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Um Dia Chegarei a Sagres

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Último romance inédito de Nélida Piñon, épico de 2020 ambientado no Portugal do século XIX, publicado pela Record.

Nélida Piñon passou dezesseis anos sem publicar romance inédito depois de Vozes do Deserto. Um Dia Chegarei a Sagres, lançado em 2020 pela Record, chegou portanto como acontecimento: 512 páginas, Portugal do século XIX, um narrador chamado Mateus e a obsessão de chegar a Sagres, o cabo onde o Infante D. Henrique fixou o mito da partida. O livro é o último romance que a autora viu sair em vida.

Mateus é filho de meretriz e neto de pai desconhecido. Quem o cria é o avô Vicente, cético, memória do campo português. Quando Vicente morre e a represa sobe, o neto parte. Camões funciona como norte; a aldeia, como origem que não larga. No caminho entram Amélia, a mulher do Oriente, o Tejo visto da colina de São Jorge, o sexo como instinto, Deus como presença, os animais como coisa sagrada. A Record apresenta o volume como um novo A República dos Sonhos invertido: agora o destino não é o Brasil, é o próprio Portugal profundo.

O que o épico tardio tenta

Tenta narrar a história de uma civilização na saga de um indivíduo. Mateus não é herói de manual das descobertas; é camponês que carrega o sonho da partida sem o navio pronto. A prosa é a da autora madura: longa, oral, às vezes cerimonial. Há leitores que apontam problemas de revisão na primeira edição — conectivos faltando, palavras trocadas. O reparo é de edição, não de projeto: o livro quer ser fôlego, não folhetim limpo.

Sagres, no título, é lugar e fantasia. Chegar ali é menos geografia do que herança: o legado do Infante, a memória de Vicente, a necessidade de se lançar. Quem leu a saga galega de 1984 reconhece o gesto. A diferença é o vetor. Lá, o jovem deixa a aldeia rumo ao Rio. Aqui, o neto atravessa um Portugal que já não existe do jeito que a memória pinta.

Para quem vale a leitura

Para quem já acompanhou Nélida Piñon e quer o fechamento da ficção longa. Para leitores de romance histórico que aceitam história como clima, não como aula. Para quem se interessa pela relação da autora com a Península Ibérica — Galícia, Espanha, Portugal — depois dos prêmios de Oviedo, Santander e Santiago de Compostela. Não é a melhor porta de entrada: o leitor novo entende mais se começar por A República dos Sonhos ou por A Casa da Paixão.

Em sala de aula, o livro interessa como documento de estilo tardio e como diálogo com Camões e com o mito das navegações, sem virar ufanismo. O Portugal de Mateus é seco, ritual, às vezes cruel. A viagem não redime por decreto.

Lugar na obra e edição

É o último romance. Isso pesa na leitura e não precisa ser disfarçado. Depois viriam memórias póstumas, não outra ficção de fôlego. Um Dia Chegarei a Sagres fecha o arco que começou no Rio de uma família galega e termina no campo português de um neto sem pai. A Record o mantém em capa comum, ISBN 978-65-5587-112-8, com a capa de rocha fendida que já virou a imagem pública do volume.

A rota de compra em português do Brasil é a edição Record correspondente a esse ISBN. É o romance de 2020, não uma reedição de título antigo. Quem quiser o conjunto da autora deve tratar este livro como fecho, não como resumo.

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Saga familiar de 1984 sobre imigrantes galegos no Rio de Janeiro, considerada a obra central de Nélida Piñon.
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A Casa da Paixão
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Romance de 1972 sobre desejo, corpo e liberdade feminina, premiado pela APCA e relançado pela Record.
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