Cabeça de galinha no chão de cimento pede leitura de memória, não de cartaz. O título fixa uma cena doméstica do interior: a ave sem cabeça no cimento, o corpo que ainda se mexe. Ricardo Domeneck publicou o livro em 2023 pela Editora 34 e, no ano seguinte, levou com ele o Jabuti de melhor livro de poesia e o Prêmio Literário da Biblioteca Nacional.
Quem já leu Ciclo do amante substituível ou Odes a Maximin encontra aqui outro eixo. A lírica amorosa não some, mas deixa de ser o cômodo principal. O livro volta à infância e à adolescência em Bebedouro, postas em contraste com a vida em Berlim. A Editora 34 descreve esse movimento como retorno às origens, aos ancestrais e a uma tentativa de entender o próprio lugar.
O que a dedicatória já entrega
O volume abre em memória dos quatro avós. A dedicatória, reproduzida em leitura acadêmica do livro, nomeia cada um e repete uma condição: analfabetos. Joan Domènech, avô paterno, aparece morto mais jovem do que o poeta era ao escrever, “enfartado no cabo da enxada”. Rosária Balthazar, avó materna, é a cozedora dos bolinhos de chuva. O dado não é cor local. Eduardo Sterzi, na orelha, trata o analfabetismo como núcleo da herança: o neto que vive das letras herda um saber que a modernização empurrou para a margem.
São 128 páginas, formato 14 por 21 centímetros, primeira edição, ISBN 978-65-5525-171-5, coleção Poesia. Uma leitura publicada em 2026 conta 36 poemas em sequência, sem divisões internas. A linha de força é a memória autobiográfica: a criança do interior relida pelo adulto que escreve de outro país.
Corpo, comida e bicho
Gustavo Silveira Ribeiro, no Estado de Minas de 18 de janeiro de 2025, chamou o conjunto de poesia dos corpos vulneráveis. A imagem do título funciona, no texto dele, como alegoria e como cena: galinhas desprotegidas, ritual cotidiano da fome familiar, e o poeta se reconhecendo nesse ciclo de presa e predador. Sabrina Sedlmayer, na revista Texto Poético, foi por outro corredor e chegou a um lugar parecido: a comida atravessa o livro, do título aos bolinhos da dedicatória, e a avó que torce o pescoço do frango não posa de carrasca. O gesto é tarefa da casa.
Sterzi puxa ainda o cafuné como herança que dura mais do que móvel e moeda, e nota a ambivalência quando o mesmo gesto reaparece no “cafuné do crânio da onça no crânio da capivara”. Bicho e planta entram como ancestral, não como ilustração. Há poema dirigido a Leonardo Fróes, “No sítio da terra pequena”, em que a nomeação de espécies vira teoria dentro do verso.
Para quem o livro serve
O leitor que chega pelo Jabuti encontra um livro de poesia contemporânea com endereço concreto: quintal, família, analfabetismo, Berlim ao fundo. Não é romance de formação nem coletânea de ocasião. É o ponto em que Domeneck, depois de uma dezena de livros e de antologias na Alemanha (Körper: ein Handbuch, 2013) e na Holanda (Het verzamelde lichaam, 2015), aceita o risco da memória familiar sem transformar o interior em cartão-postal.
Quem quiser o Domeneck da lírica homoerótica continua achando esse fio aqui, porque o erotismo atravessa o volume, como a própria editora registra ao citar Ribeiro: um campo de força para pensar gozo, lástima e contradição do tempo. Quem quiser só o prêmio, porém, perde o miolo. O diploma de 2024 confirma a leitura que a crítica já fazia desde a estreia de 2005. O livro novo é o quintal, não a medalha.
A edição à venda no Brasil é a da Editora 34. O exemplar físico é o caminho certo para quem quer a dedicatória, a sequência dos 36 poemas e a orelha de Sterzi, que já orienta a leitura antes do primeiro verso.



