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Nélida Piñon

Nélida Cuíñas Piñón

Nascimento: 1937 Rio de Janeiro, RJ
Escritora carioca de origem galega, primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras e autora de A República dos Sonhos.

O prenome Nélida é anagrama de Daniel, o avô materno. A escritora nasceu no Rio de Janeiro, filha de Lino Piñón Muíños e Olivia Carmen Cuíñas Morgado, família galega do concelho de Cotobade, e passou décadas devolvendo essa origem em prosa: tratou essa origem como matéria de linguagem, memória e poder, longe do folclore de imigração.

Quem busca Nélida Piñon hoje costuma querer o retrato da primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, no centenário da casa, e um caminho até A República dos Sonhos, a saga de 1984 que ainda organiza a leitura pública da obra. A trajetória, o lugar na Academia e as portas de entrada para os livros cabem juntos: a obra explica a instituição, não o contrário.

Quem foi Nélida Piñon

Nélida Cuíñas Piñón foi romancista, contista, ensaísta e professora brasileira, com circulação internacional rara entre autoras de língua portuguesa da segunda metade do século XX. Estreou em 1961 com Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, formou-se em jornalismo na PUC-Rio e construiu um catálogo de romances, contos, memórias, crônicas e ensaios traduzido em dezenas de países.

Morreu em Lisboa em 17 de dezembro de 2022. A notícia correu no Brasil e no exterior como a perda de uma das vozes centrais da prosa contemporânea em português. O presidente da ABL à época, Merval Pereira, chamou-a de a maior escritora viva do país. O juízo é de homenagem, não de ranking: o que se mede com mais segurança é a combinação de obra longa, prêmios de peso e um lugar institucional que ela mesma deslocou.

  • Nasceu no Rio de Janeiro em 1937, em família de origem galega.
  • Estreou em romance em 1961 e publicou até 2020, com Um Dia Chegarei a Sagres.
  • Ocupou a cadeira 30 da ABL a partir de 1990, na sucessão de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
  • Presidiu a Academia entre 1996 e 1997, no I Centenário, primeira mulher no cargo em cem anos.
  • Recebeu, entre outros, o Prêmio Juan Rulfo (1995), o Príncipe de Astúrias das Letras (2005) e o Jabuti por Vozes do Deserto.

Origem galega, Rio de Janeiro e formação

A infância carioca de Nélida Piñon é indissociável da Galícia. O pai era imigrante de primeira geração; a mãe, filha de galegos. Ainda menina, vendia histórias curtas ao pai e aos parentes. O ofício aparece cedo, mas o material que a tornaria reconhecível viria depois: a tensão entre a aldeia de origem e o Brasil que absorve o imigrante, entre o português escrito e o eco de outra língua familiar.

Formou-se no curso de jornalismo da Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Trabalhou em redações, inclusive em O Globo e na revista Cadernos Brasileiros, e ocupou conselhos editoriais no Brasil e no exterior. A formação jornalística não a transformou em cronista de rotina; deu-lhe disciplina de frase e um hábito de circulação pública que a ficção sozinha não explicaria.

Em 1969, inaugurou e ocupou, por três semestres, a cadeira de Criação Literária da Faculdade de Letras da UFRJ. Mais tarde seria visiting writer em Columbia, Johns Hopkins, Harvard e Georgetown, titular da Cátedra Henry King Stanford em Humanidades na Universidade de Miami (1990–2003) e, em 2015, primeira brasileira a ocupar a Cátedra José Bonifácio na USP. A sala de aula acompanhou a obra, sem substituí-la.

Da estreia em 1961 à consagração da prosa

Guia-mapa de Gabriel Arcanjo abriu a carreira com pecado, perdão e a conversa de uma mortal com o anjo da guarda. Nos anos seguintes vieram Madeira Feita Cruz (1963), Fundador (1969, Prêmio Walmap) e, em 1972, A Casa da Paixão, que levou o Prêmio Mário de Andrade da APCA e firmou um erotismo sem disfarce numa literatura ainda vigiada pela ditadura.

A década de 1970 também reserva volumes de contos como Sala de Armas e O Calor das Coisas, além de romances que testam o fôlego da autora para o teatro da linguagem. O salto de visibilidade, porém, chega em 1984 com A República dos Sonhos: Madruga deixa a Galícia, desembarca no Rio, constrói fortuna e fracasso, e a neta Breta reconstitui a família como quem reconstitui o século. A crítica brasileira reconheceu o livro no ano seguinte, com APCA e PEN Clube. A Record o manteve em catálogo, inclusive em edição comemorativa de trinta anos.

Depois vieram A Doce Canção de Caetana (1987), o infantojuvenil A Roda do Vento, o romance Vozes do Deserto (2004), recriação de Sherazade que levou o Jabuti de romance e de livro do ano em 2005, as memórias de Coração Andarilho e O Livro das Horas, e o épico tardio Um Dia Chegarei a Sagres (2020), ambientado num Portugal do século XIX. O último volume de memórias, Os Rostos que Tenho, saiu póstumo em 2023.

A Academia Brasileira de Letras e o centenário

Eleita em 27 de julho de 1989 para a cadeira de patrono Pardal Mallet, Nélida Piñon tomou posse em 3 de maio de 1990, recebida por Lêdo Ivo. No discurso, falou de paixão da linguagem e de fidelidade à imaginação. O detalhe importa porque antecipa o que ela faria da cadeira: não um ornamento, e sim um palco de política cultural.

Entre 1996 e 1997 presidiu a ABL no I Centenário. Foi a primeira mulher no cargo em cem anos de instituição, e a ABL registra o feito como o de primeira mulher a presidir uma academia de letras no mundo. O marco ganha sentido ao lado de outro: Rachel de Queiroz havia sido, em 1977, a primeira mulher eleita para a casa. Nélida não inaugurou a presença feminina; deslocou o poder interno.

Também foi acadêmica correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, entrou na Real Academia Galega em 2014 e ocupou a cadeira 51 da Academia Brasileira de Filosofia. Em Cotobade, terra dos ancestrais, inauguraram-se o Prêmio de Relato Breve Nélida Piñon e a Casa de Cultura com o seu nome. A ponte Brasil–Galícia deixou de ser só tema de romance.

Prêmios, cátedras e circulação internacional

A lista de láureas é longa e, em vários casos, inaugural para a língua portuguesa. O Prêmio Juan Rulfo de Literatura Latino-Americana e do Caribe, em 1995, foi pela primeira vez a uma mulher e a um autor de língua portuguesa; a laudatio ficou a cargo de Carlos Fuentes. O Prêmio Ibero-Americano de Narrativa Jorge Isaacs (2001) e o Internacional Menéndez Pelayo (2003), este com laudatio de Mario Vargas Llosa, repetiram o padrão: primeira mulher, primeiro nome em português.

Em 2005, o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras, em Oviedo, colocou-a na reta final ao lado de Paul Auster, Philip Roth e Amos Oz. Foi o primeiro escritor de língua portuguesa a recebê-lo. No mesmo ano, Vozes do Deserto levou o Jabuti. Também recebeu o Puterbaugh Fellow da Universidade de Oklahoma, o Casa de las Américas por Aprendiz de Homero e o português Vergílio Ferreira, em 2018. Em 2021, obteve nacionalidade espanhola por carta de natureza.

A circulação universitária — Miami, Harvard, Columbia, a cátedra Julio Cortázar e Alfonso Reyes no México, a Residencia de Estudiantes em Madri — explica por que o nome aparece tanto em dicionários de literatura latino-americana quanto em programas de pós-graduação brasileiros. A obra de Nélida Piñon não ficou presa ao circuito doméstico da literatura escolar, embora A República dos Sonhos e A Casa da Paixão também habitem esse circuito.

Por onde começar a ler Nélida Piñon

Para quem chega pela reputação institucional, A República dos Sonhos continua a porta mais nítida: saga familiar, imigração galega, Rio de Janeiro e o Brasil do século XX vistos de dentro de uma linhagem. Quem quer o choque da prosa dos anos 1970 encontra em A Casa da Paixão o livro da liberdade do corpo e da linguagem. Vozes do Deserto serve a quem prefere um romance de fôlego com chave oriental e uma narradora que usa a palavra contra o poder. Um Dia Chegarei a Sagres é o épico tardio, Portugal profundo, Camões no horizonte e a aldeia como destino.

Há ainda os contos, as memórias e os ensaios. A Record reuniu boa parte do catálogo em reedições recentes. O essencial é não tratar a obra como escada única: cada livro pede um tipo de atenção, e a autora não escreveu para caber em resumo de vestibular. No campo das escritoras brasileiras do século XX, o diálogo mais imediato é com nomes como Clarice Lispector e Rachel de Queiroz — não por estilo comum, e sim porque as três deslocaram o que se esperava da prosa de mulher no país.

Perguntas frequentes sobre Nélida Piñon

Nélida Piñon foi a primeira mulher da Academia Brasileira de Letras?

Não. A primeira mulher eleita para a ABL foi Rachel de Queiroz, em 1977. Nélida Piñon foi a primeira a presidir a Academia, entre 1996 e 1997, no centenário da instituição.

Qual livro de Nélida Piñon ler primeiro?

Depende do objetivo. A República dos Sonhos é a obra mais citada e a que melhor explica a relação da autora com a imigração galega e o Brasil. A Casa da Paixão é mais curta e mais densa de erotismo. Vozes do Deserto interessa a quem quer o Jabuti e a reescrita de Sherazade.

Onde Nélida Piñon morreu?

Em Lisboa, em 17 de dezembro de 2022. Estava internada para tratamento da vesícula, sofreu complicações após cirurgia e não resistiu. O sepultamento, segundo a ABL, seria no mausoléu da Academia.

Para a biografia institucional, a página da Academia Brasileira de Letras reúne posse, prêmios e a lista de obras. Os livros em circulação da Record continuam a ser a melhor porta para a prosa em si.

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Projetos de Nélida Piñon

A República dos Sonhos
A República dos Sonhos
Saga familiar de 1984 sobre imigrantes galegos no Rio de Janeiro, considerada a obra central de Nélida Piñon.
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A Casa da Paixão
A Casa da Paixão
Romance de 1972 sobre desejo, corpo e liberdade feminina, premiado pela APCA e relançado pela Record.
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Vozes do Deserto
Vozes do Deserto
Romance de 2004 que reescreve Sherazade e as Mil e Uma Noites, Jabuti de romance e livro do ano em 2005.
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Um Dia Chegarei a Sagres
Um Dia Chegarei a Sagres
Último romance inédito de Nélida Piñon, épico de 2020 ambientado no Portugal do século XIX, publicado pela Record.
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