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A Casa da Paixão

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Romance de 1972 sobre desejo, corpo e liberdade feminina, premiado pela APCA e relançado pela Record.

Publicado em 1972, no meio da ditadura militar, A Casa da Paixão é o romance em que Nélida Piñon empurra o erotismo para o centro da frase. A protagonista Marta atravessa o desejo como quem atravessa uma casa sem dono aparente: quartos, corpos, interditos, a mãe que não conheceu, o pai, o campo. O livro levou o Prêmio Mário de Andrade da APCA como melhor prosa de ficção do ano seguinte e continua a ser, ao lado da saga de 1984, o título mais citado quando se fala da ousadia da autora.

Não é um romance “sobre sexo” no sentido de catálogo. A paixão do título é linguagem, transgressão e recusa do papel doméstico que a época reservava à personagem feminina. A reedição portuguesa recente, pela Temas & Debates, lembrou o contexto dos anos de chumbo e leu a emancipação sexual de Marta também como resposta a uma violência de origem. A leitura é de prefácio, não de enredo a antecipar: o que o texto brasileiro da Record devolve ao leitor é a prosa densa, sensorial, sem pedir licença.

Por que este romance ainda é lido

Porque ocupa um lugar que poucos livros brasileiros dos anos 1970 ocuparam com a mesma clareza: o corpo da mulher como matéria narrativa, não como enfeite ou escândalo. A crítica da época reconheceu o feito. O leitor de agora encontra um texto que não envelheceu por recato — envelheceu, se tanto, pela densidade da frase, que pede leitura lenta.

A edição Record em circulação traz a capa com a fenda iluminada de um cânion, metáfora visual óbvia e eficaz. O romance é mais curto do que A República dos Sonhos e, por isso, costuma ser boa porta para quem quer a autora sem o compromisso da saga. Também é o livro em que a liberdade feminina deixa de ser tema de ensaio e vira encenação: Marta não discursa sobre emancipação; ela a pratica, com custo.

Para quem faz sentido

Para quem busca a Nélida Piñon anterior à ABL, anterior aos prêmios ibéricos, ainda romancista de risco. Para leitores de prosa erótica que não confundem erotismo com cena fácil. Para cursos de literatura brasileira contemporânea que precisam de um título de mulher, publicado sob censura, que não seja só “resposta ao machismo” e sim um artefato de linguagem.

Quem chega pela biografia institucional da Academia pode se surpreender: a imortal do fardão verde é a mesma que, em 1972, escreveu um dos romances mais desassombrados do período. A tensão entre as duas imagens é parte do interesse do livro, não um defeito de percurso.

Relação com o restante da obra

A Casa da Paixão não é ensaio geral da carreira. É um nó. Dali saem o interesse pelo corpo, pela voz feminina que não pede vênia e pela frase que se enrola até achar o osso. Vozes do Deserto, décadas depois, retomará a mulher que narra para não morrer. Sherazade e Marta não são a mesma personagem, mas habitam o mesmo problema: o que uma mulher pode fazer com a palavra quando o poder ao redor é masculino e violento.

A rota de leitura em português do Brasil é a edição Record, em capa comum. É a mesma obra de 1972, não uma versão revista com outro título. Quem quiser o contexto da autora além do romance encontra a página da Academia e o conjunto das reedições da Record; o livro, em si, se aguenta sozinho.

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Saga familiar de 1984 sobre imigrantes galegos no Rio de Janeiro, considerada a obra central de Nélida Piñon.
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Vozes do Deserto
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Romance de 2004 que reescreve Sherazade e as Mil e Uma Noites, Jabuti de romance e livro do ano em 2005.
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Último romance inédito de Nélida Piñon, épico de 2020 ambientado no Portugal do século XIX, publicado pela Record.
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