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Ricardo Domeneck

Nascimento: 1977 Bebedouro, SP / Berlim, Alemanha
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Poeta, contista e ensaísta de Bebedouro, vive em Berlim desde 2002. O Jabuti de 2024 foi para Cabeça de galinha no chão de cimento.

“A única dignidade que me resta é poder me chamar de poeta brasileiro.” Ricardo Domeneck falou assim em 31 de maio de 2026, na Feira do Livro de São Paulo, numa conversa com o crítico Schneider Carpeggiani. O Jabuti e o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional, já estavam no currículo, ambos de 2024, pelos poemas de Cabeça de galinha no chão de cimento.

Quem procura o nome quase sempre quer saber de que lado ele escreve: se é o poeta do corpo e do desejo, o que voltou ao quintal do interior, ou o editor que passou anos dentro da revista Modo de Usar & Co. A resposta curta é que as três coisas convivem. Ele é poeta, contista e ensaísta, nascido em Bebedouro e estabelecido em Berlim, e o percurso cabe melhor na literatura brasileira contemporânea do que numa ficha de autor de um livro só.

Quem é Ricardo Domeneck

Ricardo Domeneck nasceu em 4 de julho de 1977, em Bebedouro, no interior de São Paulo. Vive e trabalha em Berlim desde 2002. A página da Editora 34, a da Ars et Vita e o verbete em português coincidem nesse recorte: interior paulista na origem, capital alemã como base de escrita, tradução e performance.

Na mesma conversa da Feira do Livro, ele contou uma casa em que os livros visíveis eram enciclopédias, até aparecer um dia O diário de Anne Frank. A virada de leitura, no relato dele, veio quando a mãe decidiu estudar pedagogia e levou para casa manuais escolares de literatura brasileira. Aos quinze anos, comprou Farewell, de Carlos Drummond de Andrade, e Eu e outras poesias, de Augusto dos Anjos. Não é um mito de vocação precoce montado depois do prêmio: é o que ele mesmo descreveu em público, já adulto, sobre o caminho até o primeiro livro.

O livro que já anunciava dois mundos

Carta aos anfíbios saiu em 2005 pela Bem-Te-Vi, no Rio. O título não era enfeite. Anos depois, a crítica da Quatro Cinco Um leu o estreante como um anfíbio: de um lado, poemas de tema público; de outro, uma lírica em que a boca de um homem aparece à porta de um deserto. Domeneck já estava na Alemanha quando o livro chegou às livrarias. O deslocamento não veio depois da circulação. A circulação, no circuito da poesia, veio com o deslocamento já feito.

O segundo livro, a cadela sem Logos (2007), entrou na coleção Ás de Colete, dirigida por Carlito Azevedo, numa parceria entre a Cosac Naify e a 7Letras. A mesma dobradinha publicou em 2009 Sons: Arranjo: Garganta, volume em que a montagem de textos alheios e o trânsito entre línguas pesam mais do que no livro anterior. São três publicações em cinco anos, com editoras de peso, antes de qualquer prêmio nacional grande.

Quando o lírico assumiu o centro

Cigarros na cama, plaquete de 2011, saiu pela Livraria Berinjela junto com a revista Modo de Usar & Co. No ano seguinte, a 7Letras publicou Ciclo do amante substituível. A editora descreve o volume como o quinto livro do autor: 72 textos escritos entre 2006 e 2011 em Budapeste, Buenos Aires, Lisboa, São Paulo e Berlim, numa poesia que mistura oralidade, escrita e performance. A edição espanhola, Ciclo del amante sustituible, saiu pela Kriller71, com tradução de Aníbal Cristobo.

Medir com as próprias mãos a febre (7Letras, 2015) leva adiante essa lírica e abre espaço para um monólogo dramático na voz de Ana Emília Solon Ribeiro, dita da Cunha, dita de Assis. Não é só poema de alcova. Há também uma voz emprestada, com nome de registro e sobrenome da história literária brasileira.

A prosa chegou em separado, sem substituir o verso. Manual para melodrama (7Letras, 2016) foi a estreia nesse registro. Sob a sombra da aboboreira (7Letras, 2017) reuniu contos. A Editora 34 resume a conta, na nota de autor, em dez volumes de poemas e dois de prosa até a altura de Cabeça de galinha, além da antologia Mesmo o silêncio gera mal-entendidos: antologia 2000-2020 (Garupa, 2021). No meio desse arco estão ainda Odes a Maximin (Garupa, 2018), Doze cartas (Garupa, 2019) e O morse desse corpo (7Letras, 2020).

O editor que também publica os outros

Entre 2007 e 2017, Domeneck foi coeditor da Modo de Usar & Co. com Marília Garcia, Angélica Freitas e Fabiano Calixto. A revista circulou como espaço de poesia e crítica, não como vitrine de um autor só. Ele também esteve nas revistas eletrônicas Hilda e Cabaret Wittgenstein, hoje extintas, e passou a editar a revista Peixe-boi.

O trabalho de edição não ficou na revista. Com Cide Piquet, preparou o volume póstumo de Hilda Machado, Nuvens (Editora 34, 2018). Com Guilherme Gontijo Flores, trouxe à luz um livro inédito de Maria Lúcia Alvim, Batendo pasto (Relicário, 2020). São gestos de arquivo: recuperar voz alheia, não só empilhar livro próprio.

  • Carta aos anfíbios (Bem-Te-Vi, 2005) abre o percurso publicado.
  • Ciclo do amante substituível (7Letras, 2012) concentra a lírica escrita entre várias cidades.
  • Cabeça de galinha no chão de cimento (Editora 34, 2023) levou o Jabuti e o prêmio da Biblioteca Nacional.
  • A cidadania das bonecas de pano (Ars et Vita, 2026) é o livro seguinte, já em circulação.

Voz, vídeo e outras línguas

Em dezembro de 2006, a TV Cultura exibiu o vídeo Garganta com texto. A partir daí, a escrita passou a dividir espaço com videoarte e performance. O Lyrikline, arquivo internacional de poesia falada, apresenta Domeneck como autor, tradutor e artista de spoken word e vídeo, e registra o nascimento em 4 de julho de 1977. O mesmo arquivo hospeda poemas dele com versões em alemão, inglês, espanhol e esloveno.

Fora do Brasil, a obra circulou em livro. A Verlagshaus publicou na Alemanha a antologia Körper: ein Handbuch (2013). Na Holanda, a Perdu lançou Het verzamelde lichaam (2015), seleção traduzida por Bart Vonck. O Ciclo ganhou versão castelhana. Em 2026, a Ars et Vita e a cobertura da Feira do Livro registram a tradução inglesa do primeiro livro, First Epistle to the Amphibians, por Chris Daniels. Não é um autor traduzido uma vez por cortesia de festival. Há volume em alemão, holandês, espanhol e inglês.

O quintal que voltou depois do prêmio

Cabeça de galinha no chão de cimento saiu em 2023 pela Editora 34, na coleção Poesia: 128 páginas, 14 por 21 centímetros, ISBN 978-65-5525-171-5. O livro é dedicado à memória dos quatro avós, e a dedicatória frisa o que eles tinham em comum: eram analfabetos. A crítica de Gustavo Silveira Ribeiro, no Estado de Minas de janeiro de 2025, leu o conjunto como poesia de corpos vulneráveis, da estreia até esse volume. A orelha de Eduardo Sterzi aponta o cafuné, a comida, os bichos e a herança do interior como matéria, não como cenário pitoresco. Em 2024 o livro venceu o Jabuti de melhor livro de poesia e o Prêmio Literário da Biblioteca Nacional, na categoria que a imprensa identifica como Alphonsus de Guimaraens.

O livro seguinte não repete o quintal. A cidadania das bonecas de pano, da Ars et Vita, chegou às livrarias em maio de 2026. São 128 páginas, 32 poemas, Coleção Polyphonia, com posfácio de Maykson Cardoso e ISBN 978-85-66122-32-9. O lançamento no Rio foi em 20 de maio de 2026, na Travessa de Botafogo. A editora e a Quatro Cinco Um descrevem o volume como uma investigação do corpo, da linguagem e de quem pode ser reconhecido como sujeito. Um dos poemas publicados em trecho se dirige a Victor Heringer. O prêmio de 2024 explica a procura; o livro de 2026 mostra que a escrita não parou no diploma.

Domeneck segue em Berlim, com blog próprio, presença no Instagram e leitura em festivais. O que o nome carrega, para quem chega agora, não é um cargo. É um conjunto verificável: interior paulista, duas décadas na Alemanha, revista editada com outros poetas, tradução em várias línguas e dois prêmios nacionais no mesmo ano, por um livro que começa nos avós que não sabiam ler.

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A cidadania das bonecas de pano
A cidadania das bonecas de pano
Coletânea de 2026 da Ars et Vita, com 32 poemas sobre corpo, linguagem e pertencimento. Posfácio de Maykson Cardoso.
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Ciclo do amante substituível
Ciclo do amante substituível
Quinto livro de Domeneck, 72 textos escritos entre 2006 e 2011 em várias cidades. Edição da 7Letras, 2012.
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