Ciclo do amante substituível é o livro em que Ricardo Domeneck segura por muitas páginas a lírica do corpo, do abandono e do amante, sem disfarçar o título no plural confortável de “os amores”. A 7Letras o publicou em 2012. A própria editora o apresenta como o quinto livro do poeta e tradutor paulista radicado em Berlim.
São 72 textos escritos entre 2006 e 2011. As cidades nomeadas na ficha da editora não são enfeite de contracapa: Budapeste, Buenos Aires, Lisboa, São Paulo e Berlim. O livro trabalha oralidade, escrita e performance no mesmo gesto e borra fronteira geográfica, linguística e artística. ISBN 978-85-7577-901-9. Não é plaquete nem reedição de Cigarros na cama, de 2011. É o volume longo que veio depois.
O que a série pede do leitor
O título insiste no artigo: o amante, não um amante qualquer. A crítica da época leu nisso uma trilha de biografemas, com o risco de o leitor achar que segue uma pessoa real até se perder. A Revista Continente notou que o livro abre com um texto em prosa, o único do conjunto, uma lista de perdas que funciona como prólogo e álibi. Há uma dedicatória a um Jannis que o leitor conhece demais e de menos. O artigo trata a obra como ficção que parece devedora de pessoas e fatos, sem virar relatório.
Anos mais tarde, a Quatro Cinco Um situou este livro, ao lado de Cigarros na cama e de Medir com as próprias mãos a febre, na fase em que Domeneck assume a vocação lírica, depois do experimentalismo mais ruidoso de Sons: Arranjo: Garganta. É um bom mapa. Quem quiser a montagem de textos alheios procura 2009. Quem quiser o quintal e o Jabuti procura 2023. Quem quiser a série amorosa escrita em trânsito procura este ciclo.
A vida do livro fora do Brasil
O volume não ficou só na 7Letras. Na Espanha, a Kriller71 publicou Ciclo del amante sustituible, tradução de Aníbal Cristobo, com prólogo de Eduard Escoffet. A Editora 34, ao apresentar Domeneck anos depois, registra essa edição castelhana ao lado das antologias alemã e holandesa. O livro brasileiro de 2012 é a matriz. A edição espanhola é outra língua e outra casa editorial, não um formato a mais da mesma prateleira.
Há também um retorno tardio a essa matéria. Odes a Maximin (Garupa, 2018) e, bem depois, Memorando: Maximin retomam o universo lírico que este ciclo ajudou a fixar. São livros distintos. Comprar o Ciclo não entrega as odes, nem o contrário. O de 2012 guarda os 72 textos do intervalo 2006-2011, com a prosa de abertura e a geografia das cidades onde foram escritos.
Como ler sem transformar o livro em fofoca
O prazer do volume está na precisão da frase e na oscilação entre ternura, ironia e desmanche. A Continente fala em sedução estética e em cuidado obsessivo com a palavra, contra a tentação de reduzir tudo a biografia. Isso combina com o que o próprio percurso mostra: Domeneck usa o corpo como material desde pelo menos o vídeo Garganta com texto, de 2006, e segue nisso na performance e na tradução. Aqui o corpo vira série, não tese.
A página da 7Letras é a ficha da edição original. O estoque oscila, como acontece com poesia de catálogo pequeno. O item certo continua sendo esse: quinta coletânea, 2012, 72 textos, antes do Jabuti e antes de A cidadania das bonecas de pano. É o livro que explica por que, durante anos, o nome circulou primeiro como poeta do amante e do corpo, e só depois como autor do quintal premiado.



