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Vozes do Deserto

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Romance de 2004 que reescreve Sherazade e as Mil e Uma Noites, Jabuti de romance e livro do ano em 2005.

Sherazade casa com o califa para interromper a série de noites que terminam em morte. A aposta é a palavra: se a história não acabar, a mulher não morre, e as outras mulheres do reino também não. Vozes do Deserto, publicado em 2004 pela Record, parte desse núcleo milenar das Mil e Uma Noites e faz o que a tradição oriental em geral não fez: entra na cabeça da narradora, na irmã Dinazarda, na escrava Jasmine e no tédio do soberano que já não se satisfaz com o sexo mecânico da noite nupcial.

O livro levou o Prêmio Jabuti em 2005 nas categorias romance e livro do ano. Alfredo Bosi, na orelha, escreveu que Nélida vê por dentro a mulher de quem a criação oriental deixara só o vulto entre as dobras do véu. António Mega Ferreira chamou o romance de um dos mais belos escritos em língua portuguesa neste princípio de século. São juízos de apresentação, não de resenha: o que o leitor encontra é um texto longo, ritual, cheio de vozes do deserto — no sentido literal e no sentido de origem da fábula.

O que muda em relação às Mil e Uma Noites

A coleção clássica entrega o conto. Nélida Piñon entrega a contadora. Sherazade aqui é filha do vizir, a jovem mais brilhante da corte, e não acredita que o poder do califa possa determinar o fim da imaginação. O sexo imposto não cansa o soberano tanto quanto a sede da palavra inacabada. É esse desejo de ouvir o próximo capítulo que salva a narradora. A tese é antiga; a encenação é da autora: o palácio, o deserto, a irmã prudente, a escrava que traz a mina da fantasia popular.

A edição Record de 2021, com cerca de 400 páginas, é a via em circulação no Brasil. Não se trata de um livro infantil nem de uma “versão acessível” das Noites. A prosa pede fôlego, como a de A República dos Sonhos, embora o cenário tenha mudado de continente. Quem espera enredo de aventura oriental no sentido de Disney se frustra. Quem quer ver uma romancista brasileira tomar um mito e devolvê-lo como disputa de gênero e de narrativa encontra o livro certo.

Para quem este romance funciona

Funciona para quem já leu Nélida Piñon e quer o título premiado do século XXI. Funciona para quem chega pelas Mil e Uma Noites e aceita uma reescrita adulta, lenta, sem nota de rodapé pedagógica. Funciona em sala de aula quando o tema é intertextualidade, voz feminina e o poder de narrar. Não funciona como resumo rápido nem como primeiro livro de quem só quer “conhecer a autora”: a porta mais nítida continua sendo a saga galega de 1984.

Lugar na carreira

Entre A República dos Sonhos e Um Dia Chegarei a Sagres, Vozes do Deserto é o romance que devolve Nélida Piñon ao centro do debate literário brasileiro no começo dos anos 2000. O Jabuti duplo e o Príncipe de Astúrias, no mesmo ano de 2005, fizeram da autora um nome de conjunto, não só de um livro. Sherazade, aqui, não é disfarce exótico: é a figura em que a autora concentra o que já vinha praticando desde os anos 1970 — a mulher que usa a linguagem contra o dono da noite.

A compra em português do Brasil aponta para a edição Record em capa comum. É o item correspondente ao romance de 2004, não uma antologia nem uma adaptação. Vale o texto integral, não o recorte escolar.

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