que ler Batman não foi a Búzios
O livro interessa a quem gosta de ficção brasileira que dialoga com a história sem abrir mão da linguagem literária. Sandroni escreve contos de leitura fluida, mas construídos sobre um repertório de repórter: datas, episódios e figuras reconhecíveis aparecem transformados em situações ficcionais, sem didatismo. É também uma porta de entrada para a obra do autor, porque condensa, em poucas páginas, os temas que ele perseguiu em toda a carreira — o poder, a memória e os mal-entendidos entre as pessoas.
Um título que virou pergunta
O nome do livro costuma despertar curiosidade: por que Batman não foi a Búzios? A resposta está no jogo de referências que atravessa os contos, em que elementos da cultura pop e da política brasileira se cruzam para produzir sentido. Sandroni gosta de partir de uma imagem aparentemente banal e deslocá-la até que ela revele outra coisa — um método que aprendeu justamente na crônica, gênero em que o detalhe do dia ilumina algo maior.
Onde o livro se encaixa na obra do autor
Publicado depois de A arte de mentir e de uma longa carreira como biógrafo, Batman não foi a Búzios fecha um ciclo em que Sandroni revisita a própria memória da profissão. A ficção dele nasce da experiência de quem esteve perto dos acontecimentos e escolheu, mais tarde, contá-los de outro jeito: é ficção, mas com o lastro de quem conheceu os bastidores que descreve.
Para leitores que já conhecem a produção de Sandroni como jornalista e biógrafo, Batman não foi a Búzios mostra o mesmo observador atento, agora inteiramente entregue à ficção.





