A odalisca e o elefante parte de uma pergunta que a própria editora coloca na capa da conversa com o leitor: como uma odalisca e um elefante branco podem ser um par. Pauline Alphen responde com um romance curto, escrito em português, sobre amor, poder e o jeito como uma história se reorganiza no desfecho. Não é tratado de Oriente nem ficha de harém. É a estreia dela na ficção.
O livro saiu em 1998 pela Companhia das Letras. A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil deu a ele o selo Altamente Recomendável na categoria jovem. A apresentação da época dizia que a autora, meio brasileira e meio francesa, jornalista e tradutora, morava em Paris e tinha 37 anos. Esse retrato é o de 1998. Serve para situar o lançamento, não para descrever onde ela vive hoje.
De onde veio a história
Perfis públicos ligam o romance a viagens sucessivas da autora ao Sri Lanka, à Índia e a Istambul. De uma delas ela voltou com a perna engessada. Imobilizada, imaginou o fascínio de uma jovem pelo elefante branco de um sultão. A sinopse da editora fala numa odalisca de orelhas perfeitas, num elefante enorme e num soberano que se apaixona. O nome Leila aparece nas apresentações de livreiros para a jovem do palácio. O elefante chega como presente. O que o livro sustenta, além do cenário, é o amor como enigma: as peças só se encaixam quando a narrativa chega ao fim.
A própria autora, em posfácio citado por estudos do texto, lembra que nenhuma história é uma ilha. O romance ecoa o costume de contar à maneira das Mil e Uma Noites, sem pedir que o leitor escolha uma idade única. A editora chega a dizer que a história serve a quem tem quinze ou setenta e cinco anos, desde que já tenha ouvido falar em amor. A ficha da reedição indica leitura a partir da pré-adolescência. As duas fórmulas convivem porque o livro nunca foi só “infantil” nem só “adulto”.
A edição que se compra agora
Em 16 de agosto de 2021, a Seguinte, selo do Grupo Companhia das Letras, relançou o título como nova edição, com 104 páginas e ISBN 978-85-5534-171-7. É essa a edição corrente em português, em brochura. O original de 1998, ISBN 978-85-7164-800-5, continua sendo a estreia histórica. Quem quer o texto de agora encontra a reedição; quem estuda a recepção da época precisa da primeira.
Em 2014, a Hachette publicou na França L'Odalisque et l'éléphant, com ilustrações de Charlotte Gastaut. É o mesmo romance, não um segundo enredo. A travessia importa: o livro nasceu em português, no Brasil, e só anos depois ganhou vida francesa. O caminho inverso é o de Les Éveilleurs, escrito em francês e depois vertido para o português com a colaboração da autora.
Para quem faz sentido
O leitor que chega por fantasia épica pode estranhar a escala. Aqui não há vale, gêmeos nem saga. Há um palácio, um elefante e uma jovem que pensa demais sobre quem é e sobre o que é o amor. Serve a quem gosta de conto longo, de desfecho que reorganiza o que parecia ornamento, e de um primeiro livro que já mostra o trânsito de Pauline Alphen entre línguas. Não promete série. Promete uma história fechada, curta o bastante para ser relida quando o final muda o começo.



