Em 1998, a Companhia das Letras publicou um romance escrito em português por alguém que já não cabia num só país. Pauline Alphen, nascida no Rio de Janeiro em 1961, filha de pai francês e mãe brasileira, estreava com A odalisca e o elefante. O livro recebeu o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, na categoria jovem. Quem procura o nome hoje não encontra uma figura de televisão: encontra uma autora que atravessa o Atlântico na biografia e também na língua em que decide publicar.
A dúvida que chega com o nome costuma ser tripla. Quem é essa franco-brasileira. Por que a saga Les Éveilleurs levou prêmios de fantasia juvenil na França. E o que chegou às livrarias brasileiras como Os Gêmeos. A resposta passa por tradução, por um roteiro de cinema e por livros de infância, escola e imaginação que não pedem licença a um único mercado.
Quem é Pauline Alphen
O relato que ela mesma publica no site oficial começa no Rio e não fica lá. Pai francês, mãe brasileira, uma vida repartida em blocos: quatro anos de um lado, dez do outro, e depois o mesmo movimento invertido. Por volta dos dez anos, no primário francês, um professor chamado Milési propôs à turma escrever textos livres. A expressão ficou. Ela conta que, dali em diante, a sensação de escrever não a abandonou.
Aos treze, a família voltou ao Brasil. Foi nesse retorno que Pauline Alphen diz ter tomado posse da outra língua e descoberto a tradução como passagem, não como escolha obrigatória entre português e francês. Perfis da Hachette resumem o estudo de jornalismo e de história no Brasil e, em seguida, o trabalho de tradutora e de redatora. O IdRef, base das bibliotecas universitárias francesas, anota a tradução do português brasileiro para o francês. Em 2005, o nome dela aparece ao lado de Michel Riaudel na tradução de Gants de peau & autres poèmes, de Ana Cristina Cesar.
Duas línguas, de Paris a Toulouse
A estreia em livro no Brasil veio antes dos prêmios franceses de 2010. A odalisca e o elefante saiu em 1998 pela Companhia das Letras, escrito em português. A apresentação da época a descrevia como jornalista e tradutora morando em Paris, com 37 anos. Esse endereço não é o de agora. Hachette, Nathan e o site oficial situam a residência atual em Toulouse. A biografia de festival também liga o romance de estreia a viagens ao Sri Lanka, à Índia e a Istambul: ela voltou de uma delas com a perna engessada e, imóvel, imaginou o encontro de uma jovem com o elefante branco de um sultão.
Na França, a ficção ganhou outro eixo com Les Éveilleurs. O primeiro volume, Salicande, saiu pela Hachette em 2009. Em 2010, esse tomo recebeu o prêmio Imaginales dos collégiens e o prêmio Elbakin.net de melhor romance francês de fantasia juvenil. Perfis de editora guardam a cena que ela associa à origem do ciclo: em 2000, atrasada depois de deixar o filho na creche, viu o ônibus passar, correu na chuva e anotou, ainda de pé no veículo seguinte, a frase de uma menina na Torre dos Livros. As aventuras, pensava a personagem, nunca aconteciam com as garotas. O volume só chegou às livrarias quase uma década depois.
O que ela publicou em português
Para o leitor brasileiro, o mapa útil cabe numa lista curta. Cada título explica um pedaço diferente da trajetória, e nenhum substitui o outro.
- A odalisca e o elefante (1998, Companhia das Letras; nova edição Seguinte em 2021) é o romance de estreia e o título Altamente Recomendável da FNLIJ.
- Do outro lado do Atlântico (2003, Companhia das Letrinhas, ilustrações de Maria Eugênia) reconta a infância entre os dois países.
- A porta estava aberta (2007, Companhia das Letras) e Cabeça de Sol (2008, Rocco, com o irmão Jean-Claude R. Alphen) seguem a linha publicada no Brasil.
- Os Gêmeos (2011, Companhia das Letras) é a edição brasileira de Salicande, com tradução de Dorothée de Bruchard em colaboração com a autora.
No lançamento brasileiro, Pauline Alphen escreveu que havia trabalhado de perto com a tradutora e que sentia o português de Os Gêmeos tão seu quanto os livros nascidos nessa língua. Separados e A Aliança, volumes seguintes da saga, saíram depois pela Seguinte. A Gallimard Jeunesse publicou ainda Aujourd'hui au Brésil, relato infantojuvenil sobre o país, no catálogo francês.
Quem acompanha a literatura de ficção no Brasil encontra outros autores de imaginário e de fantasia. O caso de Pauline Alphen é específico: a saga que a tornou conhecida na França foi escrita em francês e só então refeita, com a mão dela, para o português.
Cinema, escola e o ofício recente
Antes da saga, houve cinema. Pauline Alphen é uma das autoras do roteiro de O Diabo a Quatro (2004), dirigido por Alice de Andrade, ao lado de Joaquim Assis, Claudio Macdowell, Jacques Arhex e Jean-Vincent Fournier. Em 2005, esse roteiro foi distinguido como melhor no Cuiabá Film and Video Festival. O crédito permanece nas filmografias públicas ligadas ao nome, inclusive no IMDb.
O catálogo juvenil francês continuou fora da saga. Gabriel et Gabriel (Hachette, 2011) acompanha um menino francês de onze anos no primeiro verão no Brasil e no encontro com outro Gabriel, de outro sol e de outra liberdade. O romance recebeu o Prix Petits Champions de la Lecture em 2014 e o Prix Littéraire de Gennevilliers em 2017. Em novembro de 2014 virou espetáculo no Théâtre Dunois, em Paris, e também adaptação para ópera. La vraie vie de l'école (Nathan, 2018, ilustrações de Joanna Wiejak) recebeu o prêmio Renaudot des benjamins em 2019. O livro segue uma menina disléxica e o que a escola, sobretudo o recreio, faz com essa diferença. Em 2020, a mesma personagem, Ambre, volta em L'Arbre, le chat, le grand-père, também pela Nathan, num relato de 95 páginas sobre uma criança diante da morte.
O ponto de encontro atual é o site paulinealphen.com. Ali estão o blog, a newsletter mensal Écrire comme on respire e o registro das oficinas de escrita. Em 2026, a agenda pública incluiu um estágio para adolescentes na livraria Ombres Blanches, em Toulouse, e um retiro de escrita na floresta de Orléans. Em 2023, o jornal L'Écho Républicain registrou um trabalho dela com alunos de uma seção profissional do lycée Branly, em Dreux. O Instagram @paulinealphen é o perfil ligado a esse site. A página fala de uma escritora em atividade, não de um verbete fechado em 2011.




