A cidadania das bonecas de pano empurra a pergunta para fora do quintal. Se Cabeça de galinha no chão de cimento voltou aos avós analfabetos de Bebedouro, este livro pergunta quem, no presente, chega a ser reconhecido como sujeito. Ricardo Domeneck o publicou pela Ars et Vita em maio de 2026, já com o Jabuti e o Alphonsus de Guimaraens no currículo.
O volume tem 128 páginas, 32 poemas, formato 13 por 22 centímetros, brochura, primeira edição, ISBN 978-85-66122-32-9. Integra a Coleção Polyphonia e traz posfácio de Maykson Cardoso. Não é reedição nem antologia de poemas velhos. A Quatro Cinco Um tratou os textos como inéditos e publicou três deles quando o livro chegou às livrarias, em 18 de maio de 2026.
O que os poemas fazem com a palavra cidadania
O título não descreve um brinquedo. A editora e as livrarias que anunciaram o lançamento leem as “bonecas de pano” como corpos feitos de retalho, costura e sobra: vidas tratadas como objeto, resto ou simulacro. A cidadania, no livro, deixa de ser só documento e passa a ser disputa de linguagem. Quem pode falar, herdar, aparecer.
Os registros mudam de poema para poema. A apresentação pública fala em elegia, sátira, oração profana, inventário doméstico, canto amoroso e crítica social. Um dos textos divulgados se chama “A Victor Heringer, que me volta em sonhos” e começa pela estranheza de ser justo aquele morto quem regressa, enquanto o pai segue morto até dentro do pesadelo. Infância, figura religiosa e família entram de novo, mas o enquadramento é outro: pertencimento, não só memória de sítio.
Onde o livro se separa do anterior
Não faz sentido comprar os dois à espera da mesma cena de galinha. O de 2023, na Editora 34, condensa a infância interiorana e ganhou os prêmios de 2024. O de 2026 radicaliza uma linha que a Ars et Vita resume como relação entre linguagem, corpo e pertencimento, com a cidadania construída no deslocamento entre vozes, territórios e regimes de visibilidade. O posfácio de Maykson Cardoso fica de fora da leitura apressada de orelha de rede social. Ele está no volume para situar essa potência no campo contemporâneo, não para repetir a biografia.
O lançamento no Rio foi presencial e gratuito, em 20 de maio de 2026, às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo, na Voluntários da Pátria. No mesmo mês, Domeneck esteve na programação de Poesia no Centro e d’A Feira do Livro, em São Paulo, de 30 de maio a 7 de junho. O livro nasceu circulando em praça, não só em depósito.
Quem encontra o que procura aqui
Serve a quem já leu o Jabuti e quer o passo seguinte, e a quem chega pela poesia política sem pedir panfleto. O corpo continua no centro, como na fase de Ciclo do amante substituível, mas a pergunta ficou mais larga: herança, exclusão, economia, religião, desejo. A Travessa resume o conjunto como investigação de como história, economia, religião e desejo atravessam a vida comum.
O exemplar à venda nas livrarias brasileiras é o da Ars et Vita. É esse volume, com os 32 poemas e o posfácio, que corresponde ao lançamento de 2026. Antologias estrangeiras e o livro premiado de 2023 respondem a outras procuras.



